Crônica de um verão

Agosto 5, 2009

aderiva

Drama familiar em cenário paradisíaco evidencia salto do diretor pernambucano

Apesar das qualidades de O Cheiro do Ralo, é nítido o amadurecimento de Heitor Dhalia em À Deriva. O filme acompanha Felipa, jovem de 14 anos, alter ego do cineasta, já que o roteiro tem inspiração autobiográfica. Em viagem de férias para uma praia idílica, ela presencia a crise do relacionamento de seus pais, o caso extraconjugal do pai e, em meio a esse caos familiar, começa a descobrir sua sexualidade.

A atriz estreante, descoberta pelo Orkut, consegue traduzir as emoções de Felipa no olhar, apesar de demonstrar limitações na impostação da voz. Débora Bloch está madura e plena no papel da mãe alcoólatra. Porém, a escolha da norte-americana Camilla Belle parece um tanto problemática. A atriz é muito nova para interpretar a amante de Mathias, pai da protagonista, e isso transparece na tela. Mas sua escalação, assim como a do francês Vincent Cassel para viver o pai, é justificada pela pretensão do diretor de alçar voo no mercado internacional.

A personagem de Laura Neiva é uma espécie de Lolita, que mistura inocência e forte sensualidade. A opção por uma menina para protagonista, em vez de um menino, que se aproximaria mais da experiência de vida do cineasta, resulta em um ganho dramático notável. O longa induz de forma sutil um Complexo de Édipo mal resolvido entre Felipa e seu pai. Os dois têm um relacionamento muito próximo até que a jovem descobre sua infidelidade. Mathias estaria não só traindo a mãe como principalmente a filha, levando em conta a interpretação psicanalítica. Este sentimento faz com que Felipa vá diversas vezes espioná-lo, chegando a assistir a uma das cenas de sexo que ele tem com a amante. Fora a relação edipiana, o acontecimento estilhaça a imagem heróica do pai, construída pelos filhos de forma geral.

Todos esses conflitos se agravam, pois a jovem está na puberdade, fase de transição crítica por si só. Depois de se relacionar com um menino da mesma turma e idade, a protagonista elege o barman, interpretado por Cauã Reymond, para perder a virgindade. Além de ser mais velho, o personagem teve um caso com a amante de Mathias. A partir da lógica de análise, não seria leviano afirmar que a escolha de Felipa reflete um desejo inconsciente de se colocar como possível parceira sexual para o pai. A perda da virgindade, símbolo máximo da passagem da infância para a idade adulta, também demonstra a vontade da personagem de se libertar da imagem de criança.

Além de um roteiro muito bem engendrado, Heitor Dhalia demonstra habilidade em aproveitar o tempo, abdicando da pressa que dita muitas das produções contemporâneas, e o potencial do cenário, realizando notáveis tomadas de Felipa e suas amigas na água e da geografia litorânea. A trilha sonora contribui para a construção dramática do filme. O tema musical condutor de À Deriva tem notas de piano que remetem imediatamente às de Central do Brasil, o que não é apenas coincidência, já que Antônio Pinto é o autor de ambas as trilhas, assim como as de Nina, Terra Estrangeira, Abril Despedaçado e Cidade de Deus.

Essa confluência de acertos alcança seu nível máximo na sequência final, que recria uma sensibilidade característica dos filmes de Walter Salles, em que, logo depois de se relacionar com o personagem de Cauã Reymond, Felipa desce do barco conduzida pelo personagem, nada até chegar a orla e encontra o pai, que estava procurando-a há tempos. Neste instante, o cineasta nos agracia com uma das mais belas cenas do cinema nacional contemporâneo. O diretor filma-a de cima, com calma, e vemos os dois em um longo abraço enquanto as ondas fazem marcantes desenhos na areia ao som da magnífica música.

Grande passo de Heitor Dhalia.

Publicada no Guia da Semana.

apenasofim

Produção de baixíssimo orçamento faz raio X da juventude contemporânea

Segundo um amigo meu, estudante de cinema, términos de relacionamento são temas muito recorrentes nos roteiros dos curtas de seus colegas, aspirantes a cineastas. Arrisco afirmar que a tendência se justifica no fato de os rompimentos amorosos serem um dos primeiros e, normalmente, mais marcantes dramas que alguém de 20 e poucos anos sofre. Lidar com a rejeição do parceiro e com o fim das ilusões românticas faz parte do amadurecimento.

Apesar da forte carga dramática que o assunto suscita, o longa de estreia de Matheus Souza, Apenas o Fim, não é melancólico, aspecto que se configura como uma das fragilidades do filme. Após a personagem de Érika Mader anunciar ao namorado que está indo embora em uma hora, o que corresponde ao tempo que lhes resta como casal, os dois especulam sobre o futuro e fazem um balanço do relacionamento enquanto andam pelo campus da PUC-RJ. Estas sequências são intercaladas com flashbacks, em preto e branco, de momentos da vida dos personagens.

