Reflexões sobre o cinema brasileiro
Fevereiro 22, 2008
Tropa de Elite é um assunto sem fim, ainda bem. Gerou uma discussão nos comentários do post abaixo que considero bem interessante, por isso escrevo este texto.
Em relação ao comentário do Roger, acho o seguinte.
O público gosta de se ver representado na tela, a identificação é um fator que faz com que a pessoa se interesse pela obra. E o cinema brasileiro da retomada (período inaugurado com Carlota Joaquina, de 1995 até agora), tem inúmeras produções ficcionais que abordam acontecimentos históricos ou aspectos da realidade do país, como Carandiru, Cidade de Deus, Central do Brasil, Batismo de Sangue, entre outros. Apesar de não existir uma proposta estética que una os diversos filmes da retomada, como existia no cinema novo, a temática os confere certa unidade.
Outro aspecto desta questão é que os diretores brasileiros sentem que tem o dever de refletir sobre o país, como afirmam alguns críticos brasileiros. Acredito que esse sentimento pode ser um legado do cinema novo, o movimento estético mais relevante na cinematografia nacional, extremamente comprometido com os problemas do país, que marcou os diretores que vieram depois. É um palpite…
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Como prometi, andei acompanhando as repercussões sobre o Urso de Ouro, perguntei para alguns críticos e acho que estou convencida do motivo pelo qual ganhamos o prêmio. Presidente do júri do Festival de Berlim, o diretor grego Constantin Costa-Gavras, tem uma filmografia marcada por longas de denúncia social e grande apelo emocional – características do premiado Tropa de Elite. Além disso, o fato de ser um filme brasileiro confere a obra um certo exotismo, uma espécie de fascínio pelo outro, pelo diferente, pelo cinema feito em um país subdesenvolvido.
Obs. Adoro ler comentários no blog
Repercussões do prêmio
Fevereiro 18, 2008
“É um filme muito forte, muito importante. Ajuda-nos a compreender a sociedade brasileira, e não apenas esta. Corrupção e violência são pragas que avançam em todo mundo. Com as especificidades de cada lugar.” Constantin Costa-Gavras
A lista completa de prêmios que os filmes brasileiros receberam em festivais de cinema internacionais:
EM CANNES:
1953 – O Cangaceiro, de Lima Barreto: melhor filme de aventura
1962 – Palma de Ouro: Pagador de Promessas
1969- Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro: direção de Glauber Rocha
1977 – Di Cavalcanti: melhor curta (Glauber Rocha)
1986 – atriz Fernanda Torres, Eu Sei Que Vou te Amar, de Arnaldo Jabor
EM VENEZA
1953 – Sinhá Moça, de Tom Payne.Premio Especial do Juri
1981 – Eles não Usam Black Tie, de Leon Hirszman, Prêmio Especial do Júri
EM BERLIM
1965 – Os Fuzis, de Ruy Guerra- Urso de Prata
1969 – Brasil ano 2000, de Walter Lima Jr. Urso de Prata
1973 – Toda Nudez, de A. Jabor (Prêmio Especial do Júri)
1978 – A Queda, Ruy Guerra e Nelson Xavier, Urso de Prata
1986 – melhor atriz Marcélia Cartaxo por A Hora da Estrela, de Suzana Amaral
1987 – melhor atriz Ana Beatriz Nogueira por Vera, Sérgio Segall Toledo
1990 – melhor curta Ilha das Flores, de Jorge Furtado
1998 – Central do Brasil. Urso de Ouro e melhor atriz para Fernanda Montenegro
Dá-lhe Tropa de Elite!!!
Fevereiro 17, 2008
Estou boquiaberta!! Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro em Berlim. Parece um sonho. Depois de o filme ter dividido opiniões e ser comparado a Rambo em uma crítica do site da revista Variety, ele foi consagrado. Gostaria de saber mais sobre o que chamou a atenção dos críticos no longa. Vou ficar atenta às repercussões.
O cinema brasileiro foi premiado apenas três vezes nos principais festivais de cinema do mundo – Cannes, Veneza e Berlim. Em 1962, O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, levou a Palma de Ouro em Cannes, em 1998, Central do Brasil, de Walter Salles ganhou Urso de Ouro em Berlim e, depois de 10 anos, o longa de José Padilha leva o prêmio máximo de Berlim. O Brasil foi destaque em Berlinare com outras produções, além de Tropa de Elite. Mutum, de Sandra Kogut, recebeu menção especial do júri. Café com leite, de Daniel Ribeiro, foi melhor curta-metragem da Mostra Geração, que premia produções com crianças ou adolescentes protagonistas. E o curta-metragem Tá, de Felipe Sholl, recebeu o Teddy Award, dedicado a filmes com temáticas do universo gay.
