Manifesto ao cinema-espetáculo

fevereiro 12, 2012

The Artist, Michel Hazanavicius

Hugo e O Artista apontam caminhos para a crise de Hollywood

A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, e O Artista, do francês Michel Hazanavicius, são filmes sintomáticos. Respondem, cada um a sua maneira, a um estado de coisas. A revolução do digital, que barateou e popularizou a realização cinematográfica, e a pirataria, que ameaça o modelo de negócios de Hollywood, são as bases deste contexto. Como estratégia de contra-ataque, os grandes estúdios investem pesado em tecnologia, aprimorando a técnica de motion capture e o uso do 3D, como em Avatar e Tintim, de forma a oferecer uma experiência cinematográfica impossível de se reproduzir em casa. Este avanço tecnológico tem impacto sobre os atores, que, ingenuamente, temem ser substituídos pela computação gráfica.

O Artista reage a esta crise buscando nostalgicamente o cinema mudo, a era de ouro de Hollywood e o cinema espetáculo. Em preto e branco, mudo e com inteligente uso do som, a obra faz referências a Charles Chaplin, Gene Kelly, Rodolfo Valentino, entre outros astros do período. O filme é uma grande homenagem ao ator. Não à toa, boa parte de seu encanto está no carisma e excelente performance de Jean Dujardin e Berenice Bejo. Mas isso não é tudo. Por meio do retrato de outra difícil transição do cinema, do mudo para o falado, a produção tece comentário sobre os dilemas atuais. O longa postula que a chave para o futuro está na criação de um novo modelo baseado na união do velho paradigma ao novo.

Scorsese também reverencia o cinema espetáculo, mas com uma linguagem oposta, usando o 3D e a computação gráfica. Assim como Caverna dos Sonhos Esquecidos, de Werner Herzog, e Pina, de Wim Wenders, Hugo é um exemplar da recente incursão do cinema de arte no 3D. Os três filmes nos dão uma amostra dos potenciais desta tecnologia nas mãos de bons cineastas, especialmente a possibilidade de expansão de técnicas cinematográficas, esta sim, uma verdadeira revolução que está por vir.

Leitmotiv de Hugo, as engrenagens – da moviola, dos relógios e do trem – chamam atenção para o fato de que o cinema é tecnologia. E que os efeitos especiais surgiram já no início desta arte, com Georges Méliès, ao qual o filme presta bela homenagem. Neste contexto, o 3D e a computação gráfica nada mais são do que o avanço da truncagem, que Méliès explorava como possibilidade mágica do cinema. Seria caríssimo, senão impossível, recriar em estúdio a Paris dos anos 30, por isso o diretor usa uma “mágica”, a computação gráfica, para reviver a cidade. Pode-se interpretar no autômato de Hugo uma metáfora para a substituição dos atores por versões digitais. A chave em formato de coração que o coloca em funcionamento simbolizaria a emoção que o ator traz aos personagens, tornando-o insubstituível por versões digitais.

Ao optar em fazer um filme infantil, o diretor norte-americano não pretende atingir só as crianças, mas tocar os adultos pela emoção, como quando ficamos apreensivos ao ver Buster Keaton pendurado do lado de fora de um prédio ou maravilhados com o universo fantástico de Star Wars. Afinal, ao fazer esta ode ao cinema-sonho, Scorsese também está reverenciando os diretores de sua geração que definiram o conceito de blockbuster, Steven Spielberg e George Lucas.

A mensagem que Hugo e O Artista deixam é que a chave para a crise do cinema Hollywoodiano está nas suas origens, no fascínio que a imagem exerce sobre nós e nas boas histórias encenadas por atores talentosos. O fato da amiga de Hugo, Isabelle, descobrir sua vocação como narradora enfatiza isso. Ambos os filmes defendem que o caminho a seguir é o clássico aliado à tecnologia como forma de resgate do cinema como fábrica de sonhos.

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apenasofim

Produção de baixíssimo orçamento faz raio X da juventude contemporânea

Segundo um amigo meu, estudante de cinema, términos de relacionamento são temas muito recorrentes nos roteiros dos curtas de seus colegas, aspirantes a cineastas. Arrisco afirmar que a tendência se justifica no fato de os rompimentos amorosos serem um dos primeiros e, normalmente, mais marcantes dramas que alguém de 20 e poucos anos sofre. Lidar com a rejeição do parceiro e com o fim das ilusões românticas faz parte do amadurecimento.

Apesar da forte carga dramática que o assunto suscita, o longa de estreia de Matheus Souza, Apenas o Fim, não é melancólico, aspecto que se configura como uma das fragilidades do filme. Após a personagem de Érika Mader anunciar ao namorado que está indo embora em uma hora, o que corresponde ao tempo que lhes resta como casal, os dois especulam sobre o futuro e fazem um balanço do relacionamento enquanto andam pelo campus da PUC-RJ. Estas sequências são intercaladas com flashbacks, em preto e branco, de momentos da vida dos personagens.

