Direto da Mostra

Novembro 15, 2009

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Não conseguiu ver tudo o que queria na Mostra Internacional de Cinema? Confira os filmes que estreiam em breve em circuito comercial

A 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo chegou ao fim. Os cinéfilos tiveram a oportunidade de ver 425 filmes de diversos países e gêneros, mas, com esta incrível oferta de títulos, muitos longas interessantes podem ter ficado fora da lista. Dos filmes que integraram a seleção, confira os que já estão em circuito e as datas daqueles que podem ser vistos, ou revistos, em breve nas salas de cinema.

Em cartaz

À Procura de Eric, de Ken Loach
O ponto alto desta comédia que abriu a Mostra é o roteiro, que abre espaço para a fantasia. Nele, Eric Bishop (Steve Evets), um resignado carteiro de classe média baixa cheio de problemas, vê sua vida tomar outro rumo quando, como em um passe de mágica, começa a receber visitas do polêmico jogador do Manchester e da seleção francesa dos anos 90, Eric Cantona – representado pelo próprio atleta. As engraçadas metáforas que o jogador usa para encorajar o xará são uma atração à parte. 

500 Dias com Ela, de Marc Webb
Esta deliciosa e criativa comédia romântica marca a estreia do diretor de videoclipes Marc Webb em longas. Subvertendo uma das regras do gênero, o personagem masculino Tom (Joseph Gordon-Levitt) é quem idealiza o amor em oposição à garota por quem ele se apaixona, Summer (Zooey Deschanel), que desde o início deixa claro que não quer um relacionamento sério. Outro diferencial do longa é a quebra da linearidade narrativa, por meio do intenso uso de flash-backs e flash-fowards, usada para descrever as etapas do relacionamento de 500 dias do casal. A trilha sonora, com canções de The Smiths, Black Lips, Feist, Simon & Garfunkel e Carla Bruni, possui referências a outros longas e a ícones da cultura pop, além da incorporação de um número musical e o figurino vintage de Summer, que ajudam a compor o clima. Esta produção norte-americana guarda alguns paralelos com o nacional Apenas o Fim, de Matheus Souza.

Hotel Atlântico, de Suzana Amaral
A diretora abandona o universo feminino neste terceiro filme que acompanha a trajetória de um homem solitário (Júlio Andrade) que viaja sem rumo ao sul do Brasil. Assim como em Cão Sem Dono, estreia de Júlio como protagonista no cinema, este longa revela um mundo distópico, em que o deslocamento do personagem parece não ter objetivo que não seja evitar a inércia ou buscar viver unicamente o momento presente, sem nenhuma esperança. Mariana Ximenes, João Miguel e Gero Camilo também integram o elenco.

Dezembro

Abraços Partidos, de Pedro Almodóvar
Quem acompanha a obra do diretor espanhol vai estranhar esta produção que, distante do potencial altamente questionador e subversivo de suas obras dos anos 80, retrata pela primeira vez um homossexual enrustido e complexado e uma mulher que se submete à violência masculina. Paternidade secreta, amores proibidos e terríveis acidentes compõem, como dita o gênero, este melodrama protagonizado por Penélope Cruz. Um de seus pontos altos é o filme dentro do filme, em que Almodóvar faz referência a Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos.

Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee
Depois do magnífico drama Desejo e Perigo, premiado com um Leão de Ouro em Veneza, Ang Lee faz uma incursão no universo da comédia neste longa filmado em Hollywood. A abordagem do festival, que ficou para a história, é bastante original. O roteiro explora o processo de negociação do terreno em que seria realizado o evento, na interiorana cidade de White Lake, e as progressivas mudanças que o local vai sofrendo até o festival finalmente começar. A história é contada a partir do protagonista Elliot Tiber (Demetri Martin), o caricatural filho dos donos de um dos humildes hoteis que abrigaram aqueles jovens hippies. Lamentavelmente, o filme não explora a trilha sonora como poderia e, na tentativa de criar momentos cômicos, a mãe do protagonista acaba por cansar pelo exagero.

Fevereiro

Soul Kitchen, de Fatih Akin
Nada como ser surpreendido na Mostra. Com tantos filmes, muitas vezes a escolha dos títulos é feita por duas linhas de sinopse, premiações em festivais anteriores ou pelo diretor, como foi o caso deste longa. Não havia assistido aos outros filmes deste cineasta alemão de origem turca, mas resolvi apostar. Soul Kitchen se revelou uma deliciosa comédia que aborda a vida de Zinos (Adam Bousdoukos), jovem proprietário de um restaurante que passa por diversos contratempos, desde a ida da namorada para Xangai até uma hérnia de disco que obriga o personagem a andar mancando durante grande parte do longa, o que produz sequências hilárias. O irmão de Zinos, Illias (Moritz Bleibtreu), o cozinheiro Shayn (Birol Ünel) e a garçonete (Anna Bederke) se unem ao protagonista, formando uma rede de solidariedade e carinho, em uma espécie de nova configuração da família na contemporaneidade para ajudá-lo a se livrar das confusões.