Os outros prêmios principais do festival foram para Standard Operating Procedure, documentário norte americano que levou o Urso de Prata. Paul Thomas Anderson ganhou melhor diretor por Sangue Negro. Reza Naji foi considerado o melhor ator pelo iraniano The Song of Sparrows e Sally Hawkins, melhor atriz pelo filme britânico Happy-go-Lucky. E o longa chinês In Love We Trust ganhou de melhor roteiro.
Berlim acabou, mas os cinéfilos já estão se preparando para as premiações de domingo que vem do Oscar. Procurei assistir a maioria dos indicados e tenho minhas apostas. Sangue Negro, na minha opinião, deve ser o grande premiado da noite, levando melhor filme, melhor diretor para Paul Thomas Anderson e melhor ator para Daniel Day Lewis, apesar de ter um forte concorrente em Onde os Fracos Não Têm Vez. Assisti ontem a Sangue Negro e depois preparo uma crítica à altura, mas adianto, o longa lembra, como já foi mencionado por outros críticos, Cidadão Kane e especialmente o final do filme me remeteu a uma cena de O Aviador em que o protagonista antes cheio de ambições, se encontra em decadência, isolado e cheio de manias. Acho que Javier Bardem merece a estatueta de ator coadjuvante por Onde os Fracos Não Têm Vez. Marion Cotillard deveria ser premiada por sua impressionante interpretação de Edith Piaf. Persépolis deve levar melhor animação e Elizabeth: A Era de Ouro figurino.
Bom, mas domingo que vem saberemos. Estou ansiosa.
A lista completa dos indicados ao Oscar:
Melhor ator
George Clooney (“Conduta de Risco”)
Daniel Day Lewis (“Sangue Negro”)
Tommy Lee Jones (“No Vale das Sombras”)
Viggo Mortensen (“Senhores do Crime”)
Johnny Depp (“Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”)
Melhor ator coadjuvante
Casey Affleck (“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”)
Javier Bardem (“Onde os Fracos Não Têm Vez”)
Philip Seymour Hoffman (“Jogos do Poder”)
Hal Holbrook (“Na Natureza Selvagem”)
Tom Wilkinson (“Conduta de Risco”)
Melhor atriz
Cate Blanchet ( “Elizabeth: A Era de Ouro”)
Julie Christie (“Longe Dela”)
Marion Cotillard (“Piaf – Um Hino ao Amor”)
Laura Linney (“The Savages”)
Ellen Page (“Juno”)
Melhor atriz coadjuvante
Cate Blanchett (“Não Estou Lá”)
Ruby Dee (“O Gângster”)
Saoirse Ronan (“Desejo e Reparação”)
Amy Ryan (“Gone Baby Gone”)
Tilda Swinton (“Conduta de Risco”)
Melhor filme
“Conduta de Risco”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”‘
“Sangue Negro”
“Desejo e Reparação”
“Juno”
Melhor filme de animação
“Ratatouille” (Brad Bird)
“Tá Dando Onda” (Ash Brannon and Chris Buck)
“Persépolis” (Marjane Satrapi and Vincent Paronnaud)
Melhor diretor
Tony Gilroy (“Conduta de Risco”)
Jason Reitman (“Juno”)
Julian Schnabel (“O Escafandro e a Borboleta”)
Paul Thomas Anderson (“Sangue Negro”)
Ethan e Joel Coen (“Onde os Fracos Não Têm Vez)
Melhor direção de arte
“O Gângster”
“Desejo e Reparação”
“A Bússola de Ouro”
“Sweeney Todd – o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”
“Sangue Negro”
Melhor fotografia
“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”
“Desejo e Reparação”
“O Escafandro e a Borboleta”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”
Melhor figurino
“Across the Universe”
“Desejo e Reparação”
“Elizabeth: A Era de Ouro”
“Piaf – um hino ao amor”
“Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”
Melhor documentário
“No End in Sight”
“Operation Homecoming: Writing the Wartime Experience”
“Sicko”
“Taxi to the Dark Side”
“War/dance”
Melhor documentário de curta-metragem
“Freeheld”
“La Corona”
“Salim Baba”
“Sari’s Mother”
Melhor edição
“O Ultimato Bourne”
“O Escafandro e a Borboleta”
“Na Natureza Selvagem”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”
Melhor filme estrangeiro