Durante o diálogo, diversos ícones da cultura pop e objetos de consumo cultural de uma geração são evocados, desde o Orkut e o Playstation, a Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon e Transformers, até Backstreet Boys e Radiohead. Mistura-se neste caldeirão de referências Bergman e Godard, afinal os personagens são estudantes de cinema. Em uma sociedade em que você é o que consome, estes símbolos surgem como forma de conhecermos os personagens. A metáfora entre o amor e os hambúrgueres do McDonald´s, feita pelo personagem de Gregório Duvivier, também diz muito sobre esta geração e o caráter fluido das relações na contemporaneidade.

Apenas o Fim é um filme feito por jovens e para jovens. Érika e Gregório transpiram leveza, vivacidade e despreocupação. Ela quer ser atriz, ele roteirista. Os tons verde claro das árvores do campus e a fotografia luminosa se aliam à força dos atores, principalmente da inquieta personagem de Érika, na composição desta imagem da potencialidade da juventude. O fato de a garota andar sem parar, fazendo com que seu namorado esteja sempre a segui-la, reflete sua necessidade por novas experiências e descobertas. Apesar de não revelar seu destino, é provável que a garota esteja rumo a um intercâmbio, viagem que simboliza uma espécie de rito de passagem para grande parte dos jovens de classe média brasileiros.

Ao mesmo tempo em que condensa características universais desta faixa etária, o filme traz a aura da juventude carioca, por meio das gírias e do modo peculiar de se portar e se vestir. A levada mansa da canção dos Los Hermanos, grupo fundado por estudantes da PUC-RJ, que encerra o longa, também ajuda a caracterizar o clima desta geração.

O filme foi realizado com baixíssimo orçamento em esquema de produção quase amador, em que todos trabalharam de graça, com exceção do técnico de som. Os protagonistas eram colegas de Matheus, e os equipamentos, emprestados da faculdade. Estas características, somadas aos diálogos coloquiais bem elaborados e à filmagem com câmera na mão, remetem a longas de alguns dos “jovens turcos” da nouvelle vague francesa.

O próprio diretor confirma o nítido parentesco de Apenas o Fim com Antes do Amanhecer e Antes do Anoitecer de Richard Linklater. Woody Allen também é uma importante referência, assim como os filmes do brasileiro Domingos de Oliveira, que atualmente desenvolve projetos com o cineasta estreante.

Apesar das limitações devido à inexperiência e aos escassos recursos técnicos, o despretensioso longa de Matheus é um convite a viagens nostálgicas à época da universidade ou, para os que têm 20 e poucos anos, um lembrete de que vivem a melhor parte de suas vidas. Que sua corajosa empreitada sirva de incentivo a novos diretores e que o frescor deste seu primeiro filme torne-se uma marca de sua filmografia.

 Aguardaremos.

Publicada no Guia da Semana

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Novo filme de José Alvarenga Jr. é a mais nova aposta da Total Entertainment em busca do grande público

Divã de José Alvarenga Jr. estreia com o desafio de repetir o sucesso da peça de Marcelo Saback, que ficou em cartaz por três anos e foi vista por 175 mil espectadores. Assim como a peça, adaptação do livro da gaúcha Martha Medeiros, o filme acompanha a vida de Mercedes, mulher de classe média na faixa dos 40 anos, casada, com dois filhos, que decide ir ao terapeuta por curiosidade. Ao longo da história, percebe-se que a vida perfeita, então descrita pela personagem na primeira sessão com o analista, esconde doses de comodismo e marasmo. A análise faz com que Mercedes promova uma reviravolta em sua vida, com direito à traição, divórcio e namorado 20 anos mais novo.

O longa garante muitas risadas. As interpretações de Lília Cabral e de Alexandra Richter, amiga da protagonista, são pontos altos do filme. O diretor comete alguns deslizes, como o incidente com a amiga, que introduz uma quebra no ritmo da comédia completamente dispensável, ou a cena em que Gianecchini termina com Mercedes enquanto uma tempestade se forma no céu, gerando um clichê terrível. Assim como estes, há outros momentos bastante toscos, mas que não chegam a comprometer a diversão.

O elenco estelar, composto por Lília Cabral, José Mayer, Reynaldo Gianecchini e Cauã Reymond, se alia à trama universal – um casal em crise – e grandes doses de humor na tentativa de conquistar o público. Essa combinação não lembra Se Eu Fosse Você 2? Sem dúvida. Divã guarda várias semelhanças com o recordista de bilheteria da retomada. Ambos os filmes são produzidos pela Total Entertainment, responsável também por Avassaladoras, Sexo, Amor e Traição, A Guerra dos Rocha, entre outros longas com perfil comercial. A produtora aposta na estratégia do cross-over, filmes que atinjam todas as classes sociais e idades para obter sucesso de público. Outro ponto em comum entre Divã e o último longa de Daniel Filho é o grande investimento em publicidade, indispensável para que eles cheguem em seu potencial espectador. Mas a equação não é tão simples. É muito difícil conseguir o feito de Se Eu Fosse Você, pois não há como prever a recepção do público.

