Che Guevara embrulhado para presente
Março 27, 2009
Soderbergh vende versão capitalista do revolucionário em filme sem alma
Transpor uma personalidade como Ernesto Guevara de la Serna para o cinema não é tarefa fácil. O revolucionário, que se transformou em mito, está presente no imaginário coletivo, seja como herói ou assassino. Portanto, independente da posição ideológica que o norte-americano Steven Soderbergh tomasse para conduzir a narrativa, iria dividir a opinião do público. O diretor de blockbusters, como Traffic e a franquia Onze homens e um segredo, diante desse impasse, optou por repaginar “Che”, suavizando sua postura e ideologia.
O capitalismo foi hábil em ressignificar o guerrilheiro, transformando sua imagem em objeto de consumo. Soderbergh apenas adere a esse movimento tornando “Che” Guevara uma figura palatável para o grande público. Benício Del Toro interpreta, portanto, um comandante ético, intelectual e eficiente no cumprimento de suas funções revolucionárias, seja no front ou cuidando de feridos. Um herói que precisa ir contra adversidades, como sua asma ou guerrilheiros traidores.
Che, que compõe o díptico com Che – A Guerrilha (a ser lançado em maio), acompanha a trajetória de Fidel, Raul Castro, do próprio “Che” Guevara e outros guerrilheiros rumo à libertação de Cuba da ditadura de Fulgêncio Batista, apoiada pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Como qualquer filme de guerra hollywoodiano, este enfatiza as cenas de ação, ressaltando as estratégias, hierarquia e regras próprias do combate, o treinamento de novos recrutas, a assistência aos feridos, entre outros aspectos do cotidiano da batalha.
Porém, como a guerrilha em questão tinha a particularidade de estar amparada na ideologia socialista, o diretor insere algumas falas em off do médico argentino discursando contra o imperialismo, a opressão e o capitalismo e a favor da liberdade dos povos da América Latina. Afinal, é necessário colocar uma pitada de cor local nas cenas de ação e dar pequenos momentos de alegria aos que têm apreço pelo socialismo.
Um dos poucos acertos do filme está na fotografia. As imagens da guerrilha na floresta, de um verde marcante, são intercaladas com cenas em preto e branco, da ida do protagonista às terras yankees para divulgar os ideais da revolução. Estabelece-se então, um contraste interessante entre o “Che” em combate, vivo, e o burocrata, sem cor.
Diários de Motocicleta, o longa protagonizado por Gael García Bernal e dirigido pelo brasileiro Walter Salles, apesar de ser um road movie, privilegia a reflexão do jovem argentino na viagem pela América Latina. As tomadas mais longas e um profundo respeito e admiração na forma de construir o personagem compõem um retrato tocante e poético de um período decisivo na formação intelectual do então estudante de medicina.
O filme de Walter Salles é admirável, pois ele tem consciência que a história do revolucionário não cabe na fórmula do cinema comercial norte-americano. Era necessário um diretor com mais talento e personalidade para levar às telas a aventura de 86 jovens que, “movidos por grande sentimento de amor à humanidade, justiça e verdade”, segundo o protagonista, transformaram Cuba no primeiro país socialista da América. Afinal, assim como na guerrilha, não é possível fazer cinema sem paixão.
Publicada no Guia da Semana
Vencedor do Oscar pasteuriza cultura indiana
Março 13, 2009

Desculpem-me os entusiastas de Quem Quer Ser Um Milionário?, mas esta crítica não é elogiosa. O filme, como se sabe, ganhou sete prêmios Bafta, quatro Globos de Ouro e oito Oscar, colocando-se como a produção de maior destaque no cinema comercial deste ano. Primeiro, é bom enfatizar que o Oscar e o Globo de Ouro são premiações voltadas para a indústria cinematográfica norte-americana, mas, devido à força imperialista deste cinema, os filmes vencedores são valorizados e largamente consumidos mundialmente. A história do cinema comprova também que entre a lista de vencedores do Oscar não necessariamente estão os filmes mais relevantes daquele ano, como Cidadão Kane, por exemplo, que recebeu apenas o prêmio de melhor roteiro adaptado, em 1942.