Março

Corações em Conflito, de Lukas Moodysson
Leo (Gael Garcia Bernal) e Ellen (Michelle Williams) são um bem-sucedido e apaixonado casal que vive em Nova Iorque, com sua pequena filha e a babá de origem filipina. O longa se estrutura em multi-plots, tendência em alta no cinema contemporâneo transnacional, sendo um dos núcleos nos Estados Unidos, outro na Tailândia (onde o marido vai viajar a trabalho) e o terceiro nas Filipinas, em que moram os filhos da babá. Lukas Moodysson, na tentativa de abordar a globalização e a relação de exploração capitalista dos países desenvolvidos aos subdesenvolvidos (prefiro este termo ao utópico em desenvolvimento), faz um filme-tese, produzindo situações artificiais, como a presença de crianças em todos os núcleos para justificar o sacrifício dos pais e o foco no país em que foi produzida a bola de basquete comprada nos Estados Unidos para o menino filipino. Nota-se uma forte filiação entre este longa e Babel, do mexicano Alejandro González Iñárritu.  

Abril

A Batalha dos Três Reinos, de John Woo
Inspirado em uma batalha do livro Romance dos Três Reinos, escrito por volta do ano 1350, este longa, que ostenta o título da mais cara produção do cinema chinês, tem todos os clichês de uma super-produção épica de guerra: batalhas monumentais, muito sangue, heroísmo, efeitos visuais, cenários suntuosos e maniqueísmo. Os astros do cinema chinês Takeshi Kaneshiro e Tony Leung compõem o elenco deste que, entre estratégias de guerra, discute amor, ódio, vingança, dever e honra.

Publicada no Guia da Semana

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Produção de baixíssimo orçamento faz raio X da juventude contemporânea

Segundo um amigo meu, estudante de cinema, términos de relacionamento são temas muito recorrentes nos roteiros dos curtas de seus colegas, aspirantes a cineastas. Arrisco afirmar que a tendência se justifica no fato de os rompimentos amorosos serem um dos primeiros e, normalmente, mais marcantes dramas que alguém de 20 e poucos anos sofre. Lidar com a rejeição do parceiro e com o fim das ilusões românticas faz parte do amadurecimento.

Apesar da forte carga dramática que o assunto suscita, o longa de estreia de Matheus Souza, Apenas o Fim, não é melancólico, aspecto que se configura como uma das fragilidades do filme. Após a personagem de Érika Mader anunciar ao namorado que está indo embora em uma hora, o que corresponde ao tempo que lhes resta como casal, os dois especulam sobre o futuro e fazem um balanço do relacionamento enquanto andam pelo campus da PUC-RJ. Estas sequências são intercaladas com flashbacks, em preto e branco, de momentos da vida dos personagens.

Durante o diálogo, diversos ícones da cultura pop e objetos de consumo cultural de uma geração são evocados, desde o Orkut e o Playstation, a Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon e Transformers, até Backstreet Boys e Radiohead. Mistura-se neste caldeirão de referências Bergman e Godard, afinal os personagens são estudantes de cinema. Em uma sociedade em que você é o que consome, estes símbolos surgem como forma de conhecermos os personagens. A metáfora entre o amor e os hambúrgueres do McDonald´s, feita pelo personagem de Gregório Duvivier, também diz muito sobre esta geração e o caráter fluido das relações na contemporaneidade.

Apenas o Fim é um filme feito por jovens e para jovens. Érika e Gregório transpiram leveza, vivacidade e despreocupação. Ela quer ser atriz, ele roteirista. Os tons verde claro das árvores do campus e a fotografia luminosa se aliam à força dos atores, principalmente da inquieta personagem de Érika, na composição desta imagem da potencialidade da juventude. O fato de a garota andar sem parar, fazendo com que seu namorado esteja sempre a segui-la, reflete sua necessidade por novas experiências e descobertas. Apesar de não revelar seu destino, é provável que a garota esteja rumo a um intercâmbio, viagem que simboliza uma espécie de rito de passagem para grande parte dos jovens de classe média brasileiros.

Ao mesmo tempo em que condensa características universais desta faixa etária, o filme traz a aura da juventude carioca, por meio das gírias e do modo peculiar de se portar e se vestir. A levada mansa da canção dos Los Hermanos, grupo fundado por estudantes da PUC-RJ, que encerra o longa, também ajuda a caracterizar o clima desta geração.

O filme foi realizado com baixíssimo orçamento em esquema de produção quase amador, em que todos trabalharam de graça, com exceção do técnico de som. Os protagonistas eram colegas de Matheus, e os equipamentos, emprestados da faculdade. Estas características, somadas aos diálogos coloquiais bem elaborados e à filmagem com câmera na mão, remetem a longas de alguns dos “jovens turcos” da nouvelle vague francesa.

