O frescor de retratar o mundo aos 19 anos
Junho 26, 2009

Produção de baixíssimo orçamento faz raio X da juventude contemporânea
Segundo um amigo meu, estudante de cinema, términos de relacionamento são temas muito recorrentes nos roteiros dos curtas de seus colegas, aspirantes a cineastas. Arrisco afirmar que a tendência se justifica no fato de os rompimentos amorosos serem um dos primeiros e, normalmente, mais marcantes dramas que alguém de 20 e poucos anos sofre. Lidar com a rejeição do parceiro e com o fim das ilusões românticas faz parte do amadurecimento.
Apesar da forte carga dramática que o assunto suscita, o longa de estreia de Matheus Souza, Apenas o Fim, não é melancólico, aspecto que se configura como uma das fragilidades do filme. Após a personagem de Érika Mader anunciar ao namorado que está indo embora em uma hora, o que corresponde ao tempo que lhes resta como casal, os dois especulam sobre o futuro e fazem um balanço do relacionamento enquanto andam pelo campus da PUC-RJ. Estas sequências são intercaladas com flashbacks, em preto e branco, de momentos da vida dos personagens.
Durante o diálogo, diversos ícones da cultura pop e objetos de consumo cultural de uma geração são evocados, desde o Orkut e o Playstation, a Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon e Transformers, até Backstreet Boys e Radiohead. Mistura-se neste caldeirão de referências Bergman e Godard, afinal os personagens são estudantes de cinema. Em uma sociedade em que você é o que consome, estes símbolos surgem como forma de conhecermos os personagens. A metáfora entre o amor e os hambúrgueres do McDonald´s, feita pelo personagem de Gregório Duvivier, também diz muito sobre esta geração e o caráter fluido das relações na contemporaneidade.
Apenas o Fim é um filme feito por jovens e para jovens. Érika e Gregório transpiram leveza, vivacidade e despreocupação. Ela quer ser atriz, ele roteirista. Os tons verde claro das árvores do campus e a fotografia luminosa se aliam à força dos atores, principalmente da inquieta personagem de Érika, na composição desta imagem da potencialidade da juventude. O fato de a garota andar sem parar, fazendo com que seu namorado esteja sempre a segui-la, reflete sua necessidade por novas experiências e descobertas. Apesar de não revelar seu destino, é provável que a garota esteja rumo a um intercâmbio, viagem que simboliza uma espécie de rito de passagem para grande parte dos jovens de classe média brasileiros.
Ao mesmo tempo em que condensa características universais desta faixa etária, o filme traz a aura da juventude carioca, por meio das gírias e do modo peculiar de se portar e se vestir. A levada mansa da canção dos Los Hermanos, grupo fundado por estudantes da PUC-RJ, que encerra o longa, também ajuda a caracterizar o clima desta geração.
O filme foi realizado com baixíssimo orçamento em esquema de produção quase amador, em que todos trabalharam de graça, com exceção do técnico de som. Os protagonistas eram colegas de Matheus, e os equipamentos, emprestados da faculdade. Estas características, somadas aos diálogos coloquiais bem elaborados e à filmagem com câmera na mão, remetem a longas de alguns dos “jovens turcos” da nouvelle vague francesa.
O próprio diretor confirma o nítido parentesco de Apenas o Fim com Antes do Amanhecer e Antes do Anoitecer de Richard Linklater. Woody Allen também é uma importante referência, assim como os filmes do brasileiro Domingos de Oliveira, que atualmente desenvolve projetos com o cineasta estreante.
Apesar das limitações devido à inexperiência e aos escassos recursos técnicos, o despretensioso longa de Matheus é um convite a viagens nostálgicas à época da universidade ou, para os que têm 20 e poucos anos, um lembrete de que vivem a melhor parte de suas vidas. Que sua corajosa empreitada sirva de incentivo a novos diretores e que o frescor deste seu primeiro filme torne-se uma marca de sua filmografia.
Aguardaremos.
