O manifesto niilista de Lars

agosto 14, 2011

Lars Von Trier
Filme discute o existencialismo por meio do drama de personagens perante o fim iminente da Terra 

Assim como em Anticristo, Lars Von Trier inicia Melancolia com um prólogo grandiloquente com estética composta por tableaux vivants em câmera lentíssima. O espetáculo visual antecipa os eixos da trama. As imagens do universo e de Justine vestida de noiva tentando ir contra as forças da natureza que a impedem de andar, já indicam que a Terra vai ser engolida pelo planeta Melancolia e que a depressão da personagem interpretada por Kirsten Dunst vai arruinar seu casamento antes mesmo dele se concretizar.

Se em Anticristo o embate se dava entre a mulher, que representava a natureza, e o homem, um psicanalista, que encarnava a ciência. Neste filme, John (Kiefer Sutherland) representa a potencialidade do ser humano, Claire (Charlotte Gainsbourg) seria a crença nos valores sociais e Justine a niilista.

Após o prólogo, o filme é dividido em duas partes que levam o nome das irmãs Justine e Claire. A primeira parte, que mostra o casamento de Justine, é claramente inspirada em Festa de Família, de Thomas Vinterberg. Os planos de Claire em proporcionar uma cerimônia grandiosa para a irmã são paulatinamente destruídos por inúmeros acontecimentos incômodos. A pompa de chegar com uma limusine enorme na casa de campo faz com que o carro não passe pela estradinha de terra atrasando muito a chegada dos noivos na festa. A mãe da noiva, que representa a afetividade, faz um discurso pessimista em relação à felicidade matrimonial. A crítica a falta de limites do trabalho na vida pessoal é materializada pelo chefe de Justine que força a noiva a criar o slogan de uma campanha durante a festa. Outro agravante é o desinteresse da noiva em participar de rituais importantes da festa. Além de criticar os valores burgueses, assim como no filme do Dogma 95, esta primeira parte mostra o progressivo agravamento do quadro depressivo de Justine.

Depois do fiasco do casamento, o filme centra-se na rotina de Justine, Claire, seu marido e filho. A opção em retratar uma família rica visa tirar o foco das preocupações materiais imediatas, para se deter nos questionamentos existencialistas. À medida que o planeta Melancolia se aproxima da Terra, Justine vai melhorando seu humor e Claire começa a se desesperar com a possibilidade do choque, que seu marido garante que não vai ocorrer. Na verdade, John sabe que a colisão é inevitável, mas se apega à ilusão de que o planeta pode desviar.

Quando os personagens se dão conta de que o fim da Terra está próximo, John se mata, o que pode ser interpretado como a impotência humana frente à dinâmica do universo. A origem da angústia de Claire, saber que o filho não terá um lugar para crescer, é colocada pelo viés do instinto materno que, em última instância, é o desejo de preservação da humanidade. Nos últimos momentos, ela se apega aos rituais sociais, propondo a Justine que tomem vinho e ouçam uma sinfonia de Beethoven, o que é rechaçado ironicamente pela irmã.

Como niilista, Justine vê os seres humanos como um dos inúmeros elementos que compõem o universo – apresentando inclusive uma posição misantropa em certo momento. A melancolia, que dá nome ao planeta e afeta o humor de Justine, é gerada pela constatação de que a vida não tem sentido, nem é o objetivo da existência do universo, além de ser desprezível em relação às determinações do cosmo. A partir do momento em que ela se enxerga parte de uma natureza maior, que engloba todo o universo, passa a encarar o fim de forma serena. A reação dela pode ser comparada a dos cavalos da casa de campo que se agitam ao perceberem que algo está em desequilíbrio para depois se tranquilizarem. Este processo de aceitação da finitude, pelo qual passa Justine, é semelhante ao vivido pelas personagens de O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, que dançam rumo à morte, na última sequência do filme.

A religião está presente na obra de Lars Von Trier desde a estrutura do Dogma 95, manifesto cinematográfico criado por ele e Thomas Vinterberg. Em Ondas do Destino, ele criticou a religião como instituição e admitiu a existência de milagres pela fé. Em Anticristo, mostrou seus efeitos psicológicos e sociais, com foco em seu papel na repressão da mulher. Já em Melancolia, o diretor abandona a religião, adotando uma postura claramente ateísta.

Na mise en scene, a dimensão do planeta em colisão revela a pequenez das personagens e, por conseqüência, da humanidade. Na corajosa cena final, em que a família é incinerada sem redenção, restando apenas o silêncio e a escuridão, Lars enfrenta o antropocentrismo e coloca o homem em seu lugar.

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Uma resposta to “O manifesto niilista de Lars”

  1. victorsas said

    Bacana, não conhecia teu blog, e nem teu lance com cinema. Acho que nunca conversamos na faculdade, rs…
    Mas massa, vou acompanhar!
    beijos.

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