Manifesto ao cinema-espetáculo

fevereiro 12, 2012

The Artist, Michel Hazanavicius

Hugo e O Artista apontam caminhos para a crise de Hollywood

A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, e O Artista, do francês Michel Hazanavicius, são filmes sintomáticos. Respondem, cada um a sua maneira, a um estado de coisas. A revolução do digital, que barateou e popularizou a realização cinematográfica, e a pirataria, que ameaça o modelo de negócios de Hollywood, são as bases deste contexto. Como estratégia de contra-ataque, os grandes estúdios investem pesado em tecnologia, aprimorando a técnica de motion capture e o uso do 3D, como em Avatar e Tintim, de forma a oferecer uma experiência cinematográfica impossível de se reproduzir em casa. Este avanço tecnológico tem impacto sobre os atores, que, ingenuamente, temem ser substituídos pela computação gráfica.

O Artista reage a esta crise buscando nostalgicamente o cinema mudo, a era de ouro de Hollywood e o cinema espetáculo. Em preto e branco, mudo e com inteligente uso do som, a obra faz referências a Charles Chaplin, Gene Kelly, Rodolfo Valentino, entre outros astros do período. O filme é uma grande homenagem ao ator. Não à toa, boa parte de seu encanto está no carisma e excelente performance de Jean Dujardin e Berenice Bejo. Mas isso não é tudo. Por meio do retrato de outra difícil transição do cinema, do mudo para o falado, a produção tece comentário sobre os dilemas atuais. O longa postula que a chave para o futuro está na criação de um novo modelo baseado na união do velho paradigma ao novo.

Scorsese também reverencia o cinema espetáculo, mas com uma linguagem oposta, usando o 3D e a computação gráfica. Assim como Caverna dos Sonhos Esquecidos, de Werner Herzog, e Pina, de Wim Wenders, Hugo é um exemplar da recente incursão do cinema de arte no 3D. Os três filmes nos dão uma amostra dos potenciais desta tecnologia nas mãos de bons cineastas, especialmente a possibilidade de expansão de técnicas cinematográficas, esta sim, uma verdadeira revolução que está por vir.

Leitmotiv de Hugo, as engrenagens – da moviola, dos relógios e do trem – chamam atenção para o fato de que o cinema é tecnologia. E que os efeitos especiais surgiram já no início desta arte, com Georges Méliès, ao qual o filme presta bela homenagem. Neste contexto, o 3D e a computação gráfica nada mais são do que o avanço da truncagem, que Méliès explorava como possibilidade mágica do cinema. Seria caríssimo, senão impossível, recriar em estúdio a Paris dos anos 30, por isso o diretor usa uma “mágica”, a computação gráfica, para reviver a cidade. Pode-se interpretar no autômato de Hugo uma metáfora para a substituição dos atores por versões digitais. A chave em formato de coração que o coloca em funcionamento simbolizaria a emoção que o ator traz aos personagens, tornando-o insubstituível por versões digitais.

Ao optar em fazer um filme infantil, o diretor norte-americano não pretende atingir só as crianças, mas tocar os adultos pela emoção, como quando ficamos apreensivos ao ver Buster Keaton pendurado do lado de fora de um prédio ou maravilhados com o universo fantástico de Star Wars. Afinal, ao fazer esta ode ao cinema-sonho, Scorsese também está reverenciando os diretores de sua geração que definiram o conceito de blockbuster, Steven Spielberg e George Lucas.

A mensagem que Hugo e O Artista deixam é que a chave para a crise do cinema Hollywoodiano está nas suas origens, no fascínio que a imagem exerce sobre nós e nas boas histórias encenadas por atores talentosos. O fato da amiga de Hugo, Isabelle, descobrir sua vocação como narradora enfatiza isso. Ambos os filmes defendem que o caminho a seguir é o clássico aliado à tecnologia como forma de resgate do cinema como fábrica de sonhos.

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O Mal-Estar no Capitalismo

outubro 19, 2011

Nenhum filme brasileiro pós-retomada abordou a desumanização do homem pelo trabalho como Trabalhar Cansa, que marca a estreia de Marco Dutra e Juliana Rojas no longa-metragem. Por meio da história de uma família paulistana de classe média, em que a mulher ascende de dona de casa à pequena burguesa e o marido passa de executivo bem-sucedido a desempregado, o filme mostra que é preciso abandonar os valores e a ética para sobreviver ao mercado de trabalho, expressão usada pelo palestrante na sequência final.