Publicada no Guia da Semana
A Cinéfila na Revista da Hora
Junho 23, 2009
A Cinéfila está famosa! O blog foi destacado em matéria da Revista da Hora, do Jornal Agora, junto como outros nove sites para se informar sobre cinema. A lista, publicada em 19 de abril, também inclui o IMDB, a Ilustrada no Cinema e o Cineclick. Confira!

Fé em xeque
Maio 22, 2009

Uma das obras primas de Bergman reflete questionamentos religiosos do diretor
De 1956, O Sétimo Selo é baseado na peça O Retábulo da Peste que Ingmar Bergman escreveu para seus alunos da Escola de Teatro de Malmö. O longa, filmado em 35 dias, acompanha a trajetória do cavaleiro Antonius, que acaba de voltar das Cruzadas com seu escudeiro, e é surpreendido com a figura da Morte. Diante da notícia que iria morrer, o protagonista propõe que seu destino seja decidido em uma partida de xadrez.
Este prolongamento da vida faz com que o personagem resolva fazer uma última boa ação – ajudar um casal de atores – ao mesmo tempo em que ele entra em um processo de dúvidas, incertezas e angústia sobre a fé e Deus. Afinal, ele matou em nome do catolicismo, vê as injustiças cometidas pela Inquisição, a Europa assolada pela peste negra e pela fome e um fanatismo religioso extremamente destrutivo. Como poderia existir Deus em tal cenário?
No livro Imagens, o diretor reconhece que O Sétimo Selo está impregnado de suas concepções religiosas em diferentes períodos da vida. Os questionamentos do protagonista são reflexos dos de Bergman que, como filho de pastor luterano, teve uma educação muito rígida marcada pelas visitas frequentes a igreja e pelos sentimentos de culpa, pecado, castigo, perdão, confissão e indulgência.
Antonius carrega resquícios da fé infantil de Bergman, que podem ser observados por seu o hábito de rezar e de se confessar, o medo da morte e a crença em uma vida para além deste mundo. Mas, ao mesmo tempo, o personagem busca o conhecimento como forma de se libertar dos dogmas religiosos, como a existência de Deus, que ele tanto coloca em dúvida. O cavaleiro tem como antagonista Jons, seu escudeiro, personagem extremamente racional que não acredita em nada além da vida na Terra.
A proposta do jogo de xadrez não é casual, ela reforça a tentativa do personagem de se livrar da lógica do misticismo. Além de suas peças serem alegorias da estratificação da sociedade medieval, o resultado de uma partida de xadrez depende exclusivamente da habilidade dos jogadores. Trata-se, portanto, de um jogo que exalta o livre-arbítrio, e não o acaso ou destino, como os dados. Já a construção desmistificada da personagem da Morte, um homem com o rosto pintado de branco – como o de um palhaço – que jogava xadrez, conversava e até fazia brincadeiras, é uma tentativa de combater as representações religiosas da figura com ironia.
A família dos atores Jof e Mia representam a idéia de que o homem é um ser sagrado, que o diretor afirma ser seu conceito de religiosidade na maturidade. Com uma certa inocência e alegria infantis, eles divertem o público do vilarejo, cantam, dançam e brincam. A cena em que os personagens comem morangos silvestres e leite é emblemática, pois demonstra a fascinação do cavaleiro com aquela vida simples e sem preocupações que vivem os artistas. Não por acaso, eles são os únicos que sobrevivem. Talvez seja o tipo de concepção de vida que Berman gostaria que prevalecesse no mundo.
Uma das sequencias mais marcantes de O Sétimo Selo, que se tornou célebre, é a que os personagens são conduzidos pela Morte em uma dança. Curiosamente, ela não foi realizada pelos atores, que já haviam ido embora quando Bergman decidiu chamar assistentes de produção e turistas para realizar a cena, aproveitando o formato das nuvens no céu. A dança final pode ser interpretada como a conscientização dos personagens em relação à morte, pois, se não houver nada depois da vida, deve-se celebrar este último instante, mas caso exista, não há porque temer, por isso eles abandonam o medo e vão felizes ao encontro deste lugar misterioso.
