Imagine a situação. Um outdoor cai no muro de um dos luxuosos e super-seguros condomínios de Alphaville e cria uma ponte por onde entram três jovens moradores da enorme favela que existe ao lado. Um assalto mal sucedido acaba com a morte de dois dos meninos, de uma das moradoras e de um segurança. A partir deste momento os habitantes do conjunto habitacional iniciam uma caçada para encontrar o “assassino” e demonstram até onde a classe média é capaz de chegar para manter sua segurança e em última instância, seu status de classe.
O roteiro acima poderia se passar no Brasil, mas acontece na Cidade do México no condomínio, “La Zona”, que dá nome ao primeiro longa do diretor mexicano Rodrigo Plá. Laura Santullo, mulher do diretor, escreveu ”La Zona” como um conto futurista, no qual a exclusão social seria levada ao limite e os cidadãos, abandonados pelo Estado, se organizariam em comunidades fechadas. A surpresa, admite o cineasta, foi constatar que o futuro já havia chegado. Quando Laura e ele começaram a pensar no filme, descobriram que na Cidade do México já havia condomínios como o do texto.
Com o título de ”Zona do Crime” aqui no Brasil, o filme foi pensado para ser um thriller social que pudesse ser desfrutado como filme de suspense, segundo o diretor, por esta razão, é assumidamente um filme para grande público. Porém, este fato não limita sua postura crítica. Rodrigo Plá consegue de forma admirável mapear o cotidiano e o modo de pensar da classe média em um país subdesenvolvido. Acuada pelo crescimento da pobreza e pelo medo de perder seu status social, os indivíduos que compõem esta classe tem a ilusão de estarem seguros morando em condomínios super-vigiados, cheios de câmeras e guardas. Quando esta suposta segurança é ameaçada, emergem os sentimentos mais individualistas e perversos. Um dos acertos do filme é não estereotipar a classe, compondo-a com personagens complexos, que vão do vizinho que não concorda com as decisões totalitárias dos membros da assembléia do condomínio, exigindo a intervenção da polícia no caso, até aquele que acredita que o suborno vai resolver todos os seus problemas, interpretado pelo irmão de Javier Bardem, Carlos Bardem. As posturas e hábitos dos adolescentes do conjunto habitacional são também muito verossímeis e ajudam a entender este universo retratado pelo longa.
O filme, premiado no Festival de Veneza de 2007 com o Leão do Futuro, dado a diretores estreantes, aborda também o papel da polícia na relação entre classes e da ausência do Estado nesta sociedade em que quem determina as regras é quem tem mais poder de compra, em que os cidadãos são vistos como consumidores e a justiça é um instrumento de classe.
Algo que me intrigou foi comparar este com os longas brasileiros que tratam sobre o mesmo assunto e perceber que nenhum dos nacionais conseguiu chegar onde Rodrigo Plá chegou. É uma pena. Os filmes contemporâneos brasileiros mais bem sucedidos ao tratarem esta relação entre classes sociais são, a meu ver, “Como Nascem os Anjos” e o “O Invasor”, mas nenhum destes consegue capturar a essência da classe média como o longa mexicano.
Continuando a referência a outros filmes, a reação dos moradores na assembléia e o clímax do filme, que por razões óbvias não posso revelar, me transportaram para “M, o Vampiro de Dusseldorf” de Fritz Lang. “A Vila” de M. Night Shyamalan também traz questionamentos, em certa medida, similares sobre a questão do isolamento e da mitificação do outro, do diferente.
Desvendando a beleza que existe no real
Março 31, 2008
Primeiro, gostaria de pedir desculpas aos ávidos leitores deste blog que se frustaram ao não encontrar post novos este mês. É que a mistura de quarto ano de faculdade, TCC, trabalho e curso de cinema não está sendo muito saudável para mim. Mal tenho tempo para respirar ultimamente. Mas, continuo vendo muitos filmes. Afinal, meu TCC é sobre cinema e sempre que encontro uma brecha na agenda a primeira coisa que faço é correr para a locadora, como uma boa cinéfila.
