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Produção de baixíssimo orçamento faz raio X da juventude contemporânea

Segundo um amigo meu, estudante de cinema, términos de relacionamento são temas muito recorrentes nos roteiros dos curtas de seus colegas, aspirantes a cineastas. Arrisco afirmar que a tendência se justifica no fato de os rompimentos amorosos serem um dos primeiros e, normalmente, mais marcantes dramas que alguém de 20 e poucos anos sofre. Lidar com a rejeição do parceiro e com o fim das ilusões românticas faz parte do amadurecimento.

Apesar da forte carga dramática que o assunto suscita, o longa de estreia de Matheus Souza, Apenas o Fim, não é melancólico, aspecto que se configura como uma das fragilidades do filme. Após a personagem de Érika Mader anunciar ao namorado