Publicada no Guia da Semana
O cinema comercial brasileiro no Divã
Maio 2, 2009

Novo filme de José Alvarenga Jr. é a mais nova aposta da Total Entertainment em busca do grande público
Divã de José Alvarenga Jr. estreia com o desafio de repetir o sucesso da peça de Marcelo Saback, que ficou em cartaz por três anos e foi vista por 175 mil espectadores. Assim como a peça, adaptação do livro da gaúcha Martha Medeiros, o filme acompanha a vida de Mercedes, mulher de classe média na faixa dos 40 anos, casada, com dois filhos, que decide ir ao terapeuta por curiosidade. Ao longo da história, percebe-se que a vida perfeita, então descrita pela personagem na primeira sessão com o analista, esconde doses de comodismo e marasmo. A análise faz com que Mercedes promova uma reviravolta em sua vida, com direito à traição, divórcio e namorado 20 anos mais novo.
O longa garante muitas risadas. As interpretações de Lília Cabral e de Alexandra Richter, amiga da protagonista, são pontos altos do filme. O diretor comete alguns deslizes, como o incidente com a amiga, que introduz uma quebra no ritmo da comédia completamente dispensável, ou a cena em que Gianecchini termina com Mercedes enquanto uma tempestade se forma no céu, gerando um clichê terrível. Assim como estes, há outros momentos bastante toscos, mas que não chegam a comprometer a diversão.
O elenco estelar, composto por Lília Cabral, José Mayer, Reynaldo Gianecchini e Cauã Reymond, se alia à trama universal – um casal em crise – e grandes doses de humor na tentativa de conquistar o público. Essa combinação não lembra Se Eu Fosse Você 2? Sem dúvida. Divã guarda várias semelhanças com o recordista de bilheteria da retomada. Ambos os filmes são produzidos pela Total Entertainment, responsável também por Avassaladoras, Sexo, Amor e Traição, A Guerra dos Rocha, entre outros longas com perfil comercial. A produtora aposta na estratégia do cross-over, filmes que atinjam todas as classes sociais e idades para obter sucesso de público. Outro ponto em comum entre Divã e o último longa de Daniel Filho é o grande investimento em publicidade, indispensável para que eles cheguem em seu potencial espectador. Mas a equação não é tão simples. É muito difícil conseguir o feito de Se Eu Fosse Você, pois não há como prever a recepção do público.
Assim como Daniel Filho, José Alvarenga Jr. se formou na televisão, dirigindo seriados de sucesso, como Os Normais, Sai de Baixo, A Diarista e, atualmente, Força Tarefa. Já no cinema, foi responsável pela direção dos últimos filmes dos Trapalhões que, junto com os longas da Xuxa, são as franquias mais bem sucedidas da história do cinema nacional.
Divã marca a estreia de Lília Cabral como protagonista no cinema, o que é de se espantar, afinal uma grande atriz da televisão só agora interpreta um papel de destaque em um longa. E ela não é a única. Assim como os diretores da televisão migram para o cinema, os atores de novela devem fazer o mesmo, pois é uma forma de alavancar público para o cinema nacional. Não que filmes experimentais e com propostas mais artísticas não devam ser feitos. Eles devem coexistir com produções que se comuniquem com o grande público para a construção de uma indústria cinematográfica nacional. Ainda precisamos de muitos Divã, Se Eu Fosse Você, O Auto da Compadecida e Dois Filhos de Francisco, pois os brasileiros só vão deixar de ir ao cinema para ver comédias norte-americanas, quando tivermos uma boa oferta de títulos nacionais. Afinal, para a maioria das pessoas, o cinema é exclusivamente uma forma de entretenimento e escapismo.