Assim como Daniel Filho, José Alvarenga Jr. se formou na televisão, dirigindo seriados de sucesso, como Os Normais, Sai de Baixo, A Diarista e, atualmente, Força Tarefa. Já no cinema, foi responsável pela direção dos últimos filmes dos Trapalhões que, junto com os longas da Xuxa, são as franquias mais bem sucedidas da história do cinema nacional.

Divã marca a estreia de Lília Cabral como protagonista no cinema, o que é de se espantar, afinal uma grande atriz da televisão só agora interpreta um papel de destaque em um longa. E ela não é a única. Assim como os diretores da televisão migram para o cinema, os atores de novela devem fazer o mesmo, pois é uma forma de alavancar público para o cinema nacional. Não que filmes experimentais e com propostas mais artísticas não devam ser feitos. Eles devem coexistir com produções que se comuniquem com o grande público para a construção de uma indústria cinematográfica nacional. Ainda precisamos de muitos Divã, Se Eu Fosse Você, O Auto da Compadecida e Dois Filhos de Francisco, pois os brasileiros só vão deixar de ir ao cinema para ver comédias norte-americanas, quando tivermos uma boa oferta de títulos nacionais. Afinal, para a maioria das pessoas, o cinema é exclusivamente uma forma de entretenimento e escapismo.

Publicada no Guia da Semana

Imagine a situação. Um outdoor cai no muro de um dos luxuosos e super-seguros condomínios de Alphaville e cria uma ponte por onde entram três jovens moradores da enorme favela que existe ao lado. Um assalto mal sucedido acaba com a morte de dois dos meninos, de uma das moradoras e de um segurança. A partir deste momento os habitantes do conjunto habitacional iniciam uma caçada para encontrar o “assassino” e demonstram até onde a classe média é capaz de chegar para manter sua segurança e em última instância, seu status de classe.

O roteiro acima poderia se passar no Brasil, mas acontece na Cidade do México no condomínio, “La Zona”, que dá nome ao primeiro longa do diretor mexicano Rodrigo Plá. Laura Santullo, mulher do diretor, escreveu ”La Zona” como um conto futurista, no qual a exclusão social seria levada ao limite e os cidadãos, abandonados pelo Estado, se organizariam em comunidades fechadas. A surpresa, admite o cineasta, foi constatar que o futuro já havia chegado. Quando Laura e ele começaram a pensar no filme, descobriram que na Cidade do México já havia condomínios como o do texto.

Com o título de ”Zona do Crime” aqui no Brasil, o filme foi pensado para ser um thriller social que pudesse ser desfrutado como filme de suspense, segundo o diretor, por esta razão, é assumidamente um filme para grande público. Porém, este fato não limita sua postura crítica. Rodrigo Plá consegue de forma admirável mapear o cotidiano e o modo de pensar da classe média em um país subdesenvolvido. Acuada pelo crescimento da pobreza e pelo medo de perder seu status social, os indivíduos que compõem esta classe tem a ilusão de estarem seguros morando em condomínios super-vigiados, cheios de câmeras e guardas. Quando esta suposta segurança é ameaçada, emergem os sentimentos mais individualistas e perversos. Um dos acertos do filme é não estereotipar a classe, compondo-a com personagens complexos, que vão do vizinho que não concorda com as decisões totalitárias dos membros da assembléia do condomínio, exigindo a intervenção da polícia no caso, até aquele que acredita que o suborno vai resolver todos os seus problemas, interpretado pelo irmão de Javier Bardem, Carlos Bardem. As posturas e hábitos dos adolescentes do conjunto habitacional são também muito verossímeis e ajudam a entender este universo retratado pelo longa.

O filme, premiado no Festival de Veneza de 2007 com o Leão do Futuro, dado a diretores estreantes, aborda também o papel da polícia na relação entre classes e da ausência do Estado nesta sociedade em que quem determina as regras é quem tem mais poder de compra, em que os cidadãos são vistos como consumidores e a justiça é um instrumento de classe.

Algo que me intrigou foi comparar este com os longas brasileiros que tratam sobre o mesmo assunto e perceber que nenhum dos nacionais conseguiu chegar onde Rodrigo Plá chegou. É uma pena. Os filmes contemporâneos brasileiros mais bem sucedidos ao tratarem esta relação entre classes sociais são, a meu ver, “Como Nascem os Anjos” e o “O Invasor”, mas nenhum destes consegue capturar a essência da classe média como o longa mexicano.