O próprio diretor confirma o nítido parentesco de Apenas o Fim com Antes do Amanhecer e Antes do Anoitecer de Richard Linklater. Woody Allen também é uma importante referência, assim como os filmes do brasileiro Domingos de Oliveira, que atualmente desenvolve projetos com o cineasta estreante.

Apesar das limitações devido à inexperiência e aos escassos recursos técnicos, o despretensioso longa de Matheus é um convite a viagens nostálgicas à época da universidade ou, para os que têm 20 e poucos anos, um lembrete de que vivem a melhor parte de suas vidas. Que sua corajosa empreitada sirva de incentivo a novos diretores e que o frescor deste seu primeiro filme torne-se uma marca de sua filmografia.

 Aguardaremos.

Publicada no Guia da Semana

Fé em xeque

Maio 22, 2009

O sétimo selo

Uma das obras primas de Bergman reflete questionamentos religiosos do diretor

De 1956, O Sétimo Selo é baseado na peça O Retábulo da Peste que Ingmar Bergman escreveu para seus alunos da Escola de Teatro de Malmö. O longa, filmado em 35 dias, acompanha a trajetória do cavaleiro Antonius, que acaba de voltar das Cruzadas com seu escudeiro, e é surpreendido com a figura da Morte. Diante da notícia que iria morrer, o protagonista propõe que seu destino seja decidido em uma partida de xadrez.

Este prolongamento da vida faz com que o personagem resolva fazer uma última boa ação – ajudar um casal de atores – ao mesmo tempo em que ele entra em um processo de dúvidas, incertezas e angústia sobre a fé e Deus. Afinal, ele matou em nome do catolicismo, vê as injustiças cometidas pela Inquisição, a Europa assolada pela peste negra e pela fome e um fanatismo religioso extremamente destrutivo. Como poderia existir Deus em tal cenário?

No livro Imagens, o diretor reconhece que O Sétimo Selo está impregnado de suas concepções religiosas em diferentes períodos da vida. Os questionamentos do protagonista são reflexos dos de Bergman que, como filho de pastor luterano, teve uma educação muito rígida marcada pelas visitas frequentes a igreja e pelos sentimentos de culpa, pecado, castigo, perdão, confissão e indulgência.

Antonius carrega resquícios da fé infantil de Bergman, que podem ser observados por seu o hábito de rezar e de se confessar, o medo da morte e a crença em uma vida para além deste mundo. Mas, ao mesmo tempo, o personagem busca o conhecimento como forma de se libertar dos dogmas religiosos, como a existência de Deus, que ele tanto coloca em dúvida. O cavaleiro tem como antagonista Jons, seu escudeiro, personagem extremamente racional que não acredita em nada além da vida na Terra. 

A proposta do jogo de xadrez não é casual, ela reforça a tentativa do personagem de se livrar da lógica do misticismo. Além de suas peças serem alegorias da estratificação da sociedade medieval, o resultado de uma partida de xadrez depende exclusivamente da habilidade dos jogadores. Trata-se, portanto, de um jogo que exalta o livre-arbítrio, e não o acaso ou destino, como os dados. Já a construção desmistificada da personagem da Morte, um homem com o rosto pintado de branco – como o de um palhaço – que jogava xadrez, conversava e até fazia brincadeiras, é uma tentativa de combater as representações religiosas da figura com ironia.

A família dos atores Jof e Mia representam a idéia de que o homem é um ser sagrado, que o diretor afirma ser seu conceito de religiosidade na maturidade. Com uma certa inocência e alegria infantis, eles divertem o público do vilarejo, cantam, dançam e brincam. A cena em que os personagens comem morangos silvestres e leite é emblemática, pois demonstra a fascinação do cavaleiro com aquela vida simples e sem preocupações que vivem os artistas. Não por acaso, eles são os únicos que sobrevivem. Talvez seja o tipo de concepção de vida que Berman gostaria que prevalecesse no mundo. 

Uma das sequencias mais marcantes de O Sétimo Selo, que se tornou célebre, é a que os personagens são conduzidos pela Morte em uma dança. Curiosamente, ela não foi realizada pelos atores, que já haviam ido embora quando Bergman decidiu chamar assistentes de produção e turistas para realizar a cena, aproveitando o formato das nuvens no céu. A dança final pode ser interpretada como a conscientização dos personagens em relação à morte, pois, se não houver nada depois da vida, deve-se celebrar este último instante, mas caso exista, não há porque temer, por isso eles abandonam o medo e vão felizes ao encontro deste lugar misterioso.

Publicada no Guia da Semana

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Desculpem-me os entusiastas de Quem Quer Ser Um Milionário?, mas esta crítica não é elogiosa. O filme, como se sabe, ganhou sete prêmios Bafta, quatro Globos de Ouro e oito Oscar, colocando-se como a produção de maior destaque no cinema comercial deste ano. Primeiro, é bom enfatizar que o Oscar e o Globo de Ouro são premiações voltadas para a indústria cinematográfica norte-americana, mas, devido à força imperialista deste cinema, os filmes vencedores são valorizados e largamente consumidos mundialmente. A história do cinema comprova também que entre a lista de vencedores do Oscar não necessariamente estão os filmes mais relevantes daquele ano, como Cidadão Kane, por exemplo, que recebeu apenas o prêmio de melhor roteiro adaptado, em 1942.