Confesso que tenho me decepionado com muitos dos filmes que assisti recentemente. E quando isso acontece o que fazemos? Corremos para os bons e confiáveis clássicos. O escolhido da noite foi O Amigo da Minha Amiga (1987) da série Comédias e Provérbios de Eric Rohmer. Nossa, que filme! Eu sou suspeita para falar, Rohmer é um dos meus diretores favoritos, só perde para o cineasta que é tema do cabeçalho deste blog.
Rohmer foi crítico de cinema, editor chefe da famigerada Cahiers du Cinéma e depois iniciou sua trajetória como cineasta em um período particularmente importante da história do cinema francês, a Nouvelle Vague (nova onda). O movimento era composto por Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Claude Chabrol, entre outros, críticos e diretores da época que acreditavam no cinema autoral (mais informações sobre a Nouvelle Vague no post Homenagem ao cinema francês).
O caminho autoral que Rohmer seguiu foi o de fazer filmes tentando captar a simplicidade do mundo. O cineasta acredita que a poesia está nas coisas, nas pessoas e não em enquadramentos elaborados, por isso faz filmes tentando ocultar marcas de sua subjetividade. O que na prática não é bem assim, já que é praticamente impossível não reconhecer seus filmes, devido a algumas características das quais falarei logo mais. Ele segue uma linha teórica similar a de André Bazin no sentido de valorizar a representação do real. Outro cineasta que trabalha desta forma é o iraniano Abbas Kiarostami. Os esforços destes diretores estariam portanto a serviço de melhor contar determinada história. Filmes que tematizam o próprio cinema ou apresentam maior preocupação com a linguagem do que com a narrativa são considerados decadentes para o cineasta.
Quem assiste a um filme de Rohmer encontra histórias sobre o dia-a-dia de pessoas comuns, relacionamentos humanos, encontros casuais entre personagens que se transformam em grandes amizades, discussões sobre a natureza dos sentimentos e diálogos, muitos diálogos. Segundo o cineasta, seus filmes lidam “menos com o que as pessoas fazem do que com o que está passando pela cabeça delas enquanto elas estão fazendo isso. Um cinema de pensamentos, ao invés de um cinema de ações”. Seus protagonistas, na maioria mulheres independentes e muito conscientes de seus sentimentos, discorrem durante um longo tempo sobre a vida, o destino, o amor.
A câmera discreta, acompanha esses personagens adoráveis andando por cidades francesas, que acabam por se tornar personagens de seus filmes. Ele não usa figurantes e nenhum tipo de trilha sonora para dramatizar as situações. É a vida ali, em seu estado bruto e fascinante.
A filmografia do diretor é composta por três séries temáticas: os Contos Morais realizados nos anos 60 e 70, as Comédias e Provérbios, dos anos 80 e os Contos das Quatro Estações feito nos anos 80 e 90. Além das séries, o cineasta tem outros filmes.
Para quem está ansioso para assistir uma das obras do diretor, recomendo o Noites de Lua Cheia (1984), O amigo da minha amiga (1987) e os todos os Contos das Quatro Estações.
Vídeo feito para o programa Espaço Unisanta da Universidade Santa Cecília (Santos, SP) sobre o diretor:
Reflexões sobre o cinema brasileiro
Fevereiro 22, 2008
Tropa de Elite é um assunto sem fim, ainda bem. Gerou uma discussão nos comentários do post abaixo que considero bem interessante, por isso escrevo este texto.
Em relação ao comentário do Roger, acho o seguinte.
O público gosta de se ver representado na tela, a identificação é um fator que faz com que a pessoa se interesse pela obra. E o cinema brasileiro da retomada (período inaugurado com Carlota Joaquina, de 1995 até agora), tem inúmeras produções ficcionais que abordam acontecimentos históricos ou aspectos da realidade do país, como Carandiru, Cidade de Deus, Central do Brasil, Batismo de Sangue, entre outros. Apesar de não existir uma proposta estética que una os diversos filmes da retomada, como existia no cinema novo, a temática os confere certa unidade.