Continuando a referência a outros filmes, a reação dos moradores na assembléia e o clímax do filme, que por razões óbvias não posso revelar, me transportaram para “M, o Vampiro de Dusseldorf” de Fritz Lang. “A Vila” de M. Night Shyamalan também traz questionamentos, em certa medida, similares sobre a questão do isolamento e da mitificação do outro, do diferente.

Tropa de Elite é um assunto sem fim, ainda bem. Gerou uma discussão nos comentários do post abaixo que considero bem interessante, por isso escrevo este texto.

Em relação ao comentário do Roger, acho o seguinte.

O público gosta de se ver representado na tela, a identificação é um fator que faz com que a pessoa se interesse pela obra. E o cinema brasileiro da retomada (período inaugurado com Carlota Joaquina, de 1995 até agora), tem inúmeras produções ficcionais que abordam acontecimentos históricos ou aspectos da realidade do país, como Carandiru, Cidade de Deus, Central do Brasil, Batismo de Sangue, entre outros. Apesar de não existir uma proposta estética que una os diversos filmes da retomada, como existia no cinema novo, a temática os confere certa unidade.

Outro aspecto desta questão é que os diretores brasileiros sentem que tem o dever de refletir sobre o país, como afirmam alguns críticos brasileiros. Acredito que esse sentimento pode ser um legado do cinema novo, o movimento estético mais relevante na cinematografia nacional, extremamente comprometido com os problemas do país, que marcou os diretores que vieram depois. É um palpite…

***

Como prometi, andei acompanhando as repercussões sobre o Urso de Ouro, perguntei para alguns críticos e acho que estou convencida do motivo pelo qual ganhamos o prêmio. Presidente do júri do Festival de Berlim, o diretor grego Constantin Costa-Gavras, tem uma filmografia marcada por longas de denúncia social e grande apelo emocional – características do premiado Tropa de Elite. Além disso, o fato de ser um filme brasileiro confere a obra um certo exotismo, uma espécie de fascínio pelo outro, pelo diferente, pelo cinema feito em um país subdesenvolvido.

Obs. Adoro ler comentários no blog

Repercussões do prêmio

Fevereiro 18, 2008

“É um filme muito forte, muito importante. Ajuda-nos a compreender a sociedade brasileira, e não apenas esta. Corrupção e violência são pragas que avançam em todo mundo. Com as especificidades de cada lugar.” Constantin Costa-Gavras

A lista completa de prêmios que os filmes brasileiros receberam em festivais de cinema internacionais:

EM CANNES:

1953 – O Cangaceiro, de Lima Barreto: melhor filme de aventura
1962 – Palma de Ouro: Pagador de Promessas
1969- Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro: direção de Glauber Rocha
1977 – Di Cavalcanti: melhor curta (Glauber Rocha)
1986 – atriz Fernanda Torres, Eu Sei Que Vou te Amar, de Arnaldo Jabor

EM VENEZA

1953 – Sinhá Moça, de Tom Payne.Premio Especial do Juri
1981 – Eles não Usam Black Tie, de Leon Hirszman, Prêmio Especial do Júri

EM BERLIM

1965 – Os Fuzis, de Ruy Guerra- Urso de Prata
1969 – Brasil ano 2000, de Walter Lima Jr. Urso de Prata
1973 – Toda Nudez, de A. Jabor (Prêmio Especial do Júri)
1978 – A Queda, Ruy Guerra e Nelson Xavier, Urso de Prata
1986 – melhor atriz Marcélia Cartaxo por A Hora da Estrela, de Suzana Amaral
1987 – melhor atriz Ana Beatriz Nogueira por Vera, Sérgio Segall Toledo
1990 – melhor curta Ilha das Flores, de Jorge Furtado
1998 – Central do Brasil. Urso de Ouro e melhor atriz para Fernanda Montenegro

Dá-lhe Tropa de Elite!!!

Fevereiro 17, 2008

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Estou boquiaberta!! Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro em Berlim. Parece um sonho. Depois de o filme ter dividido opiniões e ser comparado a Rambo em uma crítica do site da revista Variety, ele foi consagrado. Gostaria de saber mais sobre o que chamou a atenção dos críticos no longa. Vou ficar atenta às repercussões.

O cinema brasileiro foi premiado apenas três vezes nos principais festivais de cinema do mundo – Cannes, Veneza e Berlim. Em 1962, O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, levou a Palma de Ouro em Cannes, em 1998, Central do Brasil, de Walter Salles ganhou Urso de Ouro em Berlim e, depois de 10 anos, o longa de José Padilha leva o prêmio máximo de Berlim. O Brasil foi destaque em Berlinare com outras produções, além de Tropa de Elite. Mutum, de Sandra Kogut, recebeu menção especial do júri. Café com leite, de Daniel Ribeiro, foi melhor curta-metragem da Mostra Geração, que premia produções com crianças ou adolescentes protagonistas. E o curta-metragem Tá, de Felipe Sholl, recebeu o Teddy Award, dedicado a filmes com temáticas do universo gay.