A personagem de Helena, interpretada pela espantosa Helena Albergaria, estipula suas próprias regras na contratação da nova empregada, não seguindo a CLT, e incorpora o papel de proprietária no mini-mercado que abre, vasculhando a bolsa da caixa e desconfiando da honestidade do funcionário. Já Otávio, na difícil tarefa de conseguir um emprego depois dos 40 anos, passa por humilhantes dinâmicas e palestras motivacionais, nas quais se depara com a ideologia da sobrevivência na selva, que mascara o exército de reserva inerente ao sistema capitalista, e do networking, que encontra terreno fértil no Brasil, onde as relações afetivas historicamente prevalecem sobre o mérito.

Para traduzir esteticamente a disfunção das relações de trabalho, o longa insere elementos do cinema fantástico e do terror no realismo social. Helena tenta esconder e remover todos os indícios que revelam a podridão do sistema, como o cachorro raivoso que aparece na frente do mercado, o líquido viscoso preto que surge do piso, a infiltração na parede e, no clímax do horror, o monstro que está detrás dela. Há um esforço da personagem em afastar a filha, símbolo da nova geração, desta realidade. Ela pede que o marido não conte a respeito do monstro para Vanessa e, quando a menina está brincando com as notas no caixa, a mãe diz pra ela não tocar naquilo, pois “dinheiro é sujo”.

A mistura de gêneros também se reflete nas interpretações. O clima soturno gerado pela calma perturbadora de Helena, tom também adotado por Marina Flores no papel da filha, se opõe às interpretações realistas, do apático Otávio e das energéticas, e um tanto cômicas, personagens da sogra e da corretora. A edição de som, principalmente na cena que Helena está quebrando a parede para descobrir o que está causando a infiltração, e a montagem precisa com cortes secos também contribuem para o suspense.

Os animais são leitmotiv do filme. Há o pintinho no ovo, as baratas, o morcego da história da irmã de Otávio, o museu de bichos empalhados, com o bezerro de duas cabeças, o monstro e o cachorro raivoso. Com exceção do cachorro, todos os outros animais estão mortos. O filme comporta a leitura de que a notória contenção da agressividade de Otávio, sua pulsão de vida, portanto, tem como analogia os animais inertes. Os diversos índices orgânicos – o sangue no pano de prato, as peças de carne do mercado, os vermes misturados com cabelo que obstruem o encanamento – relacionados ao aprisionamento dos animais, servem como metáfora da repressão do instinto humano.

A sofisticação da crítica ao trabalho no longa encontra-se na indicação de que a adequação necessária para se encaixar nas engrenagens capitalistas atuais é uma repressão ainda maior do que aquela exigida para a vida em sociedade, como Freud desenvolve em O Mal-Estar na Civilização. Em um misto de perplexidade e desespero, o grito final de Otávio é um pedido de libertação.

Lars Von Trier
Filme discute o existencialismo por meio do drama de personagens perante o fim iminente da Terra 

Assim como em Anticristo, Lars Von Trier inicia Melancolia com um prólogo grandiloquente com estética composta por tableaux vivants em câmera lentíssima. O espetáculo visual antecipa os eixos da trama. As imagens do universo e de Justine vestida de noiva tentando ir contra as forças da natureza que a impedem de andar, já indicam que a Terra vai ser engolida pelo planeta Melancolia e que a depressão da personagem interpretada por Kirsten Dunst vai arruinar seu casamento antes mesmo dele se concretizar.

Se em Anticristo o embate se dava entre a mulher, que representava a natureza, e o homem, um psicanalista, que encarnava a ciência. Neste filme, John (Kiefer Sutherland) representa a potencialidade do ser humano, Claire (Charlotte Gainsbourg) seria a crença nos valores sociais e Justine a niilista.