Publicada no Guia da Semana
Che Guevara embrulhado para presente
Março 27, 2009
Soderbergh vende versão capitalista do revolucionário em filme sem alma
Transpor uma personalidade como Ernesto Guevara de la Serna para o cinema não é tarefa fácil. O revolucionário, que se transformou em mito, está presente no imaginário coletivo, seja como herói ou assassino. Portanto, independente da posição ideológica que o norte-americano Steven Soderbergh tomasse para conduzir a narrativa, iria dividir a opinião do público. O diretor de blockbusters, como Traffic e a franquia Onze homens e um segredo, diante desse impasse, optou por repaginar “Che”, suavizando sua postura e ideologia.
O capitalismo foi hábil em ressignificar o guerrilheiro, transformando sua imagem em objeto de consumo. Soderbergh apenas adere a esse movimento tornando “Che” Guevara uma figura palatável para o grande público. Benício Del Toro interpreta, portanto, um comandante ético, intelectual e eficiente no cumprimento de suas funções revolucionárias, seja no front ou cuidando de feridos. Um herói que precisa ir contra adversidades, como sua asma ou guerrilheiros traidores.
Che, que compõe o díptico com Che – A Guerrilha (a ser lançado em maio), acompanha a trajetória de Fidel, Raul Castro, do próprio “Che” Guevara e outros guerrilheiros rumo à libertação de Cuba da ditadura de Fulgêncio Batista, apoiada pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Como qualquer filme de guerra hollywoodiano, este enfatiza as cenas de ação, ressaltando as estratégias, hierarquia e regras próprias do combate, o treinamento de novos recrutas, a assistência aos feridos, entre outros aspectos do cotidiano da batalha.
Porém, como a guerrilha em questão tinha a particularidade de estar amparada na ideologia socialista, o diretor insere algumas falas em off do médico argentino discursando contra o imperialismo, a opressão e o capitalismo e a favor da liberdade dos povos da América Latina. Afinal, é necessário colocar uma pitada de cor local nas cenas de ação e dar pequenos momentos de alegria aos que têm apreço pelo socialismo.
Um dos poucos acertos do filme está na fotografia. As imagens da guerrilha na floresta, de um verde marcante, são intercaladas com cenas em preto e branco, da ida do protagonista às terras yankees para divulgar os ideais da revolução. Estabelece-se então, um contraste interessante entre o “Che” em combate, vivo, e o burocrata, sem cor.
Diários de Motocicleta, o longa protagonizado por Gael García Bernal e dirigido pelo brasileiro Walter Salles, apesar de ser um road movie, privilegia a reflexão do jovem argentino na viagem pela América Latina. As tomadas mais longas e um profundo respeito e admiração na forma de construir o personagem compõem um retrato tocante e poético de um período decisivo na formação intelectual do então estudante de medicina.
O filme de Walter Salles é admirável, pois ele tem consciência que a história do revolucionário não cabe na fórmula do cinema comercial norte-americano. Era necessário um diretor com mais talento e personalidade para levar às telas a aventura de 86 jovens que, “movidos por grande sentimento de amor à humanidade, justiça e verdade”, segundo o protagonista, transformaram Cuba no primeiro país socialista da América. Afinal, assim como na guerrilha, não é possível fazer cinema sem paixão.
Publicada no Guia da Semana
Vencedor do Oscar pasteuriza cultura indiana
Março 13, 2009

Desculpem-me os entusiastas de Quem Quer Ser Um Milionário?, mas esta crítica não é elogiosa. O filme, como se sabe, ganhou sete prêmios Bafta, quatro Globos de Ouro e oito Oscar, colocando-se como a produção de maior destaque no cinema comercial deste ano. Primeiro, é bom enfatizar que o Oscar e o Globo de Ouro são premiações voltadas para a indústria cinematográfica norte-americana, mas, devido à força imperialista deste cinema, os filmes vencedores são valorizados e largamente consumidos mundialmente. A história do cinema comprova também que entre a lista de vencedores do Oscar não necessariamente estão os filmes mais relevantes daquele ano, como Cidadão Kane, por exemplo, que recebeu apenas o prêmio de melhor roteiro adaptado, em 1942.