Os outros prêmios principais do festival foram para Standard Operating Procedure, documentário norte americano que levou o Urso de Prata. Paul Thomas Anderson ganhou melhor diretor por Sangue Negro. Reza Naji foi considerado o melhor ator pelo iraniano The Song of Sparrows e Sally Hawkins, melhor atriz pelo filme britânico Happy-go-Lucky. E o longa chinês In Love We Trust ganhou de melhor roteiro.

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Berlim acabou, mas os cinéfilos já estão se preparando para as premiações de domingo que vem do Oscar. Procurei assistir a maioria dos indicados e tenho minhas apostas. Sangue Negro, na minha opinião, deve ser o grande premiado da noite, levando melhor filme, melhor diretor para Paul Thomas Anderson e melhor ator para Daniel Day Lewis, apesar de ter um forte concorrente em Onde os Fracos Não Têm Vez. Assisti ontem a Sangue Negro e depois preparo uma crítica à altura, mas adianto, o longa lembra, como já foi mencionado por outros críticos, Cidadão Kane e especialmente o final do filme me remeteu a uma cena de O Aviador em que o protagonista antes cheio de ambições, se encontra em decadência, isolado e cheio de manias. Acho que Javier Bardem merece a estatueta de ator coadjuvante por Onde os Fracos Não Têm Vez. Marion Cotillard deveria ser premiada por sua impressionante interpretação de Edith Piaf. Persépolis deve levar melhor animação e Elizabeth: A Era de Ouro figurino.

Bom, mas domingo que vem saberemos. Estou ansiosa.

A lista completa dos indicados ao Oscar:

Melhor ator

George Clooney (“Conduta de Risco”)
Daniel Day Lewis (“Sangue Negro”)
Tommy Lee Jones (“No Vale das Sombras”)
Viggo Mortensen (“Senhores do Crime”)
Johnny Depp (“Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”)

Melhor ator coadjuvante

Casey Affleck (“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”)
Javier Bardem (“Onde os Fracos Não Têm Vez”)
Philip Seymour Hoffman (“Jogos do Poder”)
Hal Holbrook (“Na Natureza Selvagem”)
Tom Wilkinson (“Conduta de Risco”)

Melhor atriz

Cate Blanchet ( “Elizabeth: A Era de Ouro”)
Julie Christie (“Longe Dela”)
Marion Cotillard (“Piaf – Um Hino ao Amor”)
Laura Linney (“The Savages”)
Ellen Page (“Juno”)

Melhor atriz coadjuvante

Cate Blanchett (“Não Estou Lá”)
Ruby Dee (“O Gângster”)
Saoirse Ronan (“Desejo e Reparação”)
Amy Ryan (“Gone Baby Gone”)
Tilda Swinton (“Conduta de Risco”)

Melhor filme

“Conduta de Risco”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”‘
“Sangue Negro”
“Desejo e Reparação”
“Juno”

Melhor filme de animação

“Ratatouille” (Brad Bird)
“Tá Dando Onda” (Ash Brannon and Chris Buck)
“Persépolis” (Marjane Satrapi and Vincent Paronnaud)

Melhor diretor

Tony Gilroy (“Conduta de Risco”)
Jason Reitman (“Juno”)
Julian Schnabel (“O Escafandro e a Borboleta”)
Paul Thomas Anderson (“Sangue Negro”)
Ethan e Joel Coen (“Onde os Fracos Não Têm Vez)

Melhor direção de arte

“O Gângster”
“Desejo e Reparação”
“A Bússola de Ouro”
“Sweeney Todd – o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”
“Sangue Negro”

Melhor fotografia

“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”
“Desejo e Reparação”
“O Escafandro e a Borboleta”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”

Melhor figurino

“Across the Universe”
“Desejo e Reparação”
“Elizabeth: A Era de Ouro”
“Piaf – um hino ao amor”
“Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”

Melhor documentário

“No End in Sight”
“Operation Homecoming: Writing the Wartime Experience”
“Sicko”
“Taxi to the Dark Side”
“War/dance”

Melhor documentário de curta-metragem

“Freeheld”
“La Corona”
“Salim Baba”
“Sari’s Mother”

Melhor edição

“O Ultimato Bourne”
“O Escafandro e a Borboleta”
“Na Natureza Selvagem”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”

Melhor filme estrangeiro

“The Counterfeiters” (Stefan Ruzowitzky – Áustria)
“Beaufort” (Joseph Cedar – Israel)
“Katyn” (Andrzej Wajda – Polônia)
“12″ (Nikita Mikhalkov – Rússia)
“Mongol” (Sergei Bodrov – Cazaquistão)