Outro aspecto desta questão é que os diretores brasileiros sentem que tem o dever de refletir sobre o país, como afirmam alguns críticos brasileiros. Acredito que esse sentimento pode ser um legado do cinema novo, o movimento estético mais relevante na cinematografia nacional, extremamente comprometido com os problemas do país, que marcou os diretores que vieram depois. É um palpite…
***
Como prometi, andei acompanhando as repercussões sobre o Urso de Ouro, perguntei para alguns críticos e acho que estou convencida do motivo pelo qual ganhamos o prêmio. Presidente do júri do Festival de Berlim, o diretor grego Constantin Costa-Gavras, tem uma filmografia marcada por longas de denúncia social e grande apelo emocional - características do premiado Tropa de Elite. Além disso, o fato de ser um filme brasileiro confere a obra um certo exotismo, uma espécie de fascínio pelo outro, pelo diferente, pelo cinema feito em um país subdesenvolvido.
Obs. Adoro ler comentários no blog
Repercussões do prêmio
Fevereiro 18, 2008
“É um filme muito forte, muito importante. Ajuda-nos a compreender a sociedade brasileira, e não apenas esta. Corrupção e violência são pragas que avançam em todo mundo. Com as especificidades de cada lugar.” Constantin Costa-Gavras
A lista completa de prêmios que os filmes brasileiros receberam em festivais de cinema internacionais:
EM CANNES:
1953 - O Cangaceiro, de Lima Barreto: melhor filme de aventura
1962 - Palma de Ouro: Pagador de Promessas
1969- Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro: direção de Glauber Rocha
1977 - Di Cavalcanti: melhor curta (Glauber Rocha)
1986 - atriz Fernanda Torres, Eu Sei Que Vou te Amar, de Arnaldo Jabor
EM VENEZA
1953 - Sinhá Moça, de Tom Payne.Premio Especial do Juri
1981 - Eles não Usam Black Tie, de Leon Hirszman, Prêmio Especial do Júri
EM BERLIM
1965 - Os Fuzis, de Ruy Guerra- Urso de Prata
1969 - Brasil ano 2000, de Walter Lima Jr. Urso de Prata
1973 - Toda Nudez, de A. Jabor (Prêmio Especial do Júri)
1978 - A Queda, Ruy Guerra e Nelson Xavier, Urso de Prata
1986 - melhor atriz Marcélia Cartaxo por A Hora da Estrela, de Suzana Amaral
1987 - melhor atriz Ana Beatriz Nogueira por Vera, Sérgio Segall Toledo
1990 - melhor curta Ilha das Flores, de Jorge Furtado
1998 - Central do Brasil. Urso de Ouro e melhor atriz para Fernanda Montenegro
Dá-lhe Tropa de Elite!!!
Fevereiro 17, 2008
Estou boquiaberta!! Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro em Berlim. Parece um sonho. Depois de o filme ter dividido opiniões e ser comparado a Rambo em uma crítica do site da revista Variety, ele foi consagrado. Gostaria de saber mais sobre o que chamou a atenção dos críticos no longa. Vou ficar atenta às repercussões.
O cinema brasileiro foi premiado apenas três vezes nos principais festivais de cinema do mundo – Cannes, Veneza e Berlim. Em 1962, O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, levou a Palma de Ouro em Cannes, em 1998, Central do Brasil, de Walter Salles ganhou Urso de Ouro em Berlim e, depois de 10 anos, o longa de José Padilha leva o prêmio máximo de Berlim. O Brasil foi destaque em Berlinare com outras produções, além de Tropa de Elite. Mutum, de Sandra Kogut, recebeu menção especial do júri. Café com leite, de Daniel Ribeiro, foi melhor curta-metragem da Mostra Geração, que premia produções com crianças ou adolescentes protagonistas. E o curta-metragem Tá, de Felipe Sholl, recebeu o Teddy Award, dedicado a filmes com temáticas do universo gay.