Apesar de Quem Quer Ser Um Milionário? ser baseado no livro Sua Resposta Vale um Bilhão do indiano Vikas Swarup, realizado com atores amadores indianos (o protagonista é inglês) e filmado em Mumbai, trata-se de uma produção inglesa. Portanto, o longa reflete uma visão estrangeira sobre a Índia. O país, onde 455 milhões de habitantes sobrevivem com menos de 1,25 dólar por dia, foi colônia britânica até, pasmem, 1947. Portanto, como um cineasta pode filmar a pobreza de uma nação da forma estetizada como fez, sabendo que seu país foi responsável por isso? É muito cruel.
O inglês Danny Boyle parece incoerente quando afirma detestar Cidade de Deus e as comparações feitas entre seu filme e o brasileiro. Em entrevista, César Charlone, diretor de fotografia do longa sobre o bairro carioca, diz que seu amigo e fotógrafo da produção inglesa, Anthony Dod Mantle, gosta muito de Cidade de Deus. Não há como negar que a câmera na mão, os enquadramentos e as cores saturadas que adquirem a favela de Mumbai não são influencias do filme de Fernando Meirelles. Tanto que, uma das críticas que o filme tem recebido na Índia, o de fazer “pornografia da miséria”, é outra versão da polêmica da cosmética da fome, levantada na época do lançamento de Cidade de Deus.
Há outros aspectos que aproximam as produções. O desfecho da trajetória do favelado Jamal Malik é o mesmo de Buscapé: a ascensão social justificada pelo caráter. De acordo com a lógica do filme, o correto e sofrido Jamal sabe as respostas por força do destino, assim como Buscapé consegue o trabalho no jornal por não ter se corrompido com o tráfico e a criminalidade. Os longas apresentam soluções individuais para o problema estrutural da desigualdade social nos subdesenvolvidos, Índia e Brasil.
Já que a vida na Índia parece despertar a atenção da Academia, por que não premiar uma produção local? Claro que não, afinal não é interessante correr o risco de disputar mercado com Bollywood, a indústria que produz mais filmes no mundo. Premia-se então o conto de fadas pós-moderno de Boyle que atrai pela forma exótica e palatável que o país é retratado, cumprindo as expectativas do público ocidental e ignorando a cultura indiana.
Se quiser saber mais sobre a Índia e sua produção cinematográfica, em vez de assistir Quem Quer Ser Um Milionário? (ou a novela Caminhos das Índias), confira um dos ótimos longas indianos em cartaz na mostra Bollywood e o Cinema Indiano na Cinemateca Brasileira, de 17 a 29 de março.
Publicada no Guia da Semana
O poder dos encontros
Fevereiro 11, 2009

No longa de Stephen Daldry, as vidas do jovem de 15 anos, Michael Berg (David Kross), e da mulher madura, Hanna Schmitz (a magnífica Kate Winslet), se cruzam em um dia chuvoso em que ele passa mal na rua. Ela o ajuda a ir para casa e ele descobre, posteriormente, que está com escarlatina. Depois de se recuperar, o garoto procura Hanna em sua casa para agradecer o gesto. Pelo vão da porta, ele a observa trocar de roupa, mas logo sai correndo, ao notar que ela o viu. Com um misto de excitação e medo, Michael retorna a casa e eles iniciam um intenso relacionamento, que vai durar a vida toda, adquirindo diferentes formas.
As visitas diárias de Michael à casa de Hanna seguem um ritual. Ele lê para ela, eles tomam banho (em algumas cenas ela lava-o com uma postura maternal, o que é muito tocante e diz sobre o tipo de relação ali estabelecida) e, finalmente, fazem sexo. Nos encontros, inocência, pureza e juventude contrastam com dureza e maturidade. É com grande entusiasmo que Michael deixa a companhia dos amigos para se encontrar com ela, diariamente, durante um belo verão, até o dia em que a mulher se muda, sem dar explicações.