Apesar de Quem Quer Ser Um Milionário? ser baseado no livro Sua Resposta Vale um Bilhão do indiano Vikas Swarup, realizado com atores amadores indianos (o protagonista é inglês) e filmado em Mumbai, trata-se de uma produção inglesa. Portanto, o longa reflete uma visão estrangeira sobre a Índia. O país, onde 455 milhões de habitantes sobrevivem com menos de 1,25 dólar por dia, foi colônia britânica até, pasmem, 1947. Portanto, como um cineasta pode filmar a pobreza de uma nação da forma estetizada como fez, sabendo que seu país foi responsável por isso? É muito cruel.
O inglês Danny Boyle parece incoerente quando afirma detestar Cidade de Deus e as comparações feitas entre seu filme e o brasileiro. Em entrevista, César Charlone, diretor de fotografia do longa sobre o bairro carioca, diz que seu amigo e fotógrafo da produção inglesa, Anthony Dod Mantle, gosta muito de Cidade de Deus. Não há como negar que a câmera na mão, os enquadramentos e as cores saturadas que adquirem a favela de Mumbai não são influencias do filme de Fernando Meirelles. Tanto que, uma das críticas que o filme tem recebido na Índia, o de fazer “pornografia da miséria”, é outra versão da polêmica da cosmética da fome, levantada na época do lançamento de Cidade de Deus.
Há outros aspectos que aproximam as produções. O desfecho da trajetória do favelado Jamal Malik é o mesmo de Buscapé: a ascensão social justificada pelo caráter. De acordo com a lógica do filme, o correto e sofrido Jamal sabe as respostas por força do destino, assim como Buscapé consegue o trabalho no jornal por não ter se corrompido com o tráfico e a criminalidade. Os longas apresentam soluções individuais para o problema estrutural da desigualdade social nos subdesenvolvidos, Índia e Brasil.
Já que a vida na Índia parece despertar a atenção da Academia, por que não premiar uma produção local? Claro que não, afinal não é interessante correr o risco de disputar mercado com Bollywood, a indústria que produz mais filmes no mundo. Premia-se então o conto de fadas pós-moderno de Boyle que atrai pela forma exótica e palatável que o país é retratado, cumprindo as expectativas do público ocidental e ignorando a cultura indiana.
Se quiser saber mais sobre a Índia e sua produção cinematográfica, em vez de assistir Quem Quer Ser Um Milionário? (ou a novela Caminhos das Índias), confira um dos ótimos longas indianos em cartaz na mostra Bollywood e o Cinema Indiano na Cinemateca Brasileira, de 17 a 29 de março.
Publicada no Guia da Semana
O poder dos encontros
Fevereiro 11, 2009

No longa de Stephen Daldry, as vidas do jovem de 15 anos, Michael Berg (David Kross), e da mulher madura, Hanna Schmitz (a magnífica Kate Winslet), se cruzam em um dia chuvoso em que ele passa mal na rua. Ela o ajuda a ir para casa e ele descobre, posteriormente, que está com escarlatina. Depois de se recuperar, o garoto procura Hanna em sua casa para agradecer o gesto. Pelo vão da porta, ele a observa trocar de roupa, mas logo sai correndo, ao notar que ela o viu. Com um misto de excitação e medo, Michael retorna a casa e eles iniciam um intenso relacionamento, que vai durar a vida toda, adquirindo diferentes formas.
As visitas diárias de Michael à casa de Hanna seguem um ritual. Ele lê para ela, eles tomam banho (em algumas cenas ela lava-o com uma postura maternal, o que é muito tocante e diz sobre o tipo de relação ali estabelecida) e, finalmente, fazem sexo. Nos encontros, inocência, pureza e juventude contrastam com dureza e maturidade. É com grande entusiasmo que Michael deixa a companhia dos amigos para se encontrar com ela, diariamente, durante um belo verão, até o dia em que a mulher se muda, sem dar explicações.
