O Mal-Estar no Capitalismo

outubro 19, 2011

Nenhum filme brasileiro pós-retomada abordou a desumanização do homem pelo trabalho como Trabalhar Cansa, que marca a estreia de Marco Dutra e Juliana Rojas no longa-metragem. Por meio da história de uma família paulistana de classe média, em que a mulher ascende de dona de casa à pequena burguesa e o marido passa de executivo bem-sucedido a desempregado, o filme mostra que é preciso abandonar os valores e a ética para sobreviver ao mercado de trabalho, expressão usada pelo palestrante na sequência final.

A personagem de Helena, interpretada pela espantosa Helena Albergaria, estipula suas próprias regras na contratação da nova empregada, não seguindo a CLT, e incorpora o papel de proprietária no mini-mercado que abre, vasculhando a bolsa da caixa e desconfiando da honestidade do funcionário. Já Otávio, na difícil tarefa de conseguir um emprego depois dos 40 anos, passa por humilhantes dinâmicas e palestras motivacionais, nas quais se depara com a ideologia da sobrevivência na selva, que mascara o exército de reserva inerente ao sistema capitalista, e do networking, que encontra terreno fértil no Brasil, onde as relações afetivas historicamente prevalecem sobre o mérito.

Para traduzir esteticamente a disfunção das relações de trabalho, o longa insere elementos do cinema fantástico e do terror no realismo social. Helena tenta esconder e remover todos os indícios que revelam a podridão do sistema, como o cachorro raivoso que aparece na frente do mercado, o líquido viscoso preto que surge do piso, a infiltração na parede e, no clímax do horror, o monstro que está detrás dela. Há um esforço da personagem em afastar a filha, símbolo da nova geração, desta realidade. Ela pede que o marido não conte a respeito do monstro para Vanessa e, quando a menina está brincando com as notas no caixa, a mãe diz pra ela não tocar naquilo, pois “dinheiro é sujo”.

A mistura de gêneros também se reflete nas interpretações. O clima soturno gerado pela calma perturbadora de Helena, tom também adotado por Marina Flores no papel da filha, se opõe às interpretações realistas, do apático Otávio e das energéticas, e um tanto cômicas, personagens da sogra e da corretora. A edição de som, principalmente na cena que Helena está quebrando a parede para descobrir o que está causando a infiltração, e a montagem precisa com cortes secos também contribuem para o suspense.

Os animais são leitmotiv do filme. Há o pintinho no ovo, as baratas, o morcego da história da irmã de Otávio, o museu de bichos empalhados, com o bezerro de duas cabeças, o monstro e o cachorro raivoso. Com exceção do cachorro, todos os outros animais estão mortos. O filme comporta a leitura de que a notória contenção da agressividade de Otávio, sua pulsão de vida, portanto, tem como analogia os animais inertes. Os diversos índices orgânicos – o sangue no pano de prato, as peças de carne do mercado, os vermes misturados com cabelo que obstruem o encanamento – relacionados ao aprisionamento dos animais, servem como metáfora da repressão do instinto humano.

A sofisticação da crítica ao trabalho no longa encontra-se na indicação de que a adequação necessária para se encaixar nas engrenagens capitalistas atuais é uma repressão ainda maior do que aquela exigida para a vida em sociedade, como Freud desenvolve em O Mal-Estar na Civilização. Em um misto de perplexidade e desespero, o grito final de Otávio é um pedido de libertação.