Os outros prêmios principais do festival foram para Standard Operating Procedure, documentário norte americano que levou o Urso de Prata. Paul Thomas Anderson ganhou melhor diretor por Sangue Negro. Reza Naji foi considerado o melhor ator pelo iraniano The Song of Sparrows e Sally Hawkins, melhor atriz pelo filme britânico Happy-go-Lucky. E o longa chinês In Love We Trust ganhou de melhor roteiro.
Berlim acabou, mas os cinéfilos já estão se preparando para as premiações de domingo que vem do Oscar. Procurei assistir a maioria dos indicados e tenho minhas apostas. Sangue Negro, na minha opinião, deve ser o grande premiado da noite, levando melhor filme, melhor diretor para Paul Thomas Anderson e melhor ator para Daniel Day Lewis, apesar de ter um forte concorrente em Onde os Fracos Não Têm Vez. Assisti ontem a Sangue Negro e depois preparo uma crítica à altura, mas adianto, o longa lembra, como já foi mencionado por outros críticos, Cidadão Kane e especialmente o final do filme me remeteu a uma cena de O Aviador em que o protagonista antes cheio de ambições, se encontra em decadência, isolado e cheio de manias. Acho que Javier Bardem merece a estatueta de ator coadjuvante por Onde os Fracos Não Têm Vez. Marion Cotillard deveria ser premiada por sua impressionante interpretação de Edith Piaf. Persépolis deve levar melhor animação e Elizabeth: A Era de Ouro figurino.
Bom, mas domingo que vem saberemos. Estou ansiosa.
A lista completa dos indicados ao Oscar:
Melhor ator
George Clooney (”Conduta de Risco”)
Daniel Day Lewis (”Sangue Negro”)
Tommy Lee Jones (”No Vale das Sombras”)
Viggo Mortensen (”Senhores do Crime”)
Johnny Depp (”Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”)
Melhor ator coadjuvante
Casey Affleck (”O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”)
Javier Bardem (”Onde os Fracos Não Têm Vez”)
Philip Seymour Hoffman (”Jogos do Poder”)
Hal Holbrook (”Na Natureza Selvagem”)
Tom Wilkinson (”Conduta de Risco”)
Melhor atriz
Cate Blanchet ( “Elizabeth: A Era de Ouro”)
Julie Christie (”Longe Dela”)
Marion Cotillard (”Piaf - Um Hino ao Amor”)
Laura Linney (”The Savages”)
Ellen Page (”Juno”)
Melhor atriz coadjuvante
Cate Blanchett (”Não Estou Lá”)
Ruby Dee (”O Gângster”)
Saoirse Ronan (”Desejo e Reparação”)
Amy Ryan (”Gone Baby Gone”)
Tilda Swinton (”Conduta de Risco”)
Melhor filme
“Conduta de Risco”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”‘
“Sangue Negro”
“Desejo e Reparação”
“Juno”
Melhor filme de animação
“Ratatouille” (Brad Bird)
“Tá Dando Onda” (Ash Brannon and Chris Buck)
“Persépolis” (Marjane Satrapi and Vincent Paronnaud)
Melhor diretor
Tony Gilroy (”Conduta de Risco”)
Jason Reitman (”Juno”)
Julian Schnabel (”O Escafandro e a Borboleta”)
Paul Thomas Anderson (”Sangue Negro”)
Ethan e Joel Coen (”Onde os Fracos Não Têm Vez)
Melhor direção de arte
“O Gângster”
“Desejo e Reparação”
“A Bússola de Ouro”
“Sweeney Todd - o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”
“Sangue Negro”
Melhor fotografia
“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”
“Desejo e Reparação”
“O Escafandro e a Borboleta”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”
Melhor figurino
“Across the Universe”
“Desejo e Reparação”
“Elizabeth: A Era de Ouro”
“Piaf - um hino ao amor”
“Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”
Melhor documentário
“No End in Sight”
“Operation Homecoming: Writing the Wartime Experience”
“Sicko”
“Taxi to the Dark Side”
“War/dance”
Melhor documentário de curta-metragem
“Freeheld”
“La Corona”
“Salim Baba”
“Sari’s Mother”
Melhor edição
“O Ultimato Bourne”
“O Escafandro e a Borboleta”
“Na Natureza Selvagem”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”
Melhor filme estrangeiro
“The Counterfeiters” (Stefan Ruzowitzky - Áustria)
“Beaufort” (Joseph Cedar - Israel)
“Katyn” (Andrzej Wajda - Polônia)
“12″ (Nikita Mikhalkov - Rússia)
“Mongol” (Sergei Bodrov - Cazaquistão)
Melhor maquiagem
“Piaf - Um Hino ao Amor”
“Norbit”
“Piratas do Caribe - No Fim do Mundo”
Melhor trilha sonora original
“Desejo e Reparação” (Dario Marianeli)
“O Caçador de Pipas” (Alberto Iglesias)
“Conduta de Risco” (James Newton Howard)
“Ratatouille” (Michael Giacchino)
“3:10 to Yuma” (Marco Beltrami)
Melhor canção original
“Falling Slowly” (Glen Hansard e Marketa Irglova - “Once”)
“Happy Working Song” (Alen Menken e Stephen Schwartz - “Encantada”)
“Raise It Up” (Autor a ser determinado - “August Rush”)
“So Close” (Alan Menken e Stephen Schwartz - “Encantada”)
“That’s How You Know” (Alan Menken e Stephen Schwartz - “Encantada”)
Melhor curta-metragem
“At Night”
“Il Supplente”
“Le Mozart des Pickpockets”
“Tanghi Argentini”
“The Tonto Woman”
Melhor animação de curta-metragem
“I Met the Walrus”
“Madame Tutli-Putli”
“Meme Lês Pigeons Vont au Paradis”
“My Love”
“Peter and the Wolf”
Melhor edição de som
“O Ultimato Bourne”
“Ratatouille”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”
“Transformers”
Melhor mixagem de som
“O Ultimato Bourne”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Ratatouille”
“3:10 to Yuma”
“Transformers”
Melhor efeito especial
“A Bússola de Ouro”
“Piratas do Caribe - No Fim do Mundo”
“Transformers”
Melhor roteiro adaptado
“O Escafandro e a Borboleta”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Desejo e Reparação”
“Longe Dela”
“Sangue Negro”
Melhor roteiro original
“Juno”
“Lars and the Real Girl”
“Conduta de Risco*
“Ratatouille”
“The Savages”
Paranoid Park
Fevereiro 10, 2008
Para os que estão dispostos a mergulhar nas imagens e no ritmo propostos por Gus Van Sant, o longa se transforma em uma viagem guiada pelos fluxos de consciência do protagonista, Alex, que acidentalmente provoca a morte de um guarda nos arredores de Paranoid Park, temida arena de skate em Portland. As cenas apresentadas aleatoriamente vão ganhando sentido na medida em que o espectador recebe mais informações sobre o que aconteceu com o jovem skatista. A seqüência do banho reflete bem isto. A primeira vez que ela é apresentada acredita-se ver um jovem cansado tomando banho. Já na segunda, com mais cortes, closes e enquadramentos inusitados compreendemos a confusão mental de um adolescente que acaba de cometer um assassinato - a imagem grita. Esta mudança de sentido é fruto da montagem. O rosto do adolescente ganha também, cada vez mais significado ao decorrer do filme.
Alex é um adolescente solitário, tem poucos amigos e seus pais aparecem como figuras muito pouco expressivas, tanto que não se vê o rosto da mãe em momento algum. O que também denuncia de certa forma a perda de poder dos pais na sociedade contemporânea.