Apesar de Quem Quer Ser Um Milionário? ser baseado no livro Sua Resposta Vale um Bilhão do indiano Vikas Swarup, realizado com atores amadores indianos (o protagonista é inglês) e filmado em Mumbai, trata-se de uma produção inglesa. Portanto, o longa reflete uma visão estrangeira sobre a Índia. O país, onde 455 milhões de habitantes sobrevivem com menos de 1,25 dólar por dia, foi colônia britânica até, pasmem, 1947. Portanto, como um cineasta pode filmar a pobreza de uma nação da forma estetizada como fez, sabendo que seu país foi responsável por isso? É muito cruel.      

O inglês Danny Boyle parece incoerente quando afirma detestar Cidade de Deus e as comparações feitas entre seu filme e o brasileiro. Em entrevista, César Charlone, diretor de fotografia do longa sobre o bairro carioca, diz que seu amigo e fotógrafo da produção inglesa, Anthony Dod Mantle, gosta muito de Cidade de Deus. Não há como negar que a câmera na mão, os enquadramentos e as cores saturadas que adquirem a favela de Mumbai não são influencias do filme de Fernando Meirelles. Tanto que, uma das críticas que o filme tem recebido na Índia, o de fazer “pornografia da miséria”, é outra versão da polêmica da cosmética da fome, levantada na época do lançamento de Cidade de Deus.

Há outros aspectos que aproximam as produções. O desfecho da trajetória do favelado Jamal Malik é o mesmo de Buscapé: a ascensão social justificada pelo caráter. De acordo com a lógica do filme, o correto e sofrido Jamal sabe as respostas por força do destino, assim como Buscapé consegue o trabalho no jornal por não ter se corrompido com o tráfico e a criminalidade. Os longas apresentam soluções individuais para o problema estrutural da desigualdade social nos subdesenvolvidos, Índia e Brasil.

Já que a vida na Índia parece despertar a atenção da Academia, por que não premiar uma produção local? Claro que não, afinal não é interessante correr o risco de disputar mercado com Bollywood, a indústria que produz mais filmes no mundo. Premia-se então o conto de fadas pós-moderno de Boyle que atrai pela forma exótica e palatável que o país é retratado, cumprindo as expectativas do público ocidental e ignorando a cultura indiana.

Se quiser saber mais sobre a Índia e sua produção cinematográfica, em vez de assistir Quem Quer Ser Um Milionário? (ou a novela Caminhos das Índias), confira um dos ótimos longas indianos em cartaz na mostra Bollywood e o Cinema Indiano na Cinemateca Brasileira, de 17 a 29 de março.

Publicada no Guia da Semana

Imagine a situação. Um outdoor cai no muro de um dos luxuosos e super-seguros condomínios de Alphaville e cria uma ponte por onde entram três jovens moradores da enorme favela que existe ao lado. Um assalto mal sucedido acaba com a morte de dois dos meninos, de uma das moradoras e de um segurança. A partir deste momento os habitantes do conjunto habitacional iniciam uma caçada para encontrar o “assassino” e demonstram até onde a classe média é capaz de chegar para manter sua segurança e em última instância, seu status de classe.

O roteiro acima poderia se passar no Brasil, mas acontece na Cidade do México no condomínio, “La Zona”, que dá nome ao primeiro longa do diretor mexicano Rodrigo Plá. Laura Santullo, mulher do diretor, escreveu ”La Zona” como um conto futurista, no qual a exclusão social seria levada ao limite e os cidadãos, abandonados pelo Estado, se organizariam em comunidades fechadas. A surpresa, admite o cineasta, foi constatar que o futuro já havia chegado. Quando Laura e ele começaram a pensar no filme, descobriram que na Cidade do México já havia condomínios como o do texto.

Com o título de ”Zona do Crime” aqui no Brasil, o filme foi pensado para ser um thriller social que pudesse ser desfrutado como filme de suspense, segundo o diretor, por esta razão, é assumidamente um filme para grande público. Porém, este fato não limita sua postura crítica. Rodrigo Plá consegue de forma admirável mapear o cotidiano e o modo de pensar da classe média em um país subdesenvolvido. Acuada pelo crescimento da pobreza e pelo medo de perder seu status social, os indivíduos que compõem esta classe tem a ilusão de estarem seguros morando em condomínios super-vigiados, cheios de câmeras e guardas. Quando esta suposta segurança é ameaçada, emergem os sentimentos mais individualistas e perversos. Um dos acertos do filme é não estereotipar a classe, compondo-a com personagens complexos, que vão do vizinho que não concorda com as decisões totalitárias dos membros da assembléia do condomínio, exigindo a intervenção da polícia no caso, até aquele que acredita que o suborno vai resolver todos os seus problemas, interpretado pelo irmão de Javier Bardem, Carlos Bardem. As posturas e hábitos dos adolescentes do conjunto habitacional são também muito verossímeis e ajudam a entender este universo retratado pelo longa.