Michael vai para a faculdade de direito, anos depois, e, em um julgamento de crimes nazistas, reencontra sua antiga amante no banco dos réus. Ela é condenada à prisão perpétua, por preferir não revelar um segredo humilhante (em sua visão), mas que reduziria a pena. O garoto também não interfere no julgamento, mesmo sabendo o que Hanna escondia. Atormentado pela culpa, a vida afetiva do advogado, interpretado na fase adulta por Ralph Fiennes, nunca será feliz. Ele tem uma filha, que mal vê e um casamento que não deu certo. É um solitário.
Certo dia na prisão, Hanna, já bem velha, recebe uma caixa cheia de fitas cassete com livros gravados por Michael. Esses objetos devolvem a vida à prisioneira, que passa a decorar a cela e se arrumar. A partir das gravações, um milagre acontece: Hanna pega livros na biblioteca e aprende a ler sozinha. Por meio da literatura, a personagem tem sua sensibilidade recuperada e, por isso, se dá conta da gravidade dos atos que cometeu. Os livros e a indiferença de Michael no encontro na prisão tornam-se pilares da última e decisiva ação desta mulher.
A adaptação do romance homônimo de Bernhard Schlink permite que o espectador testemunhe um tipo de relação que não se encontra nos individualistas dias de hoje. Acompanhamos na tela a extraordinária interferência que uma pessoa pode exercer na vida de outra, a ponto de mudar o curso de tudo o que se segue. É como se o encontro destas almas simbolizasse um marco e os acontecimentos fossem analisados tendo em vista o período anterior àquela relação e posterior.
Michael canalizou sua culpa de não ter ajudado Hanna no julgamento por meio das fitas. O ato é tão sensível e mágico em um mundo em que as pessoas resolvem seus dilemas no divã de um psicólogo e simplesmente seguem suas vidas ignorando o efeito que tiveram sobre outro ser. Por isso, O Leitor parece deslocado de seu tempo, e é bom que seja, para servir de alerta sobre a descartabilidade e utilitarismo que regem as relações atuais.
Implosão do american way of life
Fevereiro 5, 2009

Sam Mendes, assim como David Fincher com O Curioso Caso de Benjamin Button, nos faz acreditar que ainda há vida inteligente em Hollywood. No drama Foi Apenas um Sonho, Leonardo DiCaprio e Kate Winslet interpretam Frank e April Wheeler, casal dos anos 50 tido como modelo para vizinhança de Connecticut, nos Estados Unidos. April é dona de casa e cuida dos dois filhos, enquanto Frank trabalha na mesma empresa onde seu pai foi funcionário durante anos. Apesar de terem uma vida confortável, uma bela casa, um carro, lindos filhos e amigos, os Wheeler se sentem frustrados por não terem realizado os sonhos da juventude e sufocados pela vida monótona. Com o relacionamento em crise, April propõe ao marido que se mudem para Paris.
Assim como em Beleza Americana, primeiro longa do diretor, Foi Apenas um Sonho é uma grande crítica ao american way of life, ao padrão de vida vazio e hipócrita da burguesia americana. A loucura de John, filho de uma das vizinhas do casal, revela muito do caráter desta sociedade. Ele vive internado em um hospício, mas paradoxalmente é o que analisa com mais clareza a situação do casal. O personagem rendeu uma indicação ao Oscar para Michael Shannon.
No decorrer do longa, a postura de Frank revela como a segurança e prestígio sociais falam mais alto e os sonhos acabam ficando para trás. A loucura de John, a transformação de Frank e o trágico destino de April deixam claro: não há escapatória naquela sociedade.
A adaptação do romance de Richard Yates impressiona pela atuação da dupla, que acabou rendendo o Globo de Ouro de melhor atriz para Kate Winslet, mulher do diretor. Sua interpretação faz por merecer, principalmente na seqüência, já perto do final do longa, em que ela prepara o café da manhã para o marido. Há uma clara tentativa em se passar por esposa exemplar, mas seu sorriso de aparente felicidade traz toda a revolta da personagem.
