Lars Von Trier
Filme discute o existencialismo por meio do drama de personagens perante o fim iminente da Terra 

Assim como em Anticristo, Lars Von Trier inicia Melancolia com um prólogo grandiloquente com estética composta por tableaux vivants em câmera lentíssima. O espetáculo visual antecipa os eixos da trama. As imagens do universo e de Justine vestida de noiva tentando ir contra as forças da natureza que a impedem de andar, já indicam que a Terra vai ser engolida pelo planeta Melancolia e que a depressão da personagem interpretada por Kirsten Dunst vai arruinar seu casamento antes mesmo dele se concretizar.

Se em Anticristo o embate se dava entre a mulher, que representava a natureza, e o homem, um psicanalista, que encarnava a ciência. Neste filme, John (Kiefer Sutherland) representa a potencialidade do ser humano, Claire (Charlotte Gainsbourg) seria a crença nos valores sociais e Justine a niilista.

Após o prólogo, o filme é dividido em duas partes que levam o nome das irmãs Justine e Claire. A primeira parte, que mostra o casamento de Justine, é claramente inspirada em Festa de Família, de Thomas Vinterberg. Os planos de Claire em proporcionar uma cerimônia grandiosa para a irmã são paulatinamente destruídos por inúmeros acontecimentos incômodos. A pompa de chegar com uma limusine enorme na casa de campo faz com que o carro não passe pela estradinha de terra atrasando muito a chegada dos noivos na festa. A mãe da noiva, que representa a afetividade, faz um discurso pessimista em relação à felicidade matrimonial. A crítica a falta de limites do trabalho na vida pessoal é materializada pelo chefe de Justine que força a noiva a criar o slogan de uma campanha durante a festa. Outro agravante é o desinteresse da noiva em participar de rituais importantes da festa. Além de criticar os valores burgueses, assim como no filme do Dogma 95, esta primeira parte mostra o progressivo agravamento do quadro depressivo de Justine.

Depois do fiasco do casamento, o filme centra-se na rotina de Justine, Claire, seu marido e filho. A opção em retratar uma família rica visa tirar o foco das preocupações materiais imediatas, para se deter nos questionamentos existencialistas. À medida que o planeta Melancolia se aproxima da Terra, Justine vai melhorando seu humor e Claire começa a se desesperar com a possibilidade do choque, que seu marido garante que não vai ocorrer. Na verdade, John sabe que a colisão é inevitável, mas se apega à ilusão de que o planeta pode desviar.

Quando os personagens se dão conta de que o fim da Terra está próximo, John se mata, o que pode ser interpretado como a impotência humana frente à dinâmica do universo. A origem da angústia de Claire, saber que o filho não terá um lugar para crescer, é colocada pelo viés do instinto materno que, em última instância, é o desejo de preservação da humanidade. Nos últimos momentos, ela se apega aos rituais sociais, propondo a Justine que tomem vinho e ouçam uma sinfonia de Beethoven, o que é rechaçado ironicamente pela irmã.

Como niilista, Justine vê os seres humanos como um dos inúmeros elementos que compõem o universo – apresentando inclusive uma posição misantropa em certo momento. A melancolia, que dá nome ao planeta e afeta o humor de Justine, é gerada pela constatação de que a vida não tem sentido, nem é o objetivo da existência do universo, além de ser desprezível em relação às determinações do cosmo. A partir do momento em que ela se enxerga parte de uma natureza maior, que engloba todo o universo, passa a encarar o fim de forma serena. A reação dela pode ser comparada a dos cavalos da casa de campo que se agitam ao perceberem que algo está em desequilíbrio para depois se tranquilizarem. Este processo de aceitação da finitude, pelo qual passa Justine, é semelhante ao vivido pelas personagens de O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, que dançam rumo à morte, na última sequência do filme.

A religião está presente na obra de Lars Von Trier desde a estrutura do Dogma 95, manifesto cinematográfico criado por ele e Thomas Vinterberg. Em Ondas do Destino, ele criticou a religião como instituição e admitiu a existência de milagres pela fé. Em Anticristo, mostrou seus efeitos psicológicos e sociais, com foco em seu papel na repressão da mulher. Já em Melancolia, o diretor abandona a religião, adotando uma postura claramente ateísta.