O filme, premiado no Festival de Veneza de 2007 com o Leão do Futuro, dado a diretores estreantes, aborda também o papel da polícia na relação entre classes e da ausência do Estado nesta sociedade em que quem determina as regras é quem tem mais poder de compra, em que os cidadãos são vistos como consumidores e a justiça é um instrumento de classe.

Algo que me intrigou foi comparar este com os longas brasileiros que tratam sobre o mesmo assunto e perceber que nenhum dos nacionais conseguiu chegar onde Rodrigo Plá chegou. É uma pena. Os filmes contemporâneos brasileiros mais bem sucedidos ao tratarem esta relação entre classes sociais são, a meu ver, “Como Nascem os Anjos” e o “O Invasor”, mas nenhum destes consegue capturar a essência da classe média como o longa mexicano.

Continuando a referência a outros filmes, a reação dos moradores na assembléia e o clímax do filme, que por razões óbvias não posso revelar, me transportaram para “M, o Vampiro de Dusseldorf” de Fritz Lang. “A Vila” de M. Night Shyamalan também traz questionamentos, em certa medida, similares sobre a questão do isolamento e da mitificação do outro, do diferente.

And the Oscar goes to….

Fevereiro 25, 2008

A ansiedade acabou!!! De forma geral, achei que os prêmios foram bem escolhidos. Os momentos mais impactantes do 80 Oscar para mim foram a estatueta de melhor atriz e ator coadjuvante dadas a dois europeus. A francesa Marion Cotillard muito emocionada recebeu a estatueta por sua impecável atuação de Edith Piaf. O fato de uma atriz estrangeira, interpréte em um filme não falado em inglês, vencer a categoria é algo raro. O longa acabou levando merecidamente maquiagem também. Já Javier Bardem fez um belo discurso, alguns trechos em espanhol, no palco de Los Angeles, lembrando que aquele Oscar premiava não só ele, mas a Espanha. Quem gostou de sua atuação em Onde os Fracos Não Têm Vez deve assistir Mar Adentro, na minha opinião, seu melhor papel.

Outro ponto alto da noite foi a ex-stripper, Diablo Cody, subir ao palco com seu vestido com estampa de onça para receber o prêmio de roteiro original por Juno. Realmente, a academia não se mostrou tão conservadora este ano.

Em comemoração aos 80 anos do Oscar, foram exibidas durante a cerimônia duas retrospectivas. Uma dedicada aos 79 filmes premiados pela academia, entre eles, um Estranho no Ninho, Perdidos na Noite, E o Vento Levou, Platoon, Uma Mente Brilhante e Titanic e outra aos 79 atores e atrizes que ganharam estatuetas. A primeira cerimônia aconteceu em 1928 e premiou Wings.

Como era de se esperar, Daniel Day Lewis levou seu segundo Oscar de melhor ator por Sangue Negro. Ele recebeu a estatueta em 1989 por Meu Pé Esquerdo, e foi indicado por Em Nome do Pai em 1994 e Gangues de Nova York em 2002. O longa em que ele interpreta um ambicioso prospector de petróleo foi premiado também com a estatueta de melhor fotografia.

A grande surpresa da noite foi o Oscar de coadjuvante que recebeu Tilda Swinton por Conduta de Risco, vencendo Cate Blanchet que era indicada em duas categorias, melhor atriz por Elizabeth: a Era de Ouro e coadjuvante por sua interpretação de Bob Dylan em Não Estou Lá.

Ratatouille foi considerada a melhor animação. Na minha opinião, Persépolis merecia a estatueta. Ao contar a história de Marjane Satrapi, diretora e roterista do filme, o longa faz um resumo da história recente do Irã. Tecnicamente o filme é admirável também, faz referências a Picasso e Munch. Ou seja, teria sido uma ótima opção para variar a premiação desta categoria que frequentemente congratula a parceria Disney-Pixar.

E o grande premiado da noite foi Onde os Fracos Não Têm Vez com quatro estatuetas: melhor filme, melhor diretor para os irmãos Coen, melhor ator coadjuvante e roteiro adaptado. Eu apostava em Sangue Negro, porque particularmente acho o premiado desinteressante, apesar de sua abordagem criativa.