Com planos longos e lentos, privilegiando o tempo, o diretor nos convida a contemplar e refletir sobre as imagens. As seqüências mais emblemáticas de Paranoid Park são a dos skatistas, feitas em super-8. A câmera mergulha naquele universo, não só registra seus movimentos de longe. O resultado disso é uma bela e hipnótica coreografia em slow motion de vários skatistas, um a um, repetindo a mesma manobra no ar, até que um cai. Com esta cena, o diretor resume o roteiro. Seguindo a linha de Elefante, Van Sant continua explorando o tema da violência adolescente e tentando esboçar algumas hipóteses para sua existência.
É estimulante ver como o diretor manipula as técnicas cinematográficas a favor da narração. O cinema que se propõe apenas a contar uma história, privilegiando o roteiro à estética, à forma, desperdiça recursos e menospreza a rica linguagem audiovisual.
Homenagem ao cinema francês
Janeiro 24, 2008
Em Paris fala de carências, de faltas, de sofrimento. Em uma cena muito delicada, Paul (Romain Duris) conta para uma das namoradas de seu irmão, Jonathan (Louis Garrel de Os Sonhadores), do suicídio da irmã. Ele tenta explicar a tristeza que a acompanhava até sua morte aos 17 anos. Algo como um mal estar inerente ao fato de estar vivo. A dor faz parte da vida de Paul também, que acaba de se mudar para a casa do pai após se separar de sua mulher, Anna (Joana Preiss).
O longa retrata um dia na vida dessa família. Enquanto Paul passa a maior parte do seu depressivo dia na cama, Jonathan, numa espécie de tentativa desesperada de suprir suas carências, se relaciona com uma mulher após a outra. Já o pai, meio sem saber como agir, tenta, à sua maneira, se relacionar com os filhos.
É nas relações familiares que se ancora o longa de Christophe Honoré. Em Paris, presta uma homenagem à nouvelle vague (nova onda), movimento cinematográfico dos anos 60, na França que tem como principais nomes Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Claude Chabrol, entre outros jovens críticos e diretores da época que acreditavam no cinema autoral em oposição a um padrão cinematográfico até então vigente, a chamada “qualidade francesa”. Formados nos cineclubes, estes novos diretores tentavam, cada um de uma forma, encontrar a verdade das coisas, deixar que a vida se revelasse na película. Procurava-se resgatar uma naturalidade da filmagem.
É o que Christophe Honoré tenta fazer neste longa. E, assim como na vida, os conflitos dos protagonistas não se resolvem num passe de mágica.
Rindo no cinema
Janeiro 13, 2008
É difícil encontrar boas comédias. Eliminando as pastelões e as forçadas, o cenário fica escasso. Mas, para a felicidade dos cinéfilos, há nos cinemas duas ótimas opções do gênero. O político, A Culpa é do Fidel de Julie Gavras e o despretencioso, Viagem a Darjeeling de Wes Anderson.
A Culpa é de Fidel é da estreante em longa-metragem de ficção, filha do diretor e militante grego Costa-Gavras. Após uma viagem ao Chile, logo que o presidente Salvador Allende sobe ao poder, o pai e a mãe de Anna decidem se engajar na luta socialista. O longa retrata as reações da menina parisiense de classe média, muito bem interpretada por Nina Kervel-Bey, que precisa se adaptar a esta nova situação. Durante o filme, os vários esteriótipos da esquerda são retomados pelos personagens que tentam explicar, para uma menina de 9 anos, o que seria o comunismo. O resultado é hilário. A relação dela com o irmão mais novo, François, também gera momentos bem cômicos. Em A Culpa é do Fidel, Julie Gavras resgata em certa medida sua infância nos anos 70 na França com pais simpatizantes do socialismo.
Já em Viagem a Darjeeling, três irmãos – interpretados por Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman – decidem fazer um retiro espiritual e para isso seguem viagem num trem para a Índia. Assim como em Os Excêntricos Tenenbaums, o tema do reencontro da família é trabalhado. Bom, o trio é excelente. As várias trapalhadas em que se metem geram situações impagáveis. A tipificação de personagens, exuberância plástica, fruto da estética pop e riqueza de detalhes, que são marcas do diretor, também estão presentes em Darjeeling. É interessante o cuidado de Wes Anderson com cada cena do longa, a posição inusitada dos atores, a cenografia, o figurino, a trilha sonora, tudo muito calculado. O fato de várias das cenas se passarem numa cabine muito pequena de trem faz com que os atores se movimentem de forma a criar uma bela coreografia na tela. É um deleite para os olhos.
