O poder dos encontros

Fevereiro 11, 2009

thereader21

No longa de Stephen Daldry, as vidas do jovem de 15 anos, Michael Berg (David Kross), e da mulher madura, Hanna Schmitz (a magnífica Kate Winslet), se cruzam em um dia chuvoso em que ele passa mal na rua. Ela o ajuda a ir para casa e ele descobre, posteriormente, que está com escarlatina. Depois de se recuperar, o garoto procura Hanna em sua casa para agradecer o gesto. Pelo vão da porta, ele a observa trocar de roupa, mas logo sai correndo, ao notar que ela o viu. Com um misto de excitação e medo, Michael retorna a casa e eles iniciam um intenso relacionamento, que vai durar a vida toda, adquirindo diferentes formas.

As visitas diárias de Michael à casa de Hanna seguem um ritual. Ele lê para ela, eles tomam banho (em algumas cenas ela lava-o com uma postura maternal, o que é muito tocante e diz sobre o tipo de relação ali estabelecida) e, finalmente, fazem sexo. Nos encontros, inocência, pureza e juventude contrastam com dureza e maturidade. É com grande entusiasmo que Michael deixa a companhia dos amigos para se encontrar com ela, diariamente, durante um belo verão, até o dia em que a mulher se muda, sem dar explicações.  

Michael vai para a faculdade de direito, anos depois, e, em um julgamento de crimes nazistas, reencontra sua antiga amante no banco dos réus. Ela é condenada à prisão perpétua, por preferir não revelar um segredo humilhante (em sua visão), mas que reduziria a pena. O garoto também não interfere no julgamento, mesmo sabendo o que Hanna escondia. Atormentado pela culpa, a vida afetiva do advogado, interpretado na fase adulta por Ralph Fiennes, nunca será feliz. Ele tem uma filha, que mal vê e um casamento que não deu certo. É um solitário.

Certo dia na prisão, Hanna, já bem velha, recebe uma caixa cheia de fitas cassete com livros gravados por Michael. Esses objetos devolvem a vida à prisioneira, que passa a decorar a cela e se arrumar. A partir das gravações, um milagre acontece: Hanna pega livros na biblioteca e aprende a ler sozinha. Por meio da literatura, a personagem tem sua sensibilidade recuperada e, por isso, se dá conta da gravidade dos atos que cometeu. Os livros e a indiferença de Michael no encontro na prisão tornam-se pilares da última e decisiva ação desta mulher.

A adaptação do romance homônimo de Bernhard Schlink permite que o espectador testemunhe um tipo de relação que não se encontra nos individualistas dias de hoje. Acompanhamos na tela a extraordinária interferência que uma pessoa pode exercer na vida de outra, a ponto de mudar o curso de tudo o que se segue. É como se o encontro destas almas simbolizasse um marco e os acontecimentos fossem analisados tendo em vista o período anterior àquela relação e posterior. 

Michael canalizou sua culpa de não ter ajudado Hanna no julgamento por meio das fitas. O ato é tão sensível e mágico em um mundo em que as pessoas resolvem seus dilemas no divã de um psicólogo e simplesmente seguem suas vidas ignorando o efeito que tiveram sobre outro ser. Por isso, O Leitor parece deslocado de seu tempo, e é bom que seja, para servir de alerta sobre a descartabilidade e utilitarismo que regem as relações atuais.

Uma resposta para “O poder dos encontros”

  1. Alê disse

    Nem li todo o posto para não estragar a surpresa de ver esse filme (que parece ser excelente). Vou assisti-lo e depois coloco um coment aqui.
    abs

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