Marion Cotillard recebendo o Oscar

Javier Bardem recebendo o Oscar

A lista completa dos premiados:

Melhor Filme

Onde os Fracos Não Têm Vez

Melhor Diretor

Ethan Coen e Joel Coen (Onde os Fracos Não Têm Vez)

Melhor Ator

Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)

Melhor Atriz

Marion Cottilard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Melhor Ator Coadjuvante

Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez)

Melhor Atriz Coadjuvante

Tilda Swinton (Conduta de Risco)

Melhor Filme Estrangeiro

The Counterfeiters (Áustria)

Melhor Figurino

Elizabeth – A Era de Ouro (Alexandra Byrne)

Melhor Animação

Ratatouille

Melhor Maquiagem

Piaf – Um Hino ao Amor (Didier Lavergne e Jan Archibald)

Melhor Fotografia

Sangue Negro (Robert Elswit)

Melhor Efeitos Especiais

A Bússola de Ouro ( Michael Fink, Bill Westenhofer, Ben Morris and Trevor Wood)

Melhor Direção de Arte

Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (Direção de Arte:Dante Ferretti; Decoração: Francesca Lo Schiavo)

Melhor Roteiro Adaptado

Joel & Ethan Cohen (Onde os Fracos Não Têm Vez)

Melhor Roteiro Original

Diablo Cody (Juno)

Melhor Edição de Som

O Ultimato Bourne (Karen Baker Landers e Per Hallberg)

Melhor Mixagem de Som

O Ultimato Bourne (Scott Millan, David Parker e Kirk Francis)

Melhor Montagem

O Ultimato Bourne (Christopher Rouse)

Melhor Canção

Falling Slowly (Once) – Glen Hansard e Marketa Irglova

Melhor Trilha Sonora

Dario Marianelli (Desejo e Reparação)

Melhor Documentário em Longa-Metragem

Taxi to the Dark Side, de Alex Gibney e Eva Orner

Melhor Documentário em Curta-Metragem

Freeheld, de Cynthia Wade e Vanessa Roth

Melhor Curta-Metragem

Le Mozart des Pickpockets, de Philipp Villard

Melhor Animação em Curta-Metragem

Pedro & O Lobo

Tropa de Elite é um assunto sem fim, ainda bem. Gerou uma discussão nos comentários do post abaixo que considero bem interessante, por isso escrevo este texto.

Em relação ao comentário do Roger, acho o seguinte.

O público gosta de se ver representado na tela, a identificação é um fator que faz com que a pessoa se interesse pela obra. E o cinema brasileiro da retomada (período inaugurado com Carlota Joaquina, de 1995 até agora), tem inúmeras produções ficcionais que abordam acontecimentos históricos ou aspectos da realidade do país, como Carandiru, Cidade de Deus, Central do Brasil, Batismo de Sangue, entre outros. Apesar de não existir uma proposta estética que una os diversos filmes da retomada, como existia no cinema novo, a temática os confere certa unidade.

Outro aspecto desta questão é que os diretores brasileiros sentem que tem o dever de refletir sobre o país, como afirmam alguns críticos brasileiros. Acredito que esse sentimento pode ser um legado do cinema novo, o movimento estético mais relevante na cinematografia nacional, extremamente comprometido com os problemas do país, que marcou os diretores que vieram depois. É um palpite…

***

Como prometi, andei acompanhando as repercussões sobre o Urso de Ouro, perguntei para alguns críticos e acho que estou convencida do motivo pelo qual ganhamos o prêmio. Presidente do júri do Festival de Berlim, o diretor grego Constantin Costa-Gavras, tem uma filmografia marcada por longas de denúncia social e grande apelo emocional – características do premiado Tropa de Elite. Além disso, o fato de ser um filme brasileiro confere a obra um certo exotismo, uma espécie de fascínio pelo outro, pelo diferente, pelo cinema feito em um país subdesenvolvido.

Obs. Adoro ler comentários no blog

Dá-lhe Tropa de Elite!!!

Fevereiro 17, 2008

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Estou boquiaberta!! Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro em Berlim. Parece um sonho. Depois de o filme ter dividido opiniões e ser comparado a Rambo em uma crítica do site da revista Variety, ele foi consagrado. Gostaria de saber mais sobre o que chamou a atenção dos críticos no longa. Vou ficar atenta às repercussões.

O cinema brasileiro foi premiado apenas três vezes nos principais festivais de cinema do mundo – Cannes, Veneza e Berlim. Em 1962, O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, levou a Palma de Ouro em Cannes, em 1998, Central do Brasil, de Walter Salles ganhou Urso de Ouro em Berlim e, depois de 10 anos, o longa de José Padilha leva o prêmio máximo de Berlim. O Brasil foi destaque em Berlinare com outras produções, além de Tropa de Elite. Mutum, de Sandra Kogut, recebeu menção especial do júri. Café com leite, de Daniel Ribeiro, foi melhor curta-metragem da Mostra Geração, que premia produções com crianças ou adolescentes protagonistas. E o curta-metragem Tá, de Felipe Sholl, recebeu o Teddy Award, dedicado a filmes com temáticas do universo gay.

Os outros prêmios principais do festival foram para Standard Operating Procedure, documentário norte americano que levou o Urso de Prata. Paul Thomas Anderson ganhou melhor diretor por Sangue Negro. Reza Naji foi considerado o melhor ator pelo iraniano The Song of Sparrows e Sally Hawkins, melhor atriz pelo filme britânico Happy-go-Lucky. E o longa chinês In Love We Trust ganhou de melhor roteiro.