Tempo, morte, paixão e envelhecimento
Janeiro 21, 2009

Desde maio, não escrevo neste blog. É que como estudante do último ano de jornalismo na PUC, precisava me dedicar ao TCC. O resultado pode ser conferido em http://cinecaleidoscopio.com.br, site realizado com o objetivo de refletir sobre o cinema nacional contemporâneo. Como aprendi. Nossa, foi uma experiência maravilhosa. Falar com os críticos. Ver os filmes, muitos e muitos filmes. Pensar, pensar, escrever, pensar. Foi uma grande realização.
Bom, mas claro que, fora o TCC, continuei a ver muitos filmes. E o longa que inicia essa retomada do blog A Cinéfila é “O Curioso Caso de Benjamin Button”. É bem difícil escrever um texto sobre esse filme sem usar superlativos. Desde quando vi o trailer e li a sinopse do longa, sabia que ele tinha algo de especial. Estava bastante ansiosa para assisti-lo, pois tenho muito interesse sobre o tema do envelhecimento, da morte, de como as coisas mudam com o tempo, ou melhor, como nossa visão sobre as coisas muda radicalmente com o tempo.
Inspirado em um conto de F. Scott Fitzgerald e dirigido por David Fincher, o filme retrata a trajetória de Benjamin Button, menino que nasce com a aparência de um velho e vai rejuvenescendo conforme a passagem do tempo. O pai rejeita a criança e abandona-a na porta de um asilo, que passa a ser seu lar. Lá ele convive de perto com a morte, que leva, de tempos em tempos, várias das pessoas que habitam o lugar.
É triste notar como ele é sozinho a vida toda. Quando criança, não consegue brincar com outras pelo fato de estar aprisionado em um corpo de um senhor cerca de 80 anos, com artrite e sem poder andar. Porém, mesmo depois de ir remoçando, sua distância das pessoas continua enorme. O convívio com os idosos no asilo e sua vida nada convencional fazem com que ele adquira maturidade muito cedo. Isso se torna muito evidente em sua relação com a bela Daisy, uma bailarina no auge da carreira que esbanja autoconfiança e uma certa petulância juvenil, interpretada por uma irretocável Cate Blanchett.
Um acontecimento muda a dinâmica da relação entre eles. Por sinal, a seqüência é ótima e quebra o ritmo do longa até o momento. O fato acaba por aproximar Button e Daisy. Porém, há uma melancolia inerente àquela felicidade, pois sabe-se quão frágil e fulgaz ela é. Mas, não estaria este sentimento no centro de toda paixão? Talvez seja isso que mais emocione na história de Benjamin. Ele fala sobre temas que nos acompanham durante a vida. A cena em que o casal se vê refletido no espelho da escola de dança é de uma força. Ela resume o desejo de todo o apaixonado. Conseguir reter no tempo um instante de plena felicidade. Neste momento, Benjamin fala para Daisy ficar parada, pois ele gostaria guardar aquela imagem na memória. Arrepiante.
É interessante que o diretor passa longe das idealizações platônicas do amor e coloca o relacionamento afetivo em um plano muito realista. Para um casal se apaixonar e ficar junto é necessário que os objetivos sejam comuns, mas também que outros elementos conspirem a favor, como o acaso.
Brad Pitt merece nossa atenção neste filme. Ele surge na tela, na fase jovem do personagem, como uma figura sublime, etérea. Em algumas das cenas, tive a impressão de estar vendo James Jean, não por sua proposital aparência física e figurino, mas por sua interpretação. Ele tem lugar garantido entre os grandes ícones do cinema norte-americano, na minha opinião. Benjamin me lembrou Joe Black de “Encontro Marcado”, em que Brad Pitt interpretava a morte, talvez pela inadequação de ambos os personagens.