Melhor maquiagem

“Piaf – Um Hino ao Amor”
“Norbit”
“Piratas do Caribe – No Fim do Mundo”

Melhor trilha sonora original

“Desejo e Reparação” (Dario Marianeli)
“O Caçador de Pipas” (Alberto Iglesias)
“Conduta de Risco” (James Newton Howard)
“Ratatouille” (Michael Giacchino)
“3:10 to Yuma” (Marco Beltrami)

Melhor canção original

“Falling Slowly” (Glen Hansard e Marketa Irglova – “Once”)
“Happy Working Song” (Alen Menken e Stephen Schwartz – “Encantada”)
“Raise It Up” (Autor a ser determinado – “August Rush”)
“So Close” (Alan Menken e Stephen Schwartz – “Encantada”)
“That’s How You Know” (Alan Menken e Stephen Schwartz – “Encantada”)

Melhor curta-metragem

“At Night”
“Il Supplente”
“Le Mozart des Pickpockets”
“Tanghi Argentini”
“The Tonto Woman”

Melhor animação de curta-metragem

“I Met the Walrus”
“Madame Tutli-Putli”
“Meme Lês Pigeons Vont au Paradis”
“My Love”
“Peter and the Wolf”

Melhor edição de som

“O Ultimato Bourne”
“Ratatouille”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”
“Transformers”

Melhor mixagem de som

“O Ultimato Bourne”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Ratatouille”
“3:10 to Yuma”
“Transformers”

Melhor efeito especial

“A Bússola de Ouro”
“Piratas do Caribe – No Fim do Mundo”
“Transformers”

Melhor roteiro adaptado

“O Escafandro e a Borboleta”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Desejo e Reparação”
“Longe Dela”
“Sangue Negro”

Melhor roteiro original

“Juno”
“Lars and the Real Girl”
“Conduta de Risco*
“Ratatouille”
“The Savages”

O outro texto:

A produção cinematográfica brasileira da última década tem apresentado retratos da vida nas grandes cidades, dando menos ênfase aos problemas regionais do Nordeste, que por muito tempo prevaleceram. Por meio de temáticas pertencentes ao universo urbano, discutem-se assuntos que, na base, são o resultado da discrepante desigualdade social e da ineficiência do Estado. O cinema nacional vem, aos poucos, para expor a falência das instituições punitivas, como em Carandiru e O Prisioneiro da Grade de Ferro; denunciar a construção de criminosos, por meio da discussão em torno da violência e do tráfico, como em Ônibus 174 e em Cidade de Deus. Em todos, os temas são referências nacionais, já que são identificados e vividos, em maior ou menor grau, por pessoas de diversas regiões do país. Tropa de Elite, mais uma vez, aborda a violência urbana, porém, o diretor José Padilha decidiu retratar esta realidade a partir outro olhar. Desta vez, o foco não está no tráfico, mas na polícia como instituição, em seus integrantes e na relação de ambos com a sociedade brasileira. O personagem principal do filme é o Capitão Nascimento, oficial do BOPE. Ele é inspirado no Capitão Pimentel utilizado anteriormente como fonte do documentário Notícias de uma Guerra Particular, primeiro longa a dar voz a um integrante do BOPE.

Em Tropa de Elite, Capitão Pimentel foi transformado em um personagem ficcional. Nascimento é um policial dividido entre a carreira o e o nascimento do filho. Apesar de continuar acreditando na eficácia do BOPE como instituição, não consegue mais conciliar seu cargo e os riscos decorrentes dele com seu papel de pai na constituição de uma família. O enredo se desenrola a partir deste conflito pessoal e acompanha o protagonista na tentativa de achar um substituto competente para o cargo. Seu intuito não é apenas solucionar a crise pessoal e sim assegurar que a dinâmica e eficiência do órgão não sejam comprometidos com sua saída. A personalidade do Capitão Nascimento está indissociavelmente ligada a seu cargo, uma prova disso é que ninguém o trata pelo nome, com exceção da mulher que o chama pelo apelido. Ele é uma patente que carrega toda a ideologia da instituição. Assim como no conto “O Espelho” de Machado de Assis, em que Jacobina só tem a imagem refletida no espelho quando está fardado de alferes, a identidade do Capitão Nascimento é também definida pela sua profissão e consequentemente por seu papel social.