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Berlim acabou, mas os cinéfilos já estão se preparando para as premiações de domingo que vem do Oscar. Procurei assistir a maioria dos indicados e tenho minhas apostas. Sangue Negro, na minha opinião, deve ser o grande premiado da noite, levando melhor filme, melhor diretor para Paul Thomas Anderson e melhor ator para Daniel Day Lewis, apesar de ter um forte concorrente em Onde os Fracos Não Têm Vez. Assisti ontem a Sangue Negro e depois preparo uma crítica à altura, mas adianto, o longa lembra, como já foi mencionado por outros críticos, Cidadão Kane e especialmente o final do filme me remeteu a uma cena de O Aviador em que o protagonista antes cheio de ambições, se encontra em decadência, isolado e cheio de manias. Acho que Javier Bardem merece a estatueta de ator coadjuvante por Onde os Fracos Não Têm Vez. Marion Cotillard deveria ser premiada por sua impressionante interpretação de Edith Piaf. Persépolis deve levar melhor animação e Elizabeth: A Era de Ouro figurino.

Bom, mas domingo que vem saberemos. Estou ansiosa.

A lista completa dos indicados ao Oscar:

Melhor ator

George Clooney (“Conduta de Risco”)
Daniel Day Lewis (“Sangue Negro”)
Tommy Lee Jones (“No Vale das Sombras”)
Viggo Mortensen (“Senhores do Crime”)
Johnny Depp (“Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”)

Melhor ator coadjuvante

Casey Affleck (“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”)
Javier Bardem (“Onde os Fracos Não Têm Vez”)
Philip Seymour Hoffman (“Jogos do Poder”)
Hal Holbrook (“Na Natureza Selvagem”)
Tom Wilkinson (“Conduta de Risco”)

Melhor atriz

Cate Blanchet ( “Elizabeth: A Era de Ouro”)
Julie Christie (“Longe Dela”)
Marion Cotillard (“Piaf – Um Hino ao Amor”)
Laura Linney (“The Savages”)
Ellen Page (“Juno”)

Melhor atriz coadjuvante

Cate Blanchett (“Não Estou Lá”)
Ruby Dee (“O Gângster”)
Saoirse Ronan (“Desejo e Reparação”)
Amy Ryan (“Gone Baby Gone”)
Tilda Swinton (“Conduta de Risco”)

Melhor filme

“Conduta de Risco”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”‘
“Sangue Negro”
“Desejo e Reparação”
“Juno”

Melhor filme de animação

“Ratatouille” (Brad Bird)
“Tá Dando Onda” (Ash Brannon and Chris Buck)
“Persépolis” (Marjane Satrapi and Vincent Paronnaud)

Melhor diretor

Tony Gilroy (“Conduta de Risco”)
Jason Reitman (“Juno”)
Julian Schnabel (“O Escafandro e a Borboleta”)
Paul Thomas Anderson (“Sangue Negro”)
Ethan e Joel Coen (“Onde os Fracos Não Têm Vez)

Melhor direção de arte

“O Gângster”
“Desejo e Reparação”
“A Bússola de Ouro”
“Sweeney Todd – o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”
“Sangue Negro”

Melhor fotografia

“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”
“Desejo e Reparação”
“O Escafandro e a Borboleta”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”

Melhor figurino

“Across the Universe”
“Desejo e Reparação”
“Elizabeth: A Era de Ouro”
“Piaf – um hino ao amor”
“Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”

Melhor documentário

“No End in Sight”
“Operation Homecoming: Writing the Wartime Experience”
“Sicko”
“Taxi to the Dark Side”
“War/dance”

Melhor documentário de curta-metragem

“Freeheld”
“La Corona”
“Salim Baba”
“Sari’s Mother”

Melhor edição

“O Ultimato Bourne”
“O Escafandro e a Borboleta”
“Na Natureza Selvagem”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”

Melhor filme estrangeiro

“The Counterfeiters” (Stefan Ruzowitzky – Áustria)
“Beaufort” (Joseph Cedar – Israel)
“Katyn” (Andrzej Wajda – Polônia)
“12″ (Nikita Mikhalkov – Rússia)
“Mongol” (Sergei Bodrov – Cazaquistão)

Melhor maquiagem

“Piaf – Um Hino ao Amor”
“Norbit”
“Piratas do Caribe – No Fim do Mundo”

Melhor trilha sonora original

“Desejo e Reparação” (Dario Marianeli)
“O Caçador de Pipas” (Alberto Iglesias)
“Conduta de Risco” (James Newton Howard)
“Ratatouille” (Michael Giacchino)
“3:10 to Yuma” (Marco Beltrami)