Na mise en scene, a dimensão do planeta em colisão revela a pequenez das personagens e, por conseqüência, da humanidade. Na corajosa cena final, em que a família é incinerada sem redenção, restando apenas o silêncio e a escuridão, Lars enfrenta o antropocentrismo e coloca o homem em seu lugar.

Fé em xeque

maio 22, 2009

O sétimo selo

Uma das obras primas de Bergman reflete questionamentos religiosos do diretor

De 1956, O Sétimo Selo é baseado na peça O Retábulo da Peste que Ingmar Bergman escreveu para seus alunos da Escola de Teatro de Malmö. O longa, filmado em 35 dias, acompanha a trajetória do cavaleiro Antonius, que acaba de voltar das Cruzadas com seu escudeiro, e é surpreendido com a figura da Morte. Diante da notícia que iria morrer, o protagonista propõe que seu destino seja decidido em uma partida de xadrez.

Este prolongamento da vida faz com que o personagem resolva fazer uma última boa ação – ajudar um casal de atores – ao mesmo tempo em que ele entra em um processo de dúvidas, incertezas e angústia sobre a fé e Deus. Afinal, ele matou em nome do catolicismo, vê as injustiças cometidas pela Inquisição, a Europa assolada pela peste negra e pela fome e um fanatismo religioso extremamente destrutivo. Como poderia existir Deus em tal cenário?

No livro Imagens, o diretor reconhece que O Sétimo Selo está impregnado de suas concepções religiosas em diferentes períodos da vida. Os questionamentos do protagonista são reflexos dos de Bergman que, como filho de pastor luterano, teve uma educação muito rígida marcada pelas visitas frequentes a igreja e pelos sentimentos de culpa, pecado, castigo, perdão, confissão e indulgência.

Antonius carrega resquícios da fé infantil de Bergman, que podem ser observados por seu o hábito de rezar e de se confessar, o medo da morte e a crença em uma vida para além deste mundo. Mas, ao mesmo tempo, o personagem busca o conhecimento como forma de se libertar dos dogmas religiosos, como a existência de Deus, que ele tanto coloca em dúvida. O cavaleiro tem como antagonista Jons, seu escudeiro, personagem extremamente racional que não acredita em nada além da vida na Terra. 

A proposta do jogo de xadrez não é casual, ela reforça a tentativa do personagem de se livrar da lógica do misticismo. Além de suas peças serem alegorias da estratificação da sociedade medieval, o resultado de uma partida de xadrez depende exclusivamente da habilidade dos jogadores. Trata-se, portanto, de um jogo que exalta o livre-arbítrio, e não o acaso ou destino, como os dados. Já a construção desmistificada da personagem da Morte, um homem com o rosto pintado de branco – como o de um palhaço – que jogava xadrez, conversava e até fazia brincadeiras, é uma tentativa de combater as representações religiosas da figura com ironia.

A família dos atores Jof e Mia representam a idéia de que o homem é um ser sagrado, que o diretor afirma ser seu conceito de religiosidade na maturidade. Com uma certa inocência e alegria infantis, eles divertem o público do vilarejo, cantam, dançam e brincam. A cena em que os personagens comem morangos silvestres e leite é emblemática, pois demonstra a fascinação do cavaleiro com aquela vida simples e sem preocupações que vivem os artistas. Não por acaso, eles são os únicos que sobrevivem. Talvez seja o tipo de concepção de vida que Berman gostaria que prevalecesse no mundo. 

Uma das sequencias mais marcantes de O Sétimo Selo, que se tornou célebre, é a que os personagens são conduzidos pela Morte em uma dança. Curiosamente, ela não foi realizada pelos atores, que já haviam ido embora quando Bergman decidiu chamar assistentes de produção e turistas para realizar a cena, aproveitando o formato das nuvens no céu. A dança final pode ser interpretada como a conscientização dos personagens em relação à morte, pois, se não houver nada depois da vida, deve-se celebrar este último instante, mas caso exista, não há porque temer, por isso eles abandonam o medo e vão felizes ao encontro deste lugar misterioso.

Publicada no Guia da Semana