Imagine a situação. Um outdoor cai no muro de um dos luxuosos e super-protegidos condomínios de Alphaville e cria uma ponte por onde entram três jovens moradores da enorme favela que existe ao lado. Um assalto mal sucedido acaba com a morte de dois dos meninos, de uma das moradoras e de um segurança. Os habitantes do conjunto habitacional iniciam uma caçada para encontrar o “assassino”, demonstrando até que ponto a classe média é capaz de chegar para manter sua segurança e, em última instância, seu status de classe.

O roteiro acima poderia se passar no Brasil, mas acontece na Cidade do México, no condomínio La Zona, que dá nome ao primeiro longa do diretor mexicano Rodrigo Plá. Laura Santullo, mulher do cineasta, escreveu La Zona como um conto futurista, no qual a exclusão social seria levada ao limite e os cidadãos, abandonados pelo Estado, se organizariam em comunidades fechadas. A surpresa, admitiu Rodrigo em entrevistas concedidas no lançamento do filme, foi constatar que o futuro já havia chegado. Quando o casal elaborava o roteiro, descobriram que já havia condomínios, como o do texto, na Cidade do México.

Intitulado Zona do Crime no Brasil, o longa foi idealizado, segundo o diretor, como um thriller social que pudesse ser desfrutado como filme de suspense. Por esta razão, é assumidamente voltado ao grande público. Porém, este fato não limita sua postura crítica. Rodrigo Plá mapeia, de forma brilhante, o cotidiano e o modo de pensar da classe média em um país subdesenvolvido. Acuada pelo crescimento da pobreza e medo de perder seu status social, os indivíduos que compõem esta classe têm a ilusão de segurança pelo fato de morarem em condomínios super-vigiados, cheios de câmeras e guardas. Quando esta suposta segurança é ameaçada, afloram os sentimentos mais perversos.

Um dos acertos do filme é não estereotipar os personagens, o que tornaria a trama maniqueísta. A classe média é composta por indivíduos complexos, que vão do vizinho que não concorda com as decisões totalitárias dos membros da assembléia do condomínio, exigindo a intervenção da polícia no caso, até aquele que acredita que o suborno vai resolver todos os seus problemas (interpretado pelo irmão de Javier Bardem, Carlos Bardem). A postura e hábitos dos adolescentes do conjunto habitacional também ajudam a compor esta mentalidade da classe média.

O filme, premiado no Festival de Veneza de 2007 com o Leão do Futuro, concedido a diretores estreantes, aborda também o papel da polícia na relação entre classes e evidencia a ausência do Estado nesta sociedade em que quem tem mais poder de compra determina as regras, em que os cidadãos são vistos como consumidores e a justiça é um instrumento de classe.

A reação dos moradores na assembleia e o clímax do filme, que por razões óbvias não deve ser revelado, me transportaram para M. – O Vampiro de Düsseldorf de Fritz Lang. A Vila, de M. Night Shyamalan, também traz questionamentos, em certa medida, similares sobre a questão do isolamento social e da mitificação do outro, do diferente.

Publicada no Guia da Semana

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