Melhor canção original

“Falling Slowly” (Glen Hansard e Marketa Irglova – “Once”)
“Happy Working Song” (Alen Menken e Stephen Schwartz – “Encantada”)
“Raise It Up” (Autor a ser determinado – “August Rush”)
“So Close” (Alan Menken e Stephen Schwartz – “Encantada”)
“That’s How You Know” (Alan Menken e Stephen Schwartz – “Encantada”)

Melhor curta-metragem

“At Night”
“Il Supplente”
“Le Mozart des Pickpockets”
“Tanghi Argentini”
“The Tonto Woman”

Melhor animação de curta-metragem

“I Met the Walrus”
“Madame Tutli-Putli”
“Meme Lês Pigeons Vont au Paradis”
“My Love”
“Peter and the Wolf”

Melhor edição de som

“O Ultimato Bourne”
“Ratatouille”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Sangue Negro”
“Transformers”

Melhor mixagem de som

“O Ultimato Bourne”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Ratatouille”
“3:10 to Yuma”
“Transformers”

Melhor efeito especial

“A Bússola de Ouro”
“Piratas do Caribe – No Fim do Mundo”
“Transformers”

Melhor roteiro adaptado

“O Escafandro e a Borboleta”
“Onde os Fracos Não Têm Vez”
“Desejo e Reparação”
“Longe Dela”
“Sangue Negro”

Melhor roteiro original

“Juno”
“Lars and the Real Girl”
“Conduta de Risco*
“Ratatouille”
“The Savages”

Paranoid Park

Fevereiro 10, 2008

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Para os que estão dispostos a mergulhar nas imagens e no ritmo propostos por Gus Van Sant, o longa se transforma em uma viagem guiada pelos fluxos de consciência do protagonista, Alex, que acidentalmente provoca a morte de um guarda nos arredores de Paranoid Park, temida arena de skate em Portland. As cenas apresentadas aleatoriamente vão ganhando sentido na medida em que o espectador recebe mais informações sobre o que aconteceu com o jovem skatista. A seqüência do banho reflete bem isto. A primeira vez que ela é apresentada acredita-se ver um jovem cansado tomando banho. Já na segunda, com mais cortes, closes e enquadramentos inusitados compreendemos a confusão mental de um adolescente que acaba de cometer um assassinato – a imagem grita. Esta mudança de sentido é fruto da montagem. O rosto do adolescente ganha também, cada vez mais significado ao decorrer do filme.

Alex é um adolescente solitário, tem poucos amigos e seus pais aparecem como figuras muito pouco expressivas, tanto que não se vê o rosto da mãe em momento algum. O que também denuncia de certa forma a perda de poder dos pais na sociedade contemporânea.

Com planos longos e lentos, privilegiando o tempo, o diretor nos convida a contemplar e refletir sobre as imagens. As seqüências mais emblemáticas de Paranoid Park são a dos skatistas, feitas em super-8. A câmera mergulha naquele universo, não só registra seus movimentos de longe. O resultado disso é uma bela e hipnótica coreografia em slow motion de vários skatistas, um a um, repetindo a mesma manobra no ar, até que um cai. Com esta cena, o diretor resume o roteiro. Seguindo a linha de Elefante, Van Sant continua explorando o tema da violência adolescente e tentando esboçar algumas hipóteses para sua existência.

É estimulante ver como o diretor manipula as técnicas cinematográficas a favor da narração. O cinema que se propõe apenas a contar uma história, privilegiando o roteiro à estética, à forma, desperdiça recursos e menospreza a rica linguagem audiovisual.

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Em Paris fala de carências, de faltas, de sofrimento. Em uma cena muito delicada, Paul (Romain Duris) conta para uma das namoradas de seu irmão, Jonathan (Louis Garrel de Os Sonhadores), do suicídio da irmã. Ele tenta explicar a tristeza que a acompanhava até sua morte aos 17 anos. Algo como um mal estar inerente ao fato de estar vivo. A dor faz parte da vida de Paul também, que acaba de se mudar para a casa do pai após se separar de sua mulher, Anna (Joana Preiss).

O longa retrata um dia na vida dessa família. Enquanto Paul passa a maior parte do seu depressivo dia na cama, Jonathan, numa espécie de tentativa desesperada de suprir suas carências, se relaciona com uma mulher após a outra. Já o pai, meio sem saber como agir, tenta, à sua maneira, se relacionar com os filhos.

É nas relações familiares que se ancora o longa de Christophe Honoré. Em Paris, presta uma homenagem à nouvelle vague (nova onda), movimento cinematográfico dos anos 60, na França que tem como principais nomes Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Claude Chabrol, entre outros jovens críticos e diretores da época que acreditavam no cinema autoral em oposição a um padrão cinematográfico até então vigente, a chamada “qualidade francesa”. Formados nos cineclubes, estes novos diretores tentavam, cada um de uma forma, encontrar a verdade das coisas, deixar que a vida se revelasse na película. Procurava-se resgatar uma naturalidade da filmagem.

É o que Christophe Honoré tenta fazer neste longa. E, assim como na vida, os conflitos dos protagonistas não se resolvem num passe de mágica.