Durante o diálogo, diversos ícones da cultura pop e objetos de consumo cultural de uma geração são evocados, desde o Orkut e o Playstation, a Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon e Transformers, até Backstreet Boys e Radiohead. Mistura-se neste caldeirão de referências Bergman e Godard, afinal os personagens são estudantes de cinema. Em uma sociedade em que você é o que consome, estes símbolos surgem como forma de conhecermos os personagens. A metáfora entre o amor e os hambúrgueres do McDonald´s, feita pelo personagem de Gregório Duvivier, também diz muito sobre esta geração e o caráter fluido das relações na contemporaneidade.

Apenas o Fim é um filme feito por jovens e para jovens. Érika e Gregório transpiram leveza, vivacidade e despreocupação. Ela quer ser atriz, ele roteirista. Os tons verde claro das árvores do campus e a fotografia luminosa se aliam à força dos atores, principalmente da inquieta personagem de Érika, na composição desta imagem da potencialidade da juventude. O fato de a garota andar sem parar, fazendo com que seu namorado esteja sempre a segui-la, reflete sua necessidade por novas experiências e descobertas. Apesar de não revelar seu destino, é provável que a garota esteja rumo a um intercâmbio, viagem que simboliza uma espécie de rito de passagem para grande parte dos jovens de classe média brasileiros.

Ao mesmo tempo em que condensa características universais desta faixa etária, o filme traz a aura da juventude carioca, por meio das gírias e do modo peculiar de se portar e se vestir. A levada mansa da canção dos Los Hermanos, grupo fundado por estudantes da PUC-RJ, que encerra o longa, também ajuda a caracterizar o clima desta geração.

O filme foi realizado com baixíssimo orçamento em esquema de produção quase amador, em que todos trabalharam de graça, com exceção do técnico de som. Os protagonistas eram colegas de Matheus, e os equipamentos, emprestados da faculdade. Estas características, somadas aos diálogos coloquiais bem elaborados e à filmagem com câmera na mão, remetem a longas de alguns dos “jovens turcos” da nouvelle vague francesa.

O próprio diretor confirma o nítido parentesco de Apenas o Fim com Antes do Amanhecer e Antes do Anoitecer de Richard Linklater. Woody Allen também é uma importante referência, assim como os filmes do brasileiro Domingos de Oliveira, que atualmente desenvolve projetos com o cineasta estreante.

Apesar das limitações devido à inexperiência e aos escassos recursos técnicos, o despretensioso longa de Matheus é um convite a viagens nostálgicas à época da universidade ou, para os que têm 20 e poucos anos, um lembrete de que vivem a melhor parte de suas vidas. Que sua corajosa empreitada sirva de incentivo a novos diretores e que o frescor deste seu primeiro filme torne-se uma marca de sua filmografia.

 Aguardaremos.

Publicada no Guia da Semana

Fé em xeque

maio 22, 2009

O sétimo selo

Uma das obras primas de Bergman reflete questionamentos religiosos do diretor

De 1956, O Sétimo Selo é baseado na peça O Retábulo da Peste que Ingmar Bergman escreveu para seus alunos da Escola de Teatro de Malmö. O longa, filmado em 35 dias, acompanha a trajetória do cavaleiro Antonius, que acaba de voltar das Cruzadas com seu escudeiro, e é surpreendido com a figura da Morte. Diante da notícia que iria morrer, o protagonista propõe que seu destino seja decidido em uma partida de xadrez.

Este prolongamento da vida faz com que o personagem resolva fazer uma última boa ação – ajudar um casal de atores – ao mesmo tempo em que ele entra em um processo de dúvidas, incertezas e angústia sobre a fé e Deus. Afinal, ele matou em nome do catolicismo, vê as injustiças cometidas pela Inquisição, a Europa assolada pela peste negra e pela fome e um fanatismo religioso extremamente destrutivo. Como poderia existir Deus em tal cenário?

No livro Imagens, o diretor reconhece que O Sétimo Selo está impregnado de suas concepções religiosas em diferentes períodos da vida. Os questionamentos do protagonista são reflexos dos de Bergman que, como filho de pastor luterano, teve uma educação muito rígida marcada pelas visitas frequentes a igreja e pelos sentimentos de culpa, pecado, castigo, perdão, confissão e indulgência.

Antonius carrega resquícios da fé infantil de Bergman, que podem ser observados por seu o hábito de rezar e de se confessar, o medo da morte e a crença em uma vida para além deste mundo. Mas, ao mesmo tempo, o personagem busca o conhecimento como forma de se libertar dos dogmas religiosos, como a existência de Deus, que ele tanto coloca em dúvida. O cavaleiro tem como antagonista Jons, seu escudeiro, personagem extremamente racional que não acredita em nada além da vida na Terra. 

