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abril 30, 2010

Filmes revelam as inseguranças, confusões e desejos dos adolescentes da geração dos bites e pixels

Para quem acompanha a produção nacional de perto, é uma grande alegria ir ao cinema e ver dois filmes brasileiros adolescentes de qualidade em cartaz, além de outro (Antes que o Mundo Acabe) programado para estreiar em breve. Pensar que os jovens têm a opção de assistir a histórias como as que vivem em seu cotidiano, identificar-se com personagens que remetem a seus amigos, ouvir sotaques familiares, ver ruas de sua cidade e seu ídolo teen na tela, ao invés de imagens importadas da juventude norte-americana, é uma satisfação. Lamenta-se, porém, que esse cenário, amplamente comemorado pela crítica, não seja uma constante e sim um período de exceção do cinema nacional.

Com a montagem dinâmica de Daniel Resende e uso de recursos audiovisuais que conferem agilidade e ritmo à narrativa, As Melhores Coisas do Mundo acompanha as descobertas, dilemas e adversidades vividos por Mano, jovem paulista de classe média. Os diálogos extremamente verossímeis e o roteiro bem amarrado, que reúne um panorama rico de situações típicas da adolescência contemporânea, revelam o intenso trabalho de pesquisa de Laís Bodanzky, que já havia mostrado sua competência na direção de Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade.

Escalar para o elenco o protagonista do seriado Malhação e cantor Fiuk foi outro acerto do filme, pois a formação de público adolescente para o cinema nacional é impensável sem o atrativo de ídolos teens brasileiros.

Os Famosos e os Duendes da Morte, longa de estreia do premiado curta-metragista Esmir Filho, opta por um registro com tempo distendido e palheta de cores mais sóbrias para retratar a vida de um melancólico jovem sem nome e com poucas perspectivas em uma pequena e monótona cidade rural do Sul. A relação do jovem com um misterioso casal, que ele acompanha por vídeos na internet, conferem tom sobrenatural a alguns momentos da produção que venceu o Festival do Rio no ano passado. O isolamento e interpretação contida do protagonista, a inserção de imagens com diferente granulação, entre outros aspectos, sinalizam a referência a Gus Van Sant, especialmente a Paranoid Park.   

As Melhores Coisas do Mundo e Os Famosos e os Duendes da Morte têm diversos pontos de ligação. O papel da internet como forma de sociabilidade – por meio do MSN, blogs e redes sociais -; a música que age como canalização produtiva das frustrações e como caminho para a liberdade; a droga que aparece não mais como símbolo da destruição e perda de controle, mas enquanto uma forma de escapismo controlado; a desconstrução da família nos moldes tradicionais e o flerte com a morte são alguns deles. O uso de atores iniciantes e não atores, grande responsável por garantir a veracidade e o frescor da encenação, é outro aspecto comum.

A juventude de classe média representada nos filmes não é mais aquela que tinha que chegar até as 22h em casa. Ela já não vive também grandes choques de geração, uma vez que os pais autoritários de outrora deram lugar a figuras mais compreensivas e liberais. As diversas formas de humilhação experimentadas no selvagem ambiente escolar agora se sofisticaram com o uso da internet e o surgimento do cyberbullying. A homossexualidade é encarada com menos preconceito. Não há grandes transgressões, eles são estranhamente comportados, até demais por sinal.

Apesar de características comuns a esta faixa etária, a adolescência nos tempos atuais tem muitas particularidades que refletem mudanças sociais mais amplas, o que faz com que estes filmes tenham valor também enquanto registros de uma época.

Publicada no Guia da Semana