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Soderbergh vende versão capitalista do revolucionário em filme sem alma

Transpor uma personalidade como Ernesto Guevara de la Serna para o cinema não é tarefa fácil. O revolucionário, que se transformou em mito, está presente no imaginário coletivo, seja como herói ou assassino. Portanto, independente da posição ideológica que o norte-americano Steven Soderbergh tomasse para conduzir a narrativa, iria dividir a opinião do público. O diretor de blockbusters, como Traffic e a franquia Onze homens e um segredo, diante desse impasse, optou por repaginar “Che”, suavizando sua postura e ideologia.

O capitalismo foi hábil em ressignificar o guerrilheiro, transformando sua imagem em objeto de consumo. Soderbergh apenas adere a esse movimento tornando “Che” Guevara uma figura palatável para o grande público. Benício Del Toro interpreta, portanto, um comandante ético, intelectual e eficiente no cumprimento de suas funções revolucionárias, seja no front ou cuidando de feridos. Um herói que precisa ir contra adversidades, como sua asma ou guerrilheiros traidores.

Che, que compõe o díptico com Che – A Guerrilha (a ser lançado em maio), acompanha a trajetória de Fidel, Raul Castro, do próprio “Che” Guevara e outros guerrilheiros rumo à libertação de Cuba da ditadura de Fulgêncio Batista, apoiada pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Como qualquer filme de guerra hollywoodiano, este enfatiza as cenas de ação, ressaltando as estratégias, hierarquia e regras próprias do combate, o treinamento de novos recrutas, a assistência aos feridos, entre outros aspectos do cotidiano da batalha.
  
Porém, como a guerrilha em questão tinha a particularidade de estar amparada na ideologia socialista, o diretor insere algumas falas em off do médico argentino discursando contra o imperialismo, a opressão e o capitalismo e a favor da liberdade dos povos da América Latina. Afinal, é necessário colocar uma pitada de cor local nas cenas de ação e dar pequenos momentos de alegria aos que têm apreço pelo socialismo. 

Um dos poucos acertos do filme está na fotografia. As imagens da guerrilha na floresta, de um verde marcante, são intercaladas com cenas em preto e branco, da ida do protagonista às terras yankees para divulgar os ideais da revolução. Estabelece-se então, um contraste interessante entre o “Che” em combate, vivo, e o burocrata, sem cor.

Diários de Motocicleta, o longa protagonizado por Gael García Bernal e dirigido pelo brasileiro Walter Salles, apesar de ser um road movie, privilegia a reflexão do jovem argentino na viagem pela América Latina. As tomadas mais longas e um profundo respeito e admiração na forma de construir o personagem compõem um retrato tocante e poético de um período decisivo na formação intelectual do então estudante de medicina.

O filme de Walter Salles é admirável, pois ele tem consciência que a história do revolucionário não cabe na fórmula do cinema comercial norte-americano. Era necessário um diretor com mais talento e personalidade para levar às telas a aventura de 86 jovens que, “movidos por grande sentimento de amor à humanidade, justiça e verdade”, segundo o protagonista, transformaram Cuba no primeiro país socialista da América. Afinal, assim como na guerrilha, não é possível fazer cinema sem paixão.

Publicada no Guia da Semana

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Desculpem-me os entusiastas de Quem Quer Ser Um Milionário?, mas esta crítica não é elogiosa. O filme, como se sabe, ganhou sete prêmios Bafta, quatro Globos de Ouro e oito Oscar, colocando-se como a produção de maior destaque no cinema comercial deste ano. Primeiro, é bom enfatizar que o Oscar e o Globo de Ouro são premiações voltadas para a indústria cinematográfica norte-americana, mas, devido à força imperialista deste cinema, os filmes vencedores são valorizados e largamente consumidos mundialmente. A história do cinema comprova também que entre a lista de vencedores do Oscar não necessariamente estão os filmes mais relevantes daquele ano, como Cidadão Kane, por exemplo, que recebeu apenas o prêmio de melhor roteiro adaptado, em 1942.

Apesar de Quem Quer Ser Um Milionário? ser baseado no livro Sua Resposta Vale um Bilhão do indiano Vikas Swarup, realizado com atores amadores indianos (o protagonista é inglês) e filmado em Mumbai, trata-se de uma produção inglesa. Portanto, o longa reflete uma visão estrangeira sobre a Índia. O país, onde 455 milhões de habitantes sobrevivem com menos de 1,25 dólar por dia, foi colônia britânica até, pasmem, 1947. Portanto, como um cineasta pode filmar a pobreza de uma nação da forma estetizada como fez, sabendo que seu país foi responsável por isso? É muito cruel.      

O inglês Danny Boyle parece incoerente quando afirma detestar Cidade de Deus e as comparações feitas entre seu filme e o brasileiro. Em entrevista, César Charlone, diretor de fotografia do longa sobre o bairro carioca, diz que seu amigo e fotógrafo da produção inglesa, Anthony Dod Mantle, gosta muito de Cidade de Deus. Não há como negar que a câmera na mão, os enquadramentos e as cores saturadas que adquirem a favela de Mumbai não são influencias do filme de Fernando Meirelles. Tanto que, uma das críticas que o filme tem recebido na Índia, o de fazer “pornografia da miséria”, é outra versão da polêmica da cosmética da fome, levantada na época do lançamento de Cidade de Deus.

Há outros aspectos que aproximam as produções. O desfecho da trajetória do favelado Jamal Malik é o mesmo de Buscapé: a ascensão social justificada pelo caráter. De acordo com a lógica do filme, o correto e sofrido Jamal sabe as respostas por força do destino, assim como Buscapé consegue o trabalho no jornal por não ter se corrompido com o tráfico e a criminalidade. Os longas apresentam soluções individuais para o problema estrutural da desigualdade social nos subdesenvolvidos, Índia e Brasil.

Já que a vida na Índia parece despertar a atenção da Academia, por que não premiar uma produção local? Claro que não, afinal não é interessante correr o risco de disputar mercado com Bollywood, a indústria que produz mais filmes no mundo. Premia-se então o conto de fadas pós-moderno de Boyle que atrai pela forma exótica e palatável que o país é retratado, cumprindo as expectativas do público ocidental e ignorando a cultura indiana.

Se quiser saber mais sobre a Índia e sua produção cinematográfica, em vez de assistir Quem Quer Ser Um Milionário? (ou a novela Caminhos das Índias), confira um dos ótimos longas indianos em cartaz na mostra Bollywood e o Cinema Indiano na Cinemateca Brasileira, de 17 a 29 de março.

Publicada no Guia da Semana