A proposta do jogo de xadrez não é casual, ela reforça a tentativa do personagem de se livrar da lógica do misticismo. Além de suas peças serem alegorias da estratificação da sociedade medieval, o resultado de uma partida de xadrez depende exclusivamente da habilidade dos jogadores. Trata-se, portanto, de um jogo que exalta o livre-arbítrio, e não o acaso ou destino, como os dados. Já a construção desmistificada da personagem da Morte, um homem com o rosto pintado de branco – como o de um palhaço – que jogava xadrez, conversava e até fazia brincadeiras, é uma tentativa de combater as representações religiosas da figura com ironia.

A família dos atores Jof e Mia representam a idéia de que o homem é um ser sagrado, que o diretor afirma ser seu conceito de religiosidade na maturidade. Com uma certa inocência e alegria infantis, eles divertem o público do vilarejo, cantam, dançam e brincam. A cena em que os personagens comem morangos silvestres e leite é emblemática, pois demonstra a fascinação do cavaleiro com aquela vida simples e sem preocupações que vivem os artistas. Não por acaso, eles são os únicos que sobrevivem. Talvez seja o tipo de concepção de vida que Berman gostaria que prevalecesse no mundo. 

Uma das sequencias mais marcantes de O Sétimo Selo, que se tornou célebre, é a que os personagens são conduzidos pela Morte em uma dança. Curiosamente, ela não foi realizada pelos atores, que já haviam ido embora quando Bergman decidiu chamar assistentes de produção e turistas para realizar a cena, aproveitando o formato das nuvens no céu. A dança final pode ser interpretada como a conscientização dos personagens em relação à morte, pois, se não houver nada depois da vida, deve-se celebrar este último instante, mas caso exista, não há porque temer, por isso eles abandonam o medo e vão felizes ao encontro deste lugar misterioso.

Publicada no Guia da Semana

Imagine a situação. Um outdoor cai no muro de um dos luxuosos e super-protegidos condomínios de Alphaville e cria uma ponte por onde entram três jovens moradores da enorme favela que existe ao lado. Um assalto mal sucedido acaba com a morte de dois dos meninos, de uma das moradoras e de um segurança. Os habitantes do conjunto habitacional iniciam uma caçada para encontrar o “assassino”, demonstrando até que ponto a classe média é capaz de chegar para manter sua segurança e, em última instância, seu status de classe.

O roteiro acima poderia se passar no Brasil, mas acontece na Cidade do México, no condomínio La Zona, que dá nome ao primeiro longa do diretor mexicano Rodrigo Plá. Laura Santullo, mulher do cineasta, escreveu La Zona como um conto futurista, no qual a exclusão social seria levada ao limite e os cidadãos, abandonados pelo Estado, se organizariam em comunidades fechadas. A surpresa, admitiu Rodrigo em entrevistas concedidas no lançamento do filme, foi constatar que o futuro já havia chegado. Quando o casal elaborava o roteiro, descobriram que já havia condomínios, como o do texto, na Cidade do México.

Intitulado Zona do Crime no Brasil, o longa foi idealizado, segundo o diretor, como um thriller social que pudesse ser desfrutado como filme de suspense. Por esta razão, é assumidamente voltado ao grande público. Porém, este fato não limita sua postura crítica. Rodrigo Plá mapeia, de forma brilhante, o cotidiano e o modo de pensar da classe média em um país subdesenvolvido. Acuada pelo crescimento da pobreza e medo de perder seu status social, os indivíduos que compõem esta classe têm a ilusão de segurança pelo fato de morarem em condomínios super-vigiados, cheios de câmeras e guardas. Quando esta suposta segurança é ameaçada, afloram os sentimentos mais perversos.

Um dos acertos do filme é não estereotipar os personagens, o que tornaria a trama maniqueísta. A classe média é composta por indivíduos complexos, que vão do vizinho que não concorda com as decisões totalitárias dos membros da assembléia do condomínio, exigindo a intervenção da polícia no caso, até aquele que acredita que o suborno vai resolver todos os seus problemas (interpretado pelo irmão de Javier Bardem, Carlos Bardem). A postura e hábitos dos adolescentes do conjunto habitacional também ajudam a compor esta mentalidade da classe média.

O filme, premiado no Festival de Veneza de 2007 com o Leão do Futuro, concedido a diretores estreantes, aborda também o papel da polícia na relação entre classes e evidencia a ausência do Estado nesta sociedade em que quem tem mais poder de compra determina as regras, em que os cidadãos são vistos como consumidores e a justiça é um instrumento de classe.

A reação dos moradores na assembleia e o clímax do filme, que por razões óbvias não deve ser revelado, me transportaram para M. – O Vampiro de Düsseldorf de Fritz Lang. A Vila, de M. Night Shyamalan, também traz questionamentos, em certa medida, similares sobre a questão do isolamento social e da mitificação do outro, do diferente.

Publicada no Guia da Semana