Vencedor do Oscar pasteuriza cultura indiana
Março 13, 2009

Desculpem-me os entusiastas de Quem Quer Ser Um Milionário?, mas esta crítica não é elogiosa. O filme, como se sabe, ganhou sete prêmios Bafta, quatro Globos de Ouro e oito Oscar, colocando-se como a produção de maior destaque no cinema comercial deste ano. Primeiro, é bom enfatizar que o Oscar e o Globo de Ouro são premiações voltadas para a indústria cinematográfica norte-americana, mas, devido à força imperialista deste cinema, os filmes vencedores são valorizados e largamente consumidos mundialmente. A história do cinema comprova também que entre a lista de vencedores do Oscar não necessariamente estão os filmes mais relevantes daquele ano, como Cidadão Kane, por exemplo, que recebeu apenas o prêmio de melhor roteiro adaptado, em 1942.
Apesar de Quem Quer Ser Um Milionário? ser baseado no livro Sua Resposta Vale um Bilhão do indiano Vikas Swarup, realizado com atores amadores indianos (o protagonista é inglês) e filmado em Mumbai, trata-se de uma produção inglesa. Portanto, o longa reflete uma visão estrangeira sobre a Índia. O país, onde 455 milhões de habitantes sobrevivem com menos de 1,25 dólar por dia, foi colônia britânica até, pasmem, 1947. Portanto, como um cineasta pode filmar a pobreza de uma nação da forma estetizada como fez, sabendo que seu país foi responsável por isso? É muito cruel.
O inglês Danny Boyle parece incoerente quando afirma detestar Cidade de Deus e as comparações feitas entre seu filme e o brasileiro. Em entrevista, César Charlone, diretor de fotografia do longa sobre o bairro carioca, diz que seu amigo e fotógrafo da produção inglesa, Anthony Dod Mantle, gosta muito de Cidade de Deus. Não há como negar que a câmera na mão, os enquadramentos e as cores saturadas que adquirem a favela de Mumbai não são influencias do filme de Fernando Meirelles. Tanto que, uma das críticas que o filme tem recebido na Índia, o de fazer “pornografia da miséria”, é outra versão da polêmica da cosmética da fome, levantada na época do lançamento de Cidade de Deus.
Há outros aspectos que aproximam as produções. O desfecho da trajetória do favelado Jamal Malik é o mesmo de Buscapé: a ascensão social justificada pelo caráter. De acordo com a lógica do filme, o correto e sofrido Jamal sabe as respostas por força do destino, assim como Buscapé consegue o trabalho no jornal por não ter se corrompido com o tráfico e a criminalidade. Os longas apresentam soluções individuais para o problema estrutural da desigualdade social nos subdesenvolvidos, Índia e Brasil.
Já que a vida na Índia parece despertar a atenção da Academia, por que não premiar uma produção local? Claro que não, afinal não é interessante correr o risco de disputar mercado com Bollywood, a indústria que produz mais filmes no mundo. Premia-se então o conto de fadas pós-moderno de Boyle que atrai pela forma exótica e palatável que o país é retratado, cumprindo as expectativas do público ocidental e ignorando a cultura indiana.
Se quiser saber mais sobre a Índia e sua produção cinematográfica, em vez de assistir Quem Quer Ser Um Milionário? (ou a novela Caminhos das Índias), confira um dos ótimos longas indianos em cartaz na mostra Bollywood e o Cinema Indiano na Cinemateca Brasileira, de 17 a 29 de março.
Publicada no Guia da Semana
Parabéns pela crítica,
Gostei muito de como você análisou de forma “estrutural” o contexto no qual a obra está inserida. Ainda não vi o filme, mas estou instigada a assisti-lo.
Parabéns de verdade!!
Muito orgulho da minha amiga, já há muito crítica de cinema.
Beijos
Olá Cyntia…
Achei formidável sua comparação do Quem quer ser um milionário? com Cidade de Deus. Concordo plenamente com suas observações…mesmo tendo gostado do filme, afinal mostrou (em partes) uma realidade que eu conhecia pouco…PARABÉNS pelo blog..
bjoss
Concordo com a visão crítica do filme. Mas o termo estética da fome, foi usado no cinema novo. O que acorreu com Cidade de Deus e outros filmes de violência cosmética. O termo é Cosmética da Violência.
Eu acho engraçados esses filmes em que se percebe claramente que a inspiração e a criatividade foram se esgotando com o tempo de filmagem.
Sei que as gravações em cinema não sei feitas de maneira linear com o roteiro, mas de alguma forma, muitos filmes demonstram um desgaste conforme vão se desenrolando e eu acho que “Quem quer ser um milionário” se encaixa. Assim como Watchmen, que assisti recentemente.
Achei excelente o começo do filme! Só que foi ficando pior e pior, até chegar ao final mais esdrúxulo que eu poderia esperar, com direito a pausa no tape! Se fosse um pouquinho mais tosco, talvez até poderia ser considerado proposital.
Esperava que o Oscar tivesse mudado, ainda mais qdo deu o melhor filme para “Onde os Fracos não tem vez”.
PS: Gostei do blog!
Achei interessante alguns pontos de vista seu.
Assim…lendo um livro chamado “A teia da vida” tive contato com algumas teorias da biologia e da física que observam que em um resumo grosseiro: “O todo está na parte e a parte está no todo”. A partir disso pensei…um… os problemas estruturais dos países apresentam-se nos indivíduos. E se enchergarmos a vida da nossa civilização como algo processual. Mesmo com toda visão “ocidental” do diretor acho que tentar passar algo relacionado a preconceitos e valores em uma linguagem bem próxima do que o grande público gosta é um mérito. Ah…e achei que como a proposta do filme não é falar sobre a índia, sua cultura e seus conflitos e sim sobre personagens “globalizados” que estão dentro de um contexto cultural (indiano). Dentro da “lógica” Hollywoodeana que não é engajada e é extremamente comercial…o diretor conseguiu um pouquinho de atenção para levantar discussões sobre a Índia e suas produções. Enfim…aqui parece que voltamos a uma temática do filme: ou a gente foca as coisas só no que ela tem de ruim ou no que ela tem de bomkkkkkkkkkkk enfim é isso achei que para á lógica capitalista o filme trabalha com valores que a subvertem. Acho que isso é uma coisa boa do filme nos deixa mais atentos para os julgamentos e para pensar que existem pessoas que não agem só com os nossos valores sociais vigentes (valores ligados ao que no contexto histórico é adotado pela maioria como “filosofia” de vida). Ah…e eu conheço várias pessoas que fazem isso em sua vida então não é privilégio de Jamal tentar ser “coerente” com o que se acredita(em algum nivel nós também tomamos caminnhos bem diferentes do que a lógica do olhar social indica).
AH!! Parabéns pela iniciativa do blog e continue a alimentá-lo você escreve super bem e nos dá indicações maravilhosas de películas!
Tudo de bom!!!