Homenagem ao cinema francês
Janeiro 24, 2008
Em Paris fala de carências, de faltas, de sofrimento. Em uma cena muito delicada, Paul (Romain Duris) conta para uma das namoradas de seu irmão, Jonathan (Louis Garrel de Os Sonhadores), do suicídio da irmã. Ele tenta explicar a tristeza que a acompanhava até sua morte aos 17 anos. Algo como um mal estar inerente ao fato de estar vivo. A dor faz parte da vida de Paul também, que acaba de se mudar para a casa do pai após se separar de sua mulher, Anna (Joana Preiss).
O longa retrata um dia na vida dessa família. Enquanto Paul passa a maior parte do seu depressivo dia na cama, Jonathan, numa espécie de tentativa desesperada de suprir suas carências, se relaciona com uma mulher após a outra. Já o pai, meio sem saber como agir, tenta, à sua maneira, se relacionar com os filhos.
É nas relações familiares que se ancora o longa de Christophe Honoré. Em Paris, presta uma homenagem à nouvelle vague (nova onda), movimento cinematográfico dos anos 60, na França que tem como principais nomes Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Claude Chabrol, entre outros jovens críticos e diretores da época que acreditavam no cinema autoral em oposição a um padrão cinematográfico até então vigente, a chamada “qualidade francesa”. Formados nos cineclubes, estes novos diretores tentavam, cada um de uma forma, encontrar a verdade das coisas, deixar que a vida se revelasse na película. Procurava-se resgatar uma naturalidade da filmagem.
É o que Christophe Honoré tenta fazer neste longa. E, assim como na vida, os conflitos dos protagonistas não se resolvem num passe de mágica.
Rindo no cinema
Janeiro 13, 2008
É difícil encontrar boas comédias. Eliminando as pastelões e as forçadas, o cenário fica escasso. Mas, para a felicidade dos cinéfilos, há nos cinemas duas ótimas opções do gênero. O político, A Culpa é do Fidel de Julie Gavras e o despretencioso, Viagem a Darjeeling de Wes Anderson.
A Culpa é de Fidel é da estreante em longa-metragem de ficção, filha do diretor e militante grego Costa-Gavras. Após uma viagem ao Chile, logo que o presidente Salvador Allende sobe ao poder, o pai e a mãe de Anna decidem se engajar na luta socialista. O longa retrata as reações da menina parisiense de classe média, muito bem interpretada por Nina Kervel-Bey, que precisa se adaptar a esta nova situação. Durante o filme, os vários esteriótipos da esquerda são retomados pelos personagens que tentam explicar, para uma menina de 9 anos, o que seria o comunismo. O resultado é hilário. A relação dela com o irmão mais novo, François, também gera momentos bem cômicos. Em A Culpa é do Fidel, Julie Gavras resgata em certa medida sua infância nos anos 70 na França com pais simpatizantes do socialismo.
Já em Viagem a Darjeeling, três irmãos – interpretados por Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman – decidem fazer um retiro espiritual e para isso seguem viagem num trem para a Índia. Assim como em Os Excêntricos Tenenbaums, o tema do reencontro da família é trabalhado. Bom, o trio é excelente. As várias trapalhadas em que se metem geram situações impagáveis. A tipificação de personagens, exuberância plástica, fruto da estética pop e riqueza de detalhes, que são marcas do diretor, também estão presentes em Darjeeling. É interessante o cuidado de Wes Anderson com cada cena do longa, a posição inusitada dos atores, a cenografia, o figurino, a trilha sonora, tudo muito calculado. O fato de várias das cenas se passarem numa cabine muito pequena de trem faz com que os atores se movimentem de forma a criar uma bela coreografia na tela. É um deleite para os olhos.