Outro elemento notável no filme é a relação que se estabelece entre a natureza e a vida dos protagonistas. Benjamin trabalha em um barco, portanto seu caminho é determinado pela natureza. Daisy, já no final de sua vida, está internada em um hospital em Nova Orleans, ameaçado pelo furacão Katrina, que acaba por destruir parte da cidade. Ou seja, por mais que os homens queiram acreditar que têm controle sobre suas vidas, a natureza é mais forte e determina o rumo dos acontecimentos. Isso dá uma dimensão muito trágica à trajetória de Benjamin.
Que bom que, de vez em quando, surjam produções como essa em Hollywood.
Imagine a situação. Um outdoor cai no muro de um dos luxuosos e super-seguros condomínios de Alphaville e cria uma ponte por onde entram três jovens moradores da enorme favela que existe ao lado. Um assalto mal sucedido acaba com a morte de dois dos meninos, de uma das moradoras e de um segurança. A partir deste momento os habitantes do conjunto habitacional iniciam uma caçada para encontrar o “assassino” e demonstram até onde a classe média é capaz de chegar para manter sua segurança e em última instância, seu status de classe.
O roteiro acima poderia se passar no Brasil, mas acontece na Cidade do México no condomínio, “La Zona”, que dá nome ao primeiro longa do diretor mexicano Rodrigo Plá. Laura Santullo, mulher do diretor, escreveu ”La Zona” como um conto futurista, no qual a exclusão social seria levada ao limite e os cidadãos, abandonados pelo Estado, se organizariam em comunidades fechadas. A surpresa, admite o cineasta, foi constatar que o futuro já havia chegado. Quando Laura e ele começaram a pensar no filme, descobriram que na Cidade do México já havia condomínios como o do texto.
Com o título de ”Zona do Crime” aqui no Brasil, o filme foi pensado para ser um thriller social que pudesse ser desfrutado como filme de suspense, segundo o diretor, por esta razão, é assumidamente um filme para grande público. Porém, este fato não limita sua postura crítica. Rodrigo Plá consegue de forma admirável mapear o cotidiano e o modo de pensar da classe média em um país subdesenvolvido. Acuada pelo crescimento da pobreza e pelo medo de perder seu status social, os indivíduos que compõem esta classe tem a ilusão de estarem seguros morando em condomínios super-vigiados, cheios de câmeras e guardas. Quando esta suposta segurança é ameaçada, emergem os sentimentos mais individualistas e perversos. Um dos acertos do filme é não estereotipar a classe, compondo-a com personagens complexos, que vão do vizinho que não concorda com as decisões totalitárias dos membros da assembléia do condomínio, exigindo a intervenção da polícia no caso, até aquele que acredita que o suborno vai resolver todos os seus problemas, interpretado pelo irmão de Javier Bardem, Carlos Bardem. As posturas e hábitos dos adolescentes do conjunto habitacional são também muito verossímeis e ajudam a entender este universo retratado pelo longa.
O filme, premiado no Festival de Veneza de 2007 com o Leão do Futuro, dado a diretores estreantes, aborda também o papel da polícia na relação entre classes e da ausência do Estado nesta sociedade em que quem determina as regras é quem tem mais poder de compra, em que os cidadãos são vistos como consumidores e a justiça é um instrumento de classe.
Algo que me intrigou foi comparar este com os longas brasileiros que tratam sobre o mesmo assunto e perceber que nenhum dos nacionais conseguiu chegar onde Rodrigo Plá chegou. É uma pena. Os filmes contemporâneos brasileiros mais bem sucedidos ao tratarem esta relação entre classes sociais são, a meu ver, “Como Nascem os Anjos” e o “O Invasor”, mas nenhum destes consegue capturar a essência da classe média como o longa mexicano.
Continuando a referência a outros filmes, a reação dos moradores na assembléia e o clímax do filme, que por razões óbvias não posso revelar, me transportaram para “M, o Vampiro de Dusseldorf” de Fritz Lang. “A Vila” de M. Night Shyamalan também traz questionamentos, em certa medida, similares sobre a questão do isolamento e da mitificação do outro, do diferente.