Michael vai para a faculdade de direito, anos depois, e, em um julgamento de crimes nazistas, reencontra sua antiga amante no banco dos réus. Ela é condenada à prisão perpétua, por preferir não revelar um segredo humilhante (em sua visão), mas que reduziria a pena. O garoto também não interfere no julgamento, mesmo sabendo o que Hanna escondia. Atormentado pela culpa, a vida afetiva do advogado, interpretado na fase adulta por Ralph Fiennes, nunca será feliz. Ele tem uma filha, que mal vê e um casamento que não deu certo. É um solitário.
Certo dia na prisão, Hanna, já bem velha, recebe uma caixa cheia de fitas cassete com livros gravados por Michael. Esses objetos devolvem a vida à prisioneira, que passa a decorar a cela e se arrumar. A partir das gravações, um milagre acontece: Hanna pega livros na biblioteca e aprende a ler sozinha. Por meio da literatura, a personagem tem sua sensibilidade recuperada e, por isso, se dá conta da gravidade dos atos que cometeu. Os livros e a indiferença de Michael no encontro na prisão tornam-se pilares da última e decisiva ação desta mulher.
A adaptação do romance homônimo de Bernhard Schlink permite que o espectador testemunhe um tipo de relação que não se encontra nos individualistas dias de hoje. Acompanhamos na tela a extraordinária interferência que uma pessoa pode exercer na vida de outra, a ponto de mudar o curso de tudo o que se segue. É como se o encontro destas almas simbolizasse um marco e os acontecimentos fossem analisados tendo em vista o período anterior àquela relação e posterior.
Michael canalizou sua culpa de não ter ajudado Hanna no julgamento por meio das fitas. O ato é tão sensível e mágico em um mundo em que as pessoas resolvem seus dilemas no divã de um psicólogo e simplesmente seguem suas vidas ignorando o efeito que tiveram sobre outro ser. Por isso, O Leitor parece deslocado de seu tempo, e é bom que seja, para servir de alerta sobre a descartabilidade e utilitarismo que regem as relações atuais.
Implosão do american way of life
Fevereiro 5, 2009

Sam Mendes, assim como David Fincher com O Curioso Caso de Benjamin Button, nos faz acreditar que ainda há vida inteligente em Hollywood. No drama Foi Apenas um Sonho, Leonardo DiCaprio e Kate Winslet interpretam Frank e April Wheeler, casal dos anos 50 tido como modelo para vizinhança de Connecticut, nos Estados Unidos. April é dona de casa e cuida dos dois filhos, enquanto Frank trabalha na mesma empresa onde seu pai foi funcionário durante anos. Apesar de terem uma vida confortável, uma bela casa, um carro, lindos filhos e amigos, os Wheeler se sentem frustrados por não terem realizado os sonhos da juventude e sufocados pela vida monótona. Com o relacionamento em crise, April propõe ao marido que se mudem para Paris.
Assim como em Beleza Americana, primeiro longa do diretor, Foi Apenas um Sonho é uma grande crítica ao american way of life, ao padrão de vida vazio e hipócrita da burguesia americana. A loucura de John, filho de uma das vizinhas do casal, revela muito do caráter desta sociedade. Ele vive internado em um hospício, mas paradoxalmente é o que analisa com mais clareza a situação do casal. O personagem rendeu uma indicação ao Oscar para Michael Shannon.
No decorrer do longa, a postura de Frank revela como a segurança e prestígio sociais falam mais alto e os sonhos acabam ficando para trás. A loucura de John, a transformação de Frank e o trágico destino de April deixam claro: não há escapatória naquela sociedade.
A adaptação do romance de Richard Yates impressiona pela atuação da dupla, que acabou rendendo o Globo de Ouro de melhor atriz para Kate Winslet, mulher do diretor. Sua interpretação faz por merecer, principalmente na seqüência, já perto do final do longa, em que ela prepara o café da manhã para o marido. Há uma clara tentativa em se passar por esposa exemplar, mas seu sorriso de aparente felicidade traz toda a revolta da personagem.