Império dos Sonhos
Dezembro 16, 2007
Império dos Sonhos (Inland Empire) do David Lynch merece destaque. É, na minha opinião, seu melhor filme. A obra em que ele mais se afirma como diretor e radicaliza suas características. Este filme é uma provocação aos espectadores acostumados aos blockbusters norte americanos, com suas narrativas clássicas com começo, meio e fim e tudo muito bem explicado e mastigado, uma afronta à inteligência dos espectadores, eu diria. Desta vez, Lynch rompe definitivamente com o público, com um filme altamente experimental, que pede do espectador uma postura ativa.
Lynch continua o percurso que vinha seguindo em Estrada Perdida e Cidade dos Sonhos. Império dos Sonhos é o terceiro filme de sua trilogia sobre Hollywood. Esta obra apresenta elementos já trabalhados pelo diretor, como as trocas de identidade, quebra dos clichês de filmes hollywoodianos, clima perturbador e sombrio - como uma referência a estética noir - confusão temporal e entre ficção e realidade.
Além disso, observa-se em cena o questionamento da natureza e veracidade das imagens, tema em voga no cinema contemporâneo, que pode ser encontrado também no brasileiro Jogo de Cena de Eduardo Coutinho e em eXistenZ de David Cronenberg, só para citar alguns nomes.
A questão que se coloca é a seguinte: no cinema clássico a imagem tinha uma correspondência direta com o real, ou seja, o que você assistia na tela representava a realidade. Com o cinema moderno isso mudou. A realidade deixou de ser um dado tão claro e objetivo e começa a vigorar a noção de subjetividade do real e os filmes passam a ser considerados visões de um diretor sobre determinado aspecto da realidade. Já no cinema contemporâneo, há uma ruptura - o espectador deixa de acreditar na veracidade das imagens e, assim como um discurso, a imagem perde completamente a ligação com o real. Uma prova deste fenômeno se deu no atentado ao World Trade Center. As imagens mostradas pelos telejornais do desastre na época geraram uma dúvida e inquietação nos espectadores, pois elas não tinham mais o poder de provar acontecimentos da realidade.
Um diretor que tenha a pretensão de fazer filmes inseridos neste contexto problemático da natureza das imagens, deve propor inovações formais, como é o caso de David Lynch. Com este filme, o diretor se coloca entre os nomes da vanguarda cinematográfica atual por propor um cinema contemporâneo, assim como há muito tempo as artes plásticas já fazem. As instalações, por exemplo, são uma resposta estética às questões da arte na atualidade.
Império dos Sonhos deve ser encarado como uma experiência, uma volta em uma montanha russa. É um tanto quanto ingênuo da parte do espectador tentar entender a narrativa apresentada, como se ela tivesse alguma lógica interna a ser desvendada. Na sessão de imprensa do filme no Festival de Veneza, um dos críticos, tentando tirar a todo custo explicações sobre a obra, perguntou ao diretor sobre o que era o filme. Lynch respondeu que achava isso claríssimo. Outro jornalista insistiu na pergunta e o diretor disse que a graça do cinema era essa, fazer com que o espectador entre em contato com um mundo desconhecido, onde ele não sabe o que pode acontecer.
E se os críticos ficaram perplexos após a exibição do filme, imagine o público. Na sessão em que assisti de Império dos Sonhos cerca de 30% das pessoas saíram antes do término do filme e as outras estavam visivelmente agitadas, muitas idas ao banheiro, movimentações. E talvez seja esta mesma a intenção do diretor. Fazer com que o espectador se mexa.
Para ler uma excelente crítica mais detalhada do filme no site Omelete
Teaser do filme