O filme utiliza algumas técnicas para prender a atenção do espectador. Uma delas é a opção de narrativa em off, que humaniza o Capitão Nascimento, por apresentar seus dramas e aflições em primeira pessoa, gerando uma aproximação do público com o personagem. Esta opção narrativa produz duas vozes, o que pode gerar uma confusão do que é o discurso interno (do personagem) e o externo (do diretor), na percepção do espectador. Por isso, atribuiu-se ao filme o rótulo fascista e de fazer apologia da violência. Apesar de ficcional, o filme tenta se aproximar da realidade, utilizando locações reais, atores amadores, interpretações naturalistas e um estilo de filmagem similar ao documental, que contribuem para a verossimilhança. O problema é a realidade retratada – esta sim – fascista, por permitir a existência de um órgão como o BOPE, criado com o objetivo de reprimir e conter a barbárie provocada pelas contradições sociais não solucionadas pelo Estado. O filme se limita a retratar esta situação.

Tropa de Elite detalha o treinamento de guerra, violento e humilhante, a submissão hierárquica, entre outras etapas necessárias para entrar no BOPE. Assim, desvenda os mecanismos para um indivíduo se transformar em um policial deste órgão, tornando-os de conhecimento público. Além disso, explica as origens do comportamento dos policiais, retrata sua construção e legitimação social e, finalmente, o Estado de Exceção institucionalizado.

Ao mesmo tempo em que se aproxima da linguagem documental, como foi mencionado, o filme apresenta um ritmo dinâmico, montagem fragmentada, edição frenética, presentes na publicidade e na televisão. Como o tempo é retratado de forma indireta, as situações parecem se passar em um eterno presente. A única referência ao passado é feita por meio de um flashback.

Por sua vez, o documentário Notícias de uma Guerra Particular foi encomendado para a televisão francesa e, portanto, tem um público e objetivo diferentes. A intenção de João Moreira Salles era mostrar a dinâmica do tráfico de drogas no Brasil para os europeus. O documentário é constituído por depoimentos de moradores do morro Santa Marta, traficantes, policiais civis e do BOPE e do escritor Paulo Lins. Por isso, não há uma voz em destaque, cada fala apresenta elementos para o entendimento desta realidade complexa. Enfatizam-se as declarações das pessoas diretamente envolvidas no problema, através da valorização do tempo da fala, o que gera um ritmo mais lento. Utilizando intertítulos para apresentar os personagens, o diretor faz uma opção didática em detrimento da estética e, por meio de paralelos, são feitas comparações entre as armas, os enterros, e do dia-a-dia dos policiais e dos traficantes, na tentativa de explicar os dois lados do mesmo conflito.

Ao retratar os conflitos entre a polícia e o tráfico, o documentário se propõe a ouvir os principais envolvidos na questão trazendo a reflexão para o espectador. Não procura culpados, mas compartilha com a sociedade a responsabilidade sobre a tragédia social brasileira. Estruturado em forma de entrevistas, a sucessão dos depoimentos se encadeiam de forma a esclarecer o funcionamento do tráfico. Nota-se nesta obra uma contextualização histórica dos problemas retratados. Há várias referências ao passado, são feitas reconstituições de fatos por meio de lembranças dos entrevistados, além do uso de imagens de arquivos. Não há um julgamento, mas a busca pelo entendimento sobre uma grave crise social pela qual passa o país. Um filme investigativo que compõe um mosaico complexo do espaço político contemporâneo e que coloca em cheque todos os valores que fundaram a modernidade: direitos humanos, liberdade, igualdade, fraternidade, justiça, paz.

No entanto, é importante salientar que um documentário não pode ser validado como uma verdade absoluta dos fatos, pois, apesar de ter a pretensão de representar o real, não deixa de refletir uma visão do diretor sobre um fenômeno. É fruto de escolhas estéticas, técnicas e metodológicas. O documentarista, Eduardo Coutinho, sintetiza esta idéia no trecho do livro O documentário de Eduardo Coutinho – televisão, cinema e vídeo, afirmando que “a verdade da filmagem significa revelar em que situação, em que momento ela se dá – e todo o aleatório que pode acontecer nela. É importantíssimo porque revela a contingência da verdade que você tem, revela muito mais a verdade da filmagem que a filmagem da verdade, porque, inclusive, a gente não está fazendo ciência, mas cinema.” Portanto, a veracidade dos argumentos de um documentário deve ser questionada da mesma forma que a de um filme de ficção.

Assim como em Tropa de Elite, o documentário retrata a falência do estado democrático de direito que visa à universalização dos mesmos. Nos dois filmes, a polícia tem a função de manter os marginalizados sob controle, confortando os anseios da classe média – e agindo como instrumento de classe- e os traficantes assumem o papel do governo na favela oferecendo segurança e suprindo necessidades dos moradores.

O Estado de Exceção foi um mecanismo jurídico criado pela Assembléia Constituinte Francesa, em 1791, sob o nome de “estado de sítio”, visando à suspensão da ordem em casos extremos. Essa operação jurídica foi sendo utilizada ao longo dos séculos XIX e XX pelos governos constitucionais, como Alemanha, Itália, Reino Unido e EUA e a recorrência a esses dispositivos na lei se davam em virtude das mais variadas situações de caos, desordem ou emergência política e econômica. O que o filósofo italiano Giorgio Agamben nota é que o Estado de Exceção vem se tornando o paradigma de governo, ou seja, o que seria para funcionar em casos de exceção funciona como regra geral. É sempre o apelo à segurança, à defesa da paz, ao combate à violência que move o poder soberano a agir fora dos mecanismos jurídicos, suspendendo o direito, a norma e a lei. Segundo Agamben, “a segurança como paradigma de governo não nasce para instaurar a ordem, mas para governar a desordem”.

Percebe-se que o Estado de Exceção, mesmo não sendo constitucionalmente decretado, coexiste em muitos casos com o Estado Democrático de Direito, virando regra, como é o caso do BOPE no Rio de Janeiro, que utiliza a violência sem qualquer parâmetro legal para conter o tráfico. O que se configura nesta situação é um constante estado de guerra, em que a violação dos direitos humanos é constante.

O cinema brasileiro hoje tenta retratar este impasse social. É importante notar que nos dois filmes não é apresentada nenhuma possibilidade de solução para as questões abordadas. Isto pode ser sintoma da própria conjuntura social e teórica de descrédito e carência de propostas políticas. Quando, no final de Tropa de Elite, Matias assume o papel de novo capitão e mata o traficante, fica claro esse sentido de manutenção do status quo. Da mesma forma que na cena final de Notícias de uma guerra particular mostra-se o enterro de um policial e de um provável envolvido com o tráfico, demonstrando que mais mortes virão e refletindo este ciclo vicioso que a sociedade brasileira está inserida.

Jogo de Cena

Novembro 21, 2007

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O que se espera de um documentário que mostra durante 1h 43 min apenas a imagem – mulheres sentadas em uma cadeira no palco de um teatro, relatando episódios de suas vidas? Pode parecer monótono, mas definitivamente não é. Pois quem está entrevistando essas mulheres é Eduardo Coutinho, um dos mais importantes nomes do documentário brasileiro, conhecido por Cabra Marcado para Morrer e Edifício Master.

Os relatos destas mulheres são interrompidos por atrizes – Andréa Beltrão, Fernanda Torres, Marília Pêra, entre outras menos conhecidas – que começam a interpretar a história, até então contada pela pessoa que tinha passado por ela. Em certos momentos do filme é difícil distinguir se o que assistimos é uma interpretação ou a própria pessoa falando sobre sua vida. O mais interessante em Jogo de Cena é essa confusão entre ficção e realidade e a discussão sobre o ato de interpretar.

Além destas questões mais cinematográficas, o documentário comove pelos depoimentos, com histórias de abandono, perda, traumas, rupturas familiares – mas, sobretudo, histórias de superação. É uma verdadeira homenagem às mulheres.

Blog oficial Jogo de Cena

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Nada como ir ao cinema na segunda-feira para começar bem a semana. O filme? Tropa de Elite. Depois de ver uma cópia pirata, emprestada por uma amiga, queria ver o Capitão Nascimento na telona, finalizado, com o som certinho, cenas corrigidas e direito a texto introdutório. Sem a ansiedade, presente na primeira vez que o assisti, pude analisá-lo melhor. Um grande filme, muito bem feito.

O fato de ter levado mais de 2 milhões de brasileiros ao cinema e por isso ser o longa nacional mais visto do ano, já faz com que o filme mereça uma atenção especial. Mas seu mérito não está somente nas bilheterias. Com uma linguagem ligada a tradição documental e falando de um assunto que atinge a grande maioria dos brasileiros – a relação da classe média com o tráfico e a polícia, em especial o BOPE – o filme se transformou em um fenômeno.

Esse boom gerado pelo Tropa de Elite é muito fascinante para quem pensa na formação de público para o cinema nacional. Afinal, já está na hora dos brasileiros valorizarem os longas nacionais e pararem um pouco de ver enlatados norte americanos. Só com uma produção constante e de filmes com temas e propostas variadas que isso pode acontecer.

Reflexões a parte, o que me vem a cabeça toda vez que penso em Tropa de Elite é a sensação que ele me provocou nos cinco primeiros minutos de filme. Isso é impagável. E para mim, é a essência do cinema e o que move minha paixão pela sétima arte.

Isso me lembra os primórdios do cinema e a reação dos espectadores na primeira exibição pública de uma produção dos irmãos Lumiére em um café em Paris. Lumiére, em francês, significa luz, não poderia existir coincidência melhor. Seus filmes eram curtos documentários de empregados saindo do trabalho, da chegada do trem na estação, entre outras situações. Nesta exibição do trem, o público francês ficou muito assustado achando que ele sairia da tela e invadiria a sala. O que demonstra o impacto que as imagens em movimento tinham e continuam tendo, só que de forma diferente.

Site oficial de Tropa de Elite