Tempo, morte, paixão e envelhecimento
Janeiro 21, 2009

Desde maio, não escrevo neste blog. É que como estudante do último ano de jornalismo na PUC, precisava me dedicar ao TCC. O resultado pode ser conferido em http://cinecaleidoscopio.com.br, site realizado com o objetivo de refletir sobre o cinema nacional contemporâneo. Como aprendi. Nossa, foi uma experiência maravilhosa. Falar com os críticos. Ver os filmes, muitos e muitos filmes. Pensar, pensar, escrever, pensar. Foi uma grande realização.
Bom, mas claro que, fora o TCC, continuei a ver muitos filmes. E o longa que inicia essa retomada do blog A Cinéfila é “O Curioso Caso de Benjamin Button”. É bem difícil escrever um texto sobre esse filme sem usar superlativos. Desde quando vi o trailer e li a sinopse do longa, sabia que ele tinha algo de especial. Estava bastante ansiosa para assisti-lo, pois tenho muito interesse sobre o tema do envelhecimento, da morte, de como as coisas mudam com o tempo, ou melhor, como nossa visão sobre as coisas muda radicalmente com o tempo.
Inspirado em um conto de F. Scott Fitzgerald e dirigido por David Fincher, o filme retrata a trajetória de Benjamin Button, menino que nasce com a aparência de um velho e vai rejuvenescendo conforme a passagem do tempo. O pai rejeita a criança e abandona-a na porta de um asilo, que passa a ser seu lar. Lá ele convive de perto com a morte, que leva, de tempos em tempos, várias das pessoas que habitam o lugar.
É triste notar como ele é sozinho a vida toda. Quando criança, não consegue brincar com outras pelo fato de estar aprisionado em um corpo de um senhor cerca de 80 anos, com artrite e sem poder andar. Porém, mesmo depois de ir remoçando, sua distância das pessoas continua enorme. O convívio com os idosos no asilo e sua vida nada convencional fazem com que ele adquira maturidade muito cedo. Isso se torna muito evidente em sua relação com a bela Daisy, uma bailarina no auge da carreira que esbanja autoconfiança e uma certa petulância juvenil, interpretada por uma irretocável Cate Blanchett.
Um acontecimento muda a dinâmica da relação entre eles. Por sinal, a seqüência é ótima e quebra o ritmo do longa até o momento. O fato acaba por aproximar Button e Daisy. Porém, há uma melancolia inerente àquela felicidade, pois sabe-se quão frágil e fulgaz ela é. Mas, não estaria este sentimento no centro de toda paixão? Talvez seja isso que mais emocione na história de Benjamin. Ele fala sobre temas que nos acompanham durante a vida. A cena em que o casal se vê refletido no espelho da escola de dança é de uma força. Ela resume o desejo de todo o apaixonado. Conseguir reter no tempo um instante de plena felicidade. Neste momento, Benjamin fala para Daisy ficar parada, pois ele gostaria guardar aquela imagem na memória. Arrepiante.
É interessante que o diretor passa longe das idealizações platônicas do amor e coloca o relacionamento afetivo em um plano muito realista. Para um casal se apaixonar e ficar junto é necessário que os objetivos sejam comuns, mas também que outros elementos conspirem a favor, como o acaso.
Brad Pitt merece nossa atenção neste filme. Ele surge na tela, na fase jovem do personagem, como uma figura sublime, etérea. Em algumas das cenas, tive a impressão de estar vendo James Jean, não por sua proposital aparência física e figurino, mas por sua interpretação. Ele tem lugar garantido entre os grandes ícones do cinema norte-americano, na minha opinião. Benjamin me lembrou Joe Black de “Encontro Marcado”, em que Brad Pitt interpretava a morte, talvez pela inadequação de ambos os personagens.
Outro elemento notável no filme é a relação que se estabelece entre a natureza e a vida dos protagonistas. Benjamin trabalha em um barco, portanto seu caminho é determinado pela natureza. Daisy, já no final de sua vida, está internada em um hospital em Nova Orleans, ameaçado pelo furacão Katrina, que acaba por destruir parte da cidade. Ou seja, por mais que os homens queiram acreditar que têm controle sobre suas vidas, a natureza é mais forte e determina o rumo dos acontecimentos. Isso dá uma dimensão muito trágica à trajetória de Benjamin.
Que bom que, de vez em quando, surjam produções como essa em Hollywood.