Após o prólogo, o filme é dividido em duas partes que levam o nome das irmãs Justine e Claire. A primeira parte, que mostra o casamento de Justine, é claramente inspirada em Festa de Família, de Thomas Vinterberg. Os planos de Claire em proporcionar uma cerimônia grandiosa para a irmã são paulatinamente destruídos por inúmeros acontecimentos incômodos. A pompa de chegar com uma limusine enorme na casa de campo faz com que o carro não passe pela estradinha de terra atrasando muito a chegada dos noivos na festa. A mãe da noiva, que representa a afetividade, faz um discurso pessimista em relação à felicidade matrimonial. A crítica a falta de limites do trabalho na vida pessoal é materializada pelo chefe de Justine que força a noiva a criar o slogan de uma campanha durante a festa. Outro agravante é o desinteresse da noiva em participar de rituais importantes da festa. Além de criticar os valores burgueses, assim como no filme do Dogma 95, esta primeira parte mostra o progressivo agravamento do quadro depressivo de Justine.

Depois do fiasco do casamento, o filme centra-se na rotina de Justine, Claire, seu marido e filho. A opção em retratar uma família rica visa tirar o foco das preocupações materiais imediatas, para se deter nos questionamentos existencialistas. À medida que o planeta Melancolia se aproxima da Terra, Justine vai melhorando seu humor e Claire começa a se desesperar com a possibilidade do choque, que seu marido garante que não vai ocorrer. Na verdade, John sabe que a colisão é inevitável, mas se apega à ilusão de que o planeta pode desviar.

Quando os personagens se dão conta de que o fim da Terra está próximo, John se mata, o que pode ser interpretado como a impotência humana frente à dinâmica do universo. A origem da angústia de Claire, saber que o filho não terá um lugar para crescer, é colocada pelo viés do instinto materno que, em última instância, é o desejo de preservação da humanidade. Nos últimos momentos, ela se apega aos rituais sociais, propondo a Justine que tomem vinho e ouçam uma sinfonia de Beethoven, o que é rechaçado ironicamente pela irmã.

Como niilista, Justine vê os seres humanos como um dos inúmeros elementos que compõem o universo – apresentando inclusive uma posição misantropa em certo momento. A melancolia, que dá nome ao planeta e afeta o humor de Justine, é gerada pela constatação de que a vida não tem sentido, nem é o objetivo da existência do universo, além de ser desprezível em relação às determinações do cosmo. A partir do momento em que ela se enxerga parte de uma natureza maior, que engloba todo o universo, passa a encarar o fim de forma serena. A reação dela pode ser comparada a dos cavalos da casa de campo que se agitam ao perceberem que algo está em desequilíbrio para depois se tranquilizarem. Este processo de aceitação da finitude, pelo qual passa Justine, é semelhante ao vivido pelas personagens de O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, que dançam rumo à morte, na última sequência do filme.

A religião está presente na obra de Lars Von Trier desde a estrutura do Dogma 95, manifesto cinematográfico criado por ele e Thomas Vinterberg. Em Ondas do Destino, ele criticou a religião como instituição e admitiu a existência de milagres pela fé. Em Anticristo, mostrou seus efeitos psicológicos e sociais, com foco em seu papel na repressão da mulher. Já em Melancolia, o diretor abandona a religião, adotando uma postura claramente ateísta.

Na mise en scene, a dimensão do planeta em colisão revela a pequenez das personagens e, por conseqüência, da humanidade. Na corajosa cena final, em que a família é incinerada sem redenção, restando apenas o silêncio e a escuridão, Lars enfrenta o antropocentrismo e coloca o homem em seu lugar.

Embaixadora da diversão

agosto 14, 2011

sala bradesco prime

No período de junho e julho, visitei e critiquei as melhores salas de cinema de São Paulo para o site do Divirta-se, do Guia do Estado. Abaixo, as minhas avaliações:

Kinoplex Itaim – sala 6

Este cinema é um dos melhores da cidade para quem procura conforto e blockbusters, com salas grandes e bem conservadas, poltronas espaçosas e som impecável, destaque para a sala 6 com padrão THX. O espaço ao ar livre em frente ao complexo e o saguão com sofás conferem charme a este cinema de rua elitizado. Para comer, há diversas opções de restaurantes e lanchonetes. Já a bomboniere não reserva grandes surpresas, apostando nos clássicos pipoca, refrigerante e guloseimas. O alto valor do ingresso e a programação previsível são os pontos negativos. Nota: 4,5 (0 a 5).

Reserva Cultural – sala 2

Com o fechamento do Belas Artes, os apreciadores do cinema de arte ficaram com menos opções na capital. Uma delas é o Reserva Cultural, com programação que privilegia o cinema europeu e títulos autorais. Para não atrapalhar a fruição cinematográfica, o local não vende pipoca, mas opções para comer não faltam, tanto na bomboniere, com deliciosos croissant e éclairs, quanto no bistrô, com bela vista para a Av. Paulista. Entre os problemas, o ingresso caro e algumas salas mal projetadas, com o corredor de entrada ocupando o lugar do que seriam os melhores assentos. Nota: 4,5 (0 a 5).

Kinoplex Vila Olímpia – salas Platinum

Entre os diferenciais das luxuosas salas Platinum Kinoplex estão poltronas espaçosas e reclináveis que lembram às da primeira classe dos aviões e bomboniere exclusiva, que serve vinhos, pipocas aromatizadas com azeites especiais e outros petiscos selecionados. É recomendável comprar ingressos pela internet ou chegar com bastante antecedência para conseguir um dos 98 disputados lugares. Evite as três primeiras fileiras, pois a proximidade da tela prejudica a visão do filme. A programação privilegia os blockbusters, mas ocasionalmente reserva espaço para um título mais autoral.

Estas salas, assim como as Bradesco Prime do Cidade Jardim e a Imax do Espaço Unibanco Bourbon, atendem um público de alto poder aquisitivo disposto a pagar caro em troca de exclusividade e muito conforto. Como a tecnologia 3D, elas proporcionam uma experiência difícil de ser reproduzida em casa e são uma resposta à queda de bilheteria decorrentes da pirataria, internet e popularização das televisões de plasma, LCD e aparelhos Blu-Ray. Nota: 5 (0 a 5).

Bourbon Pompéia Imax

Da rede Espaço Unibanco, este cinema mescla características de cinema de rua e multiplex. Apresenta programação variada com blockbusters e produções mais artísticas exibidas em salas de diferentes perfis, desde a pequena e aconchegante sala 10, com poltronas maiores e confortáveis, até a IMAX, a melhor da capital, com som impecável, tela de 13m de altura e 21m de largura, em formato ligeiramente côncavo, que propicia total imersão no filme. Há bilheteria exclusiva para esta concorrida sala, compre os ingressos pela internet ou chegue com bastante antecedência para garantir seu lugar. Para comer, duas bombonieres, uma charmosa cafeteria e o restaurante Intervalo Forneria. Um dos pontos altos deste cinema são os preços justos. Nota: 5 (0 a 5).

Cinemark Cidade Jardim

Similar às salas Platinum do Vila Olímpia Kinoplex, as Bradesco Prime também são bastante concorridas, têm poltronas espaçosas e reclináveis, sala de espera e bomboniere exclusiva, com opções refinadas como petit gateau, brusqueta e vinhos. O diferencial é que as salas do Cidade Jardim reservam espaço muito maior entre a tela e a primeira fileira, o que diminui o desconforto de quem assiste ao filme neste local. Entre os inconvenientes está o preço do ingresso, o mais caro da cidade e a falta de exibições em 3D. O conforto de ter sua pipoca entregue na sala tem como contrapartida o incômodo vai-e-vem das garçonetes, mesmo após o início do filme. A programação previsível segue a linha dos outros cinemas da rede Cinemark. Nota: 5 (0 a 5).

A Voz dos Excluídos

junho 30, 2010

Longa discute configuração de forças política e social na França por meio da transformação de um jovem de origem árabe em mafioso 

Assistir à primeira e a última sequência de O Profeta serve como um interessante exercício de síntese desta notável obra do francês Jacques Audiard, que levou o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes, em 2009. Na primeira, somos apresentados a Malik El Djebena, jovem de 19 anos, analfabeto, pobre e sem família, de aparência frágil e insegura, condenado a seis anos de prisão e hesitante em se afirmar enquanto árabe ou francês. Na última, vemos o protagonista, magnificamente interpretado pelo estreante Tahar Rahim, saindo da cadeia com a confiança, pose e poder de um chefe do crime organizado, agora com mulher, filho e escolta dos mafiosos árabes.

É impossível não relacionar a escalada de Malik com a do personagem de Al Pacino em O Poderoso Chefão. A trajetória de formação do herói é um clichê do cinema, mas ela é só uma das linhas que sustenta este complexo roteiro que fala sobre a configuração de forças da França contemporânea por meio da ressignificação de antigas estruturas cinematográficas. Com seu virtuosismo, domínio da narrativa clássica e habilidade em manutenção da tensão e ritmo cinematográficos, Jacques Audiard parte dos gêneros dos filmes de máfia e de prisão para contar esta história que fala sobre criminalidade, religiosidade, filiação, racismo e educação. 

A humanização conferida ao protagonista e sua complexidade fazem com que o público sinta empatia por ele, fato que levantou, na França, polêmicas similares as que suscitou Cidade de Deus no Brasil. Malik é apresentado como uma vítima que se adequou ao ambiente hostil em que foi submetido. É impossível não se sensibilizar com a felicidade infantil estampada em seu rosto quando ele toma vento pela janela do carro em uma de suas saídas da prisão, com sua excitação ao andar de avião pela primeira vez, alegria em molhar o pé no mar (a grande metáfora da liberdade) ou na cena em que ele dorme abraçado com o filho de seu amigo e companheiro de crime.

Como contraponto a esta faceta do personagem, vemos Malik assassinar brutalmente outro preso – passagem que simboliza o grande rito iniciático que o insere na máfia corsa – e cometer uma chacina no meio da rua, sequência digna dos grandes mestres do cinema, que tem a força das imagens do atentado a Vito Corleone em O Poderoso Chefão.

Outra questão marcante, que o título já anuncia, é o caráter messiânico de Malik, que é construído a partir da perspectiva religiosa e de um realinhamento e afirmação de suas raízes árabes. Pautado pelo realismo, o longa adquire atmosfera sobrenatural quando o protagonista acerta contas simbolicamente com o árabe que matou e no momento em que sua capacidade de vislumbrar o futuro é anunciada. Da forma como é colocado em cena, pode-se concluir que este dom seja metafórico e indique um tipo de astúcia do personagem, que lhe permite, no final do processo, promover uma inversão de forças na máfia. 
A afirmação e disputa étnicas aparecem também pelo viés linguístico, já que o protagonista – que tem o árabe como idioma materno – aprende a língua corsa para negociar, e de certa forma se aproximar do mentor e temido chefão César Luciani (Niels Arestup), além de assistir aulas de francês, o idioma oficial do Estado. Este caráter colonizador do ensino da língua foi aprofundado no excelente Entre os Muros da Escola.

É interessante ressaltar a posição política do diretor ao dar voz e transformar um árabe em herói no território francês. Desta forma, Jacques Audiard coloca em debate o lugar social dos povos de origem estrangeira na França e as políticas xenofóbicas de Nicolas Sarkozy.

Publicada no Guia da Semana.

Universoteen.com

abril 30, 2010

Filmes revelam as inseguranças, confusões e desejos dos adolescentes da geração dos bites e pixels

Para quem acompanha a produção nacional de perto, é uma grande alegria ir ao cinema e ver dois filmes brasileiros adolescentes de qualidade em cartaz, além de outro (Antes que o Mundo Acabe) programado para estreiar em breve. Pensar que os jovens têm a opção de assistir a histórias como as que vivem em seu cotidiano, identificar-se com personagens que remetem a seus amigos, ouvir sotaques familiares, ver ruas de sua cidade e seu ídolo teen na tela, ao invés de imagens importadas da juventude norte-americana, é uma satisfação. Lamenta-se, porém, que esse cenário, amplamente comemorado pela crítica, não seja uma constante e sim um período de exceção do cinema nacional.

Com a montagem dinâmica de Daniel Resende e uso de recursos audiovisuais que conferem agilidade e ritmo à narrativa, As Melhores Coisas do Mundo acompanha as descobertas, dilemas e adversidades vividos por Mano, jovem paulista de classe média. Os diálogos extremamente verossímeis e o roteiro bem amarrado, que reúne um panorama rico de situações típicas da adolescência contemporânea, revelam o intenso trabalho de pesquisa de Laís Bodanzky, que já havia mostrado sua competência na direção de Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade.

Escalar para o elenco o protagonista do seriado Malhação e cantor Fiuk foi outro acerto do filme, pois a formação de público adolescente para o cinema nacional é impensável sem o atrativo de ídolos teens brasileiros.

Os Famosos e os Duendes da Morte, longa de estreia do premiado curta-metragista Esmir Filho, opta por um registro com tempo distendido e palheta de cores mais sóbrias para retratar a vida de um melancólico jovem sem nome e com poucas perspectivas em uma pequena e monótona cidade rural do Sul. A relação do jovem com um misterioso casal, que ele acompanha por vídeos na internet, conferem tom sobrenatural a alguns momentos da produção que venceu o Festival do Rio no ano passado. O isolamento e interpretação contida do protagonista, a inserção de imagens com diferente granulação, entre outros aspectos, sinalizam a referência a Gus Van Sant, especialmente a Paranoid Park.   

As Melhores Coisas do Mundo e Os Famosos e os Duendes da Morte têm diversos pontos de ligação. O papel da internet como forma de sociabilidade – por meio do MSN, blogs e redes sociais -; a música que age como canalização produtiva das frustrações e como caminho para a liberdade; a droga que aparece não mais como símbolo da destruição e perda de controle, mas enquanto uma forma de escapismo controlado; a desconstrução da família nos moldes tradicionais e o flerte com a morte são alguns deles. O uso de atores iniciantes e não atores, grande responsável por garantir a veracidade e o frescor da encenação, é outro aspecto comum.

A juventude de classe média representada nos filmes não é mais aquela que tinha que chegar até as 22h em casa. Ela já não vive também grandes choques de geração, uma vez que os pais autoritários de outrora deram lugar a figuras mais compreensivas e liberais. As diversas formas de humilhação experimentadas no selvagem ambiente escolar agora se sofisticaram com o uso da internet e o surgimento do cyberbullying. A homossexualidade é encarada com menos preconceito. Não há grandes transgressões, eles são estranhamente comportados, até demais por sinal.

Apesar de características comuns a esta faixa etária, a adolescência nos tempos atuais tem muitas particularidades que refletem mudanças sociais mais amplas, o que faz com que estes filmes tenham valor também enquanto registros de uma época.

Publicada no Guia da Semana

apenasofim

Produção de baixíssimo orçamento faz raio X da juventude contemporânea

Segundo um amigo meu, estudante de cinema, términos de relacionamento são temas muito recorrentes nos roteiros dos curtas de seus colegas, aspirantes a cineastas. Arrisco afirmar que a tendência se justifica no fato de os rompimentos amorosos serem um dos primeiros e, normalmente, mais marcantes dramas que alguém de 20 e poucos anos sofre. Lidar com a rejeição do parceiro e com o fim das ilusões românticas faz parte do amadurecimento.

Apesar da forte carga dramática que o assunto suscita, o longa de estreia de Matheus Souza, Apenas o Fim, não é melancólico, aspecto que se configura como uma das fragilidades do filme. Após a personagem de Érika Mader anunciar ao namorado que está indo embora em uma hora, o que corresponde ao tempo que lhes resta como casal, os dois especulam sobre o futuro e fazem um balanço do relacionamento enquanto andam pelo campus da PUC-RJ. Estas sequências são intercaladas com flashbacks, em preto e branco, de momentos da vida dos personagens.

Durante o diálogo, diversos ícones da cultura pop e objetos de consumo cultural de uma geração são evocados, desde o Orkut e o Playstation, a Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon e Transformers, até Backstreet Boys e Radiohead. Mistura-se neste caldeirão de referências Bergman e Godard, afinal os personagens são estudantes de cinema. Em uma sociedade em que você é o que consome, estes símbolos surgem como forma de conhecermos os personagens. A metáfora entre o amor e os hambúrgueres do McDonald´s, feita pelo personagem de Gregório Duvivier, também diz muito sobre esta geração e o caráter fluido das relações na contemporaneidade.

Apenas o Fim é um filme feito por jovens e para jovens. Érika e Gregório transpiram leveza, vivacidade e despreocupação. Ela quer ser atriz, ele roteirista. Os tons verde claro das árvores do campus e a fotografia luminosa se aliam à força dos atores, principalmente da inquieta personagem de Érika, na composição desta imagem da potencialidade da juventude. O fato de a garota andar sem parar, fazendo com que seu namorado esteja sempre a segui-la, reflete sua necessidade por novas experiências e descobertas. Apesar de não revelar seu destino, é provável que a garota esteja rumo a um intercâmbio, viagem que simboliza uma espécie de rito de passagem para grande parte dos jovens de classe média brasileiros.

Ao mesmo tempo em que condensa características universais desta faixa etária, o filme traz a aura da juventude carioca, por meio das gírias e do modo peculiar de se portar e se vestir. A levada mansa da canção dos Los Hermanos, grupo fundado por estudantes da PUC-RJ, que encerra o longa, também ajuda a caracterizar o clima desta geração.

O filme foi realizado com baixíssimo orçamento em esquema de produção quase amador, em que todos trabalharam de graça, com exceção do técnico de som. Os protagonistas eram colegas de Matheus, e os equipamentos, emprestados da faculdade. Estas características, somadas aos diálogos coloquiais bem elaborados e à filmagem com câmera na mão, remetem a longas de alguns dos “jovens turcos” da nouvelle vague francesa.

O próprio diretor confirma o nítido parentesco de Apenas o Fim com Antes do Amanhecer e Antes do Anoitecer de Richard Linklater. Woody Allen também é uma importante referência, assim como os filmes do brasileiro Domingos de Oliveira, que atualmente desenvolve projetos com o cineasta estreante.

Apesar das limitações devido à inexperiência e aos escassos recursos técnicos, o despretensioso longa de Matheus é um convite a viagens nostálgicas à época da universidade ou, para os que têm 20 e poucos anos, um lembrete de que vivem a melhor parte de suas vidas. Que sua corajosa empreitada sirva de incentivo a novos diretores e que o frescor deste seu primeiro filme torne-se uma marca de sua filmografia.

 Aguardaremos.

Publicada no Guia da Semana

Fé em xeque

maio 22, 2009

O sétimo selo

Uma das obras primas de Bergman reflete questionamentos religiosos do diretor

De 1956, O Sétimo Selo é baseado na peça O Retábulo da Peste que Ingmar Bergman escreveu para seus alunos da Escola de Teatro de Malmö. O longa, filmado em 35 dias, acompanha a trajetória do cavaleiro Antonius, que acaba de voltar das Cruzadas com seu escudeiro, e é surpreendido com a figura da Morte. Diante da notícia que iria morrer, o protagonista propõe que seu destino seja decidido em uma partida de xadrez.

Este prolongamento da vida faz com que o personagem resolva fazer uma última boa ação – ajudar um casal de atores – ao mesmo tempo em que ele entra em um processo de dúvidas, incertezas e angústia sobre a fé e Deus. Afinal, ele matou em nome do catolicismo, vê as injustiças cometidas pela Inquisição, a Europa assolada pela peste negra e pela fome e um fanatismo religioso extremamente destrutivo. Como poderia existir Deus em tal cenário?

No livro Imagens, o diretor reconhece que O Sétimo Selo está impregnado de suas concepções religiosas em diferentes períodos da vida. Os questionamentos do protagonista são reflexos dos de Bergman que, como filho de pastor luterano, teve uma educação muito rígida marcada pelas visitas frequentes a igreja e pelos sentimentos de culpa, pecado, castigo, perdão, confissão e indulgência.

Antonius carrega resquícios da fé infantil de Bergman, que podem ser observados por seu o hábito de rezar e de se confessar, o medo da morte e a crença em uma vida para além deste mundo. Mas, ao mesmo tempo, o personagem busca o conhecimento como forma de se libertar dos dogmas religiosos, como a existência de Deus, que ele tanto coloca em dúvida. O cavaleiro tem como antagonista Jons, seu escudeiro, personagem extremamente racional que não acredita em nada além da vida na Terra. 

A proposta do jogo de xadrez não é casual, ela reforça a tentativa do personagem de se livrar da lógica do misticismo. Além de suas peças serem alegorias da estratificação da sociedade medieval, o resultado de uma partida de xadrez depende exclusivamente da habilidade dos jogadores. Trata-se, portanto, de um jogo que exalta o livre-arbítrio, e não o acaso ou destino, como os dados. Já a construção desmistificada da personagem da Morte, um homem com o rosto pintado de branco – como o de um palhaço – que jogava xadrez, conversava e até fazia brincadeiras, é uma tentativa de combater as representações religiosas da figura com ironia.

A família dos atores Jof e Mia representam a idéia de que o homem é um ser sagrado, que o diretor afirma ser seu conceito de religiosidade na maturidade. Com uma certa inocência e alegria infantis, eles divertem o público do vilarejo, cantam, dançam e brincam. A cena em que os personagens comem morangos silvestres e leite é emblemática, pois demonstra a fascinação do cavaleiro com aquela vida simples e sem preocupações que vivem os artistas. Não por acaso, eles são os únicos que sobrevivem. Talvez seja o tipo de concepção de vida que Berman gostaria que prevalecesse no mundo. 

Uma das sequencias mais marcantes de O Sétimo Selo, que se tornou célebre, é a que os personagens são conduzidos pela Morte em uma dança. Curiosamente, ela não foi realizada pelos atores, que já haviam ido embora quando Bergman decidiu chamar assistentes de produção e turistas para realizar a cena, aproveitando o formato das nuvens no céu. A dança final pode ser interpretada como a conscientização dos personagens em relação à morte, pois, se não houver nada depois da vida, deve-se celebrar este último instante, mas caso exista, não há porque temer, por isso eles abandonam o medo e vão felizes ao encontro deste lugar misterioso.

Publicada no Guia da Semana

Imagine a situação. Um outdoor cai no muro de um dos luxuosos e super-protegidos condomínios de Alphaville e cria uma ponte por onde entram três jovens moradores da enorme favela que existe ao lado. Um assalto mal sucedido acaba com a morte de dois dos meninos, de uma das moradoras e de um segurança. Os habitantes do conjunto habitacional iniciam uma caçada para encontrar o “assassino”, demonstrando até que ponto a classe média é capaz de chegar para manter sua segurança e, em última instância, seu status de classe.

O roteiro acima poderia se passar no Brasil, mas acontece na Cidade do México, no condomínio La Zona, que dá nome ao primeiro longa do diretor mexicano Rodrigo Plá. Laura Santullo, mulher do cineasta, escreveu La Zona como um conto futurista, no qual a exclusão social seria levada ao limite e os cidadãos, abandonados pelo Estado, se organizariam em comunidades fechadas. A surpresa, admitiu Rodrigo em entrevistas concedidas no lançamento do filme, foi constatar que o futuro já havia chegado. Quando o casal elaborava o roteiro, descobriram que já havia condomínios, como o do texto, na Cidade do México.

Intitulado Zona do Crime no Brasil, o longa foi idealizado, segundo o diretor, como um thriller social que pudesse ser desfrutado como filme de suspense. Por esta razão, é assumidamente voltado ao grande público. Porém, este fato não limita sua postura crítica. Rodrigo Plá mapeia, de forma brilhante, o cotidiano e o modo de pensar da classe média em um país subdesenvolvido. Acuada pelo crescimento da pobreza e medo de perder seu status social, os indivíduos que compõem esta classe têm a ilusão de segurança pelo fato de morarem em condomínios super-vigiados, cheios de câmeras e guardas. Quando esta suposta segurança é ameaçada, afloram os sentimentos mais perversos.

Um dos acertos do filme é não estereotipar os personagens, o que tornaria a trama maniqueísta. A classe média é composta por indivíduos complexos, que vão do vizinho que não concorda com as decisões totalitárias dos membros da assembléia do condomínio, exigindo a intervenção da polícia no caso, até aquele que acredita que o suborno vai resolver todos os seus problemas (interpretado pelo irmão de Javier Bardem, Carlos Bardem). A postura e hábitos dos adolescentes do conjunto habitacional também ajudam a compor esta mentalidade da classe média.

O filme, premiado no Festival de Veneza de 2007 com o Leão do Futuro, concedido a diretores estreantes, aborda também o papel da polícia na relação entre classes e evidencia a ausência do Estado nesta sociedade em que quem tem mais poder de compra determina as regras, em que os cidadãos são vistos como consumidores e a justiça é um instrumento de classe.

A reação dos moradores na assembleia e o clímax do filme, que por razões óbvias não deve ser revelado, me transportaram para M. – O Vampiro de Düsseldorf de Fritz Lang. A Vila, de M. Night Shyamalan, também traz questionamentos, em certa medida, similares sobre a questão do isolamento social e da mitificação do outro, do diferente.

Publicada no Guia da Semana