“The Counterfeiters” (Stefan Ruzowitzky – Áustria)
“Beaufort” (Joseph Cedar – Israel)
“Katyn” (Andrzej Wajda – Polônia)
“12″ (Nikita Mikhalkov – Rússia)
“Mongol” (Sergei Bodrov – Cazaquistão)
Melhor maquiagem
“Piaf – Um Hino ao Amor”
“Norbit”
“Piratas do Caribe – No Fim do Mundo”
Melhor trilha sonora original
“Desejo e Reparação” (Dario Marianeli)
“O Caçador de Pipas” (Alberto Iglesias)
“Conduta de Risco” (James Newton Howard)
“Ratatouille” (Michael Giacchino)
“3:10 to Yuma” (Marco Beltrami)
Melhor canção original
“Falling Slowly” (Glen Hansard e Marketa Irglova – “Once”)
“Happy Working Song” (Alen Menken e Stephen Schwartz – “Encantada”)
“Raise It Up” (Autor a ser determinado – “August Rush”)
“So Close” (Alan Menken e Stephen Schwartz – “Encantada”)
“That’s How You Know” (Alan Menken e Stephen Schwartz – “Encantada”)
Melhor curta-metragem
“At Night”
“Il Supplente”
“Le Mozart des Pickpockets”
“Tanghi Argentini”
“The Tonto Woman”
Melhor animação de curta-metragem
“I Met the Walrus”
“Madame Tutli-Putli”
“Meme Lês Pigeons Vont au Paradis”
“My Love”
“Peter and the Wolf”
Melhor edição de som
“O Ultimato Bourne”
“Ratatouille”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”
“Transformers”
Melhor mixagem de som
“O Ultimato Bourne”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Ratatouille”
“3:10 to Yuma”
“Transformers”
Melhor efeito especial
“A Bússola de Ouro”
“Piratas do Caribe – No Fim do Mundo”
“Transformers”
Melhor roteiro adaptado
“O Escafandro e a Borboleta”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Desejo e Reparação”
“Longe Dela”
“Sangue Negro”
Melhor roteiro original
“Juno”
“Lars and the Real Girl”
“Conduta de Risco*
“Ratatouille”
“The Savages”
Paranoid Park
Fevereiro 10, 2008
Para os que estão dispostos a mergulhar nas imagens e no ritmo propostos por Gus Van Sant, o longa se transforma em uma viagem guiada pelos fluxos de consciência do protagonista, Alex, que acidentalmente provoca a morte de um guarda nos arredores de Paranoid Park, temida arena de skate em Portland. As cenas apresentadas aleatoriamente vão ganhando sentido na medida em que o espectador recebe mais informações sobre o que aconteceu com o jovem skatista. A seqüência do banho reflete bem isto. A primeira vez que ela é apresentada acredita-se ver um jovem cansado tomando banho. Já na segunda, com mais cortes, closes e enquadramentos inusitados compreendemos a confusão mental de um adolescente que acaba de cometer um assassinato – a imagem grita. Esta mudança de sentido é fruto da montagem. O rosto do adolescente ganha também, cada vez mais significado ao decorrer do filme.
Alex é um adolescente solitário, tem poucos amigos e seus pais aparecem como figuras muito pouco expressivas, tanto que não se vê o rosto da mãe em momento algum. O que também denuncia de certa forma a perda de poder dos pais na sociedade contemporânea.
Com planos longos e lentos, privilegiando o tempo, o diretor nos convida a contemplar e refletir sobre as imagens. As seqüências mais emblemáticas de Paranoid Park são a dos skatistas, feitas em super-8. A câmera mergulha naquele universo, não só registra seus movimentos de longe. O resultado disso é uma bela e hipnótica coreografia em slow motion de vários skatistas, um a um, repetindo a mesma manobra no ar, até que um cai. Com esta cena, o diretor resume o roteiro. Seguindo a linha de Elefante, Van Sant continua explorando o tema da violência adolescente e tentando esboçar algumas hipóteses para sua existência.
É estimulante ver como o diretor manipula as técnicas cinematográficas a favor da narração. O cinema que se propõe apenas a contar uma história, privilegiando o roteiro à estética, à forma, desperdiça recursos e menospreza a rica linguagem audiovisual.


