Uma questão de autoria

novembro 7, 2011

Selton Mello
A carreira de ator de Selton Mello pode esclarecer algumas de suas opções como diretor. A forma com que ele transita entre o cinema de autor, comercial e a televisão o fazem um ator versátil, mas como cineasta, ele seria mais bem sucedido se adotasse uma linha. A comparação entre seu primeiro longa e O Palhaço revelam um diretor hesitante em seus objetivos. O primeiro tem pretensões claras de se colocar como um filme autoral, enquanto o segundo almeja o maior diálogo com o público.

Em Feliz Natal, o amontoado de clichês de uma vertente do cinema autoral e a falta de marcas próprias do diretor revelam um conjunto artificial, sem alma. A família exageradamente disfuncional, a fotografia estetizada, os planos rápidos e a montagem picotada, que ecoam Cassavetes e Lavoura Arcaica, parecem uma tentativa de Selton em se apoiar em referências cinematográficas validadas pela crítica.

Em O Palhaço, a crise de identidade de Benjamin se transpõe para o filme, que apresenta três registros estéticos conflitantes. O universo circense e a escalação de Moacir Franco e Jorge Loredo indicam uma tentativa de filiação ao cinema popular. A estética Globo, de filmes como Se Eu Fosse Você, se faz presente nos espetáculos impactantes, com figurinos e maquiagens impecáveis e fotografia que investe no brilho e na exuberância de cores, tornando incoerente a imagem de circo pobre que os diálogos indicam. A menina angelical e perfeita, filha dos atores circenses, e os personagens sem nenhum desvio moral, exceto a dançarina que é expulsa da trupe, reforçam a ideia de um filme com pretensão de atingir o público de classe média, seguindo a cartilha dos maiores sucessos de bilheteria da retomada. Basta lembrar de Bye Bye Brasil para entender a diferença. A terceira referência adotada pelo filme é a estetização dos longas de Wes Anderson. As imagens caricaturais do diretor norte-americano são a matriz da composição dos planos de conjunto da trupe e da atuação de Selton.

Além das questões estéticas, a falta de identidade do personagem – eixo do roteiro – não é aprofundada e se resolve de forma banal – com Benjamin percebendo a importância de sua profissão ao ver Jorge Loredo contando piadas em uma mesa de bar. Essa falta de estrutura dramática faz com que os episódios protagonizados pelos coadjuvantes se sobressaiam, tornando o filme irregular. Neste ponto reside a maior virtude do diretor, conseguir grandes performances de atores com forte significado no imaginário do espectador.

Para corroborar a imagem de um diretor inseguro, Selton termina seu filme com um plano sequência em clara tentativa de demonstrar virtuosismo, o que é em vão, já que não basta dominar a técnica para ser um bom cineasta, é preciso usá-la a favor de um modo de ver e retratar o mundo que é próprio do diretor – a famosa autoria. Mas, como nos diz em O Palhaço, Selton está em busca desta identidade.

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