O lado obscuro de Alphaville ou quando os valores da TFP são colocados em prática

maio 14, 2008

Imagine a situação. Um outdoor cai no muro de um dos luxuosos e super-protegidos condomínios de Alphaville e cria uma ponte por onde entram três jovens moradores da enorme favela que existe ao lado. Um assalto mal sucedido acaba com a morte de dois dos meninos, de uma das moradoras e de um segurança. Os habitantes do conjunto habitacional iniciam uma caçada para encontrar o “assassino”, demonstrando até que ponto a classe média é capaz de chegar para manter sua segurança e, em última instância, seu status de classe.

O roteiro acima poderia se passar no Brasil, mas acontece na Cidade do México, no condomínio La Zona, que dá nome ao primeiro longa do diretor mexicano Rodrigo Plá. Laura Santullo, mulher do cineasta, escreveu La Zona como um conto futurista, no qual a exclusão social seria levada ao limite e os cidadãos, abandonados pelo Estado, se organizariam em comunidades fechadas. A surpresa, admitiu Rodrigo em entrevistas concedidas no lançamento do filme, foi constatar que o futuro já havia chegado. Quando o casal elaborava o roteiro, descobriram que já havia condomínios, como o do texto, na Cidade do México.

Intitulado Zona do Crime no Brasil, o longa foi idealizado, segundo o diretor, como um thriller social que pudesse ser desfrutado como filme de suspense. Por esta razão, é assumidamente voltado ao grande público. Porém, este fato não limita sua postura crítica. Rodrigo Plá mapeia, de forma brilhante, o cotidiano e o modo de pensar da classe média em um país subdesenvolvido. Acuada pelo crescimento da pobreza e medo de perder seu status social, os indivíduos que compõem esta classe têm a ilusão de segurança pelo fato de morarem em condomínios super-vigiados, cheios de câmeras e guardas. Quando esta suposta segurança é ameaçada, afloram os sentimentos mais perversos.

Um dos acertos do filme é não estereotipar os personagens, o que tornaria a trama maniqueísta. A classe média é composta por indivíduos complexos, que vão do vizinho que não concorda com as decisões totalitárias dos membros da assembléia do condomínio, exigindo a intervenção da polícia no caso, até aquele que acredita que o suborno vai resolver todos os seus problemas (interpretado pelo irmão de Javier Bardem, Carlos Bardem). A postura e hábitos dos adolescentes do conjunto habitacional também ajudam a compor esta mentalidade da classe média.

O filme, premiado no Festival de Veneza de 2007 com o Leão do Futuro, concedido a diretores estreantes, aborda também o papel da polícia na relação entre classes e evidencia a ausência do Estado nesta sociedade em que quem tem mais poder de compra determina as regras, em que os cidadãos são vistos como consumidores e a justiça é um instrumento de classe.

A reação dos moradores na assembleia e o clímax do filme, que por razões óbvias não deve ser revelado, me transportaram para M. – O Vampiro de Düsseldorf de Fritz Lang. A Vila, de M. Night Shyamalan, também traz questionamentos, em certa medida, similares sobre a questão do isolamento social e da mitificação do outro, do diferente.

Publicada no Guia da Semana

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8 Respostas to “O lado obscuro de Alphaville ou quando os valores da TFP são colocados em prática”

  1. Tays said

    O geográfo Milton Santos aborda em sua obra, essa questão dos condiminios fechados. A classe média alta, e a burguesia estão retornando ao feudalismo – a “violencia” dentro de uma metropole super-inchada tipica de paises subdesenvolvidos é como às invasões barbáras da idade média.
    A questão é que trata-se de um contexto histórico completamente diferente. Ao invés de resolvermos o problema do lado de fora ( por exemplo os serviços publicos precaridos e ineficientes, o desemprego ) nos fechamos atras de arames enfarpados, cameras de segurança, sistema de alarmes, segurança particular, verdadeiras muralhas!

    A classe média é mesmo uma piada. “Mas se o assalto é em moema, o assassinato é nos jardins, e a filha do executivo é estuprada até o fim…Aí a mídia manifesta a sua opinião regressa, de implantar pena de morte ou reduzir a idade penal”

    Beijinhos hermana

  2. Realmente sua inspiração blogueira voltou com tudo!
    Um ótimo texto, jovem Cyntia…

    Adorei o tema, quero ver esse filme também. Pena que essa adaptação do nome aqui no Brasil (Zona do Crime) passa mais a impressão de ser um filme do VanDamme, rs

    Vale fazer algum comentário sobre a sociedaaaade? heheh Melhor deixar pra uma futura “discussão” 😛

    Mas vou anotar a dica e ver sim!
    Beijo

  3. Priscila said

    É amiga… São jornalistas como você que fazem com que a cultura não tenha um final triste.. Lendo seu texto, logo senti a vontade de sair da cadeira e correr para o cinema mais próximo… Parabéns… E seu futuro será brilhante…

    bjos
    Pri

  4. Camila said

    Cy!
    Ainda bem que existem bons cinemas espalhados pelo mundo não? Os orientais, como você mesma me disse, são incrivelmetne cuidadosos com as coisas pequenas. E os iranianos vão na mesma linha…
    Agora, eu tenho também uma queda pelos filmes latinos…esse do seu texto ainda não consegui ver.
    Belo texto….e acho que devo concordar com a sua explanação relacionando o cinema brasileiro, mas só vou dar certezas quando finalmente tiver visto este filme.

  5. Livia said

    Oi, Cy!

    Pois é. São pessoas como vc que me fazem sentir interesse por filmes não “prontos”…rs
    Adorei seu texto, continue sempre escrevendo e eu juro que voltarei a escrever no meu.rs
    Beijos

  6. Fabio said

    Olá Cyntia,

    a algumas semanas vi este filme e por coincidência tive a mesma percepção que você em relação a projeção da situação vivenciada no filme. Pensei se a mesma coisa acontecesse nesta região de SP.

    Interessante a forma como os valores são deturpados e o quanto a classe social de um individuo pode servir de fator determinante para a sua corrupção; como você mesma observou apenas um jovem estava lúcido diante do que estava acontecendo dentro do condomínio, pois todos ali acreditavam que estavam agindo da forma correta, me lembrou aquele lance de TRADIÇÃO, PROPRIEDADE E FAMILIA….Sabe??? rs

    Pois então excelente post !!

  7. Tiago said

    Cara Cintia! Assisti ao filme que é muito bom para fazer um trabalho para a faculdade abordando as relações de poder que existem em umcondominio de classe média alta. Sendo assim gostaria de saber se você me recomenda algum filme brasileiro parecido como o La Zona. Só que abordando as relações de poder em um condominio de classe média alta brasileiro.

  8. Sergio Dri said

    Olá Cyntia,

    Em 2009 foi lançado na Argentina um filme cujo tema era a vida nesses condomínios de luxo: “As viúvas de quinta-feira”, baseado no livro da Claudia Piñeiro, de mesmo nome. O livro é interessantíssimo. Tens notícia da vinda desse filme para o Brasil?
    Agradeço a atenção e parabéns pelo blog
    Sergio

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