Desvendando a beleza que existe no real
Março 31, 2008
Primeiro, gostaria de pedir desculpas aos ávidos leitores deste blog que se frustaram ao não encontrar post novos este mês. É que a mistura de quarto ano de faculdade, TCC, trabalho e curso de cinema não está sendo muito saudável para mim. Mal tenho tempo para respirar ultimamente. Mas, continuo vendo muitos filmes. Afinal, meu TCC é sobre cinema e sempre que encontro uma brecha na agenda a primeira coisa que faço é correr para a locadora, como uma boa cinéfila.
Confesso que tenho me decepionado com muitos dos filmes que assisti recentemente. E quando isso acontece o que fazemos? Corremos para os bons e confiáveis clássicos. O escolhido da noite foi O Amigo da Minha Amiga (1987) da série Comédias e Provérbios de Eric Rohmer. Nossa, que filme! Eu sou suspeita para falar, Rohmer é um dos meus diretores favoritos, só perde para o cineasta que é tema do cabeçalho deste blog.
Rohmer foi crítico de cinema, editor chefe da famigerada Cahiers du Cinéma e depois iniciou sua trajetória como cineasta em um período particularmente importante da história do cinema francês, a Nouvelle Vague (nova onda). O movimento era composto por Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette, Claude Chabrol, entre outros, críticos e diretores da época que acreditavam no cinema autoral (mais informações sobre a Nouvelle Vague no post Homenagem ao cinema francês).
O caminho autoral que Rohmer seguiu foi o de fazer filmes tentando captar a simplicidade do mundo. O cineasta acredita que a poesia está nas coisas, nas pessoas e não em enquadramentos elaborados, por isso faz filmes tentando ocultar marcas de sua subjetividade. O que na prática não é bem assim, já que é praticamente impossível não reconhecer seus filmes, devido a algumas características das quais falarei logo mais. Ele segue uma linha teórica similar a de André Bazin no sentido de valorizar a representação do real. Outro cineasta que trabalha desta forma é o iraniano Abbas Kiarostami. Os esforços destes diretores estariam portanto a serviço de melhor contar determinada história. Filmes que tematizam o próprio cinema ou apresentam maior preocupação com a linguagem do que com a narrativa são considerados decadentes para o cineasta.
Quem assiste a um filme de Rohmer encontra histórias sobre o dia-a-dia de pessoas comuns, relacionamentos humanos, encontros casuais entre personagens que se transformam em grandes amizades, discussões sobre a natureza dos sentimentos e diálogos, muitos diálogos. Segundo o cineasta, seus filmes lidam “menos com o que as pessoas fazem do que com o que está passando pela cabeça delas enquanto elas estão fazendo isso. Um cinema de pensamentos, ao invés de um cinema de ações”. Seus protagonistas, muito conscientes de seus sentimentos, discorrem durante um longo tempo sobre a vida, o destino, o amor.
A câmera discreta, acompanha esses personagens adoráveis andando por cidades francesas, que acabam por se tornar personagens de seus filmes. Ele não usa figurantes e nenhum tipo de trilha sonora para dramatizar as situações. É a vida ali, em seu estado bruto e fascinante.
A filmografia do diretor é composta por três séries temáticas: os Contos Morais realizados nos anos 60 e 70, as Comédias e Provérbios, dos anos 80 e os Contos das Quatro Estações feito nos anos 80 e 90. Além das séries, o cineasta tem outros filmes.
Para quem está ansioso para assistir uma das obras do diretor, recomendo o Noites de Lua Cheia (1984), O Amigo da Minha Amiga (1987) e os todos os Contos das Quatro Estações.
Vídeo feito para o programa Espaço Unisanta da Universidade Santa Cecília (Santos, SP) sobre o diretor:
Homenagem ao cinema francês
Janeiro 24, 2008
Em Paris fala de carências, de faltas, de sofrimento. Em uma cena muito delicada, Paul (Romain Duris) conta para uma das namoradas de seu irmão, Jonathan (Louis Garrel de Os Sonhadores), do suicídio da irmã. Ele tenta explicar a tristeza que a acompanhava até sua morte aos 17 anos. Algo como um mal estar inerente ao fato de estar vivo. A dor faz parte da vida de Paul também, que acaba de se mudar para a casa do pai após se separar de sua mulher, Anna (Joana Preiss).
O longa retrata um dia na vida dessa família. Enquanto Paul passa a maior parte do seu depressivo dia na cama, Jonathan, numa espécie de tentativa desesperada de suprir suas carências, se relaciona com uma mulher após a outra. Já o pai, meio sem saber como agir, tenta, à sua maneira, se relacionar com os filhos.
É nas relações familiares que se ancora o longa de Christophe Honoré. Em Paris, presta uma homenagem à nouvelle vague (nova onda), movimento cinematográfico dos anos 60, na França que tem como principais nomes Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Claude Chabrol, entre outros jovens críticos e diretores da época que acreditavam no cinema autoral em oposição a um padrão cinematográfico até então vigente, a chamada “qualidade francesa”. Formados nos cineclubes, estes novos diretores tentavam, cada um de uma forma, encontrar a verdade das coisas, deixar que a vida se revelasse na película. Procurava-se resgatar uma naturalidade da filmagem.
É o que Christophe Honoré tenta fazer neste longa. E, assim como na vida, os conflitos dos protagonistas não se resolvem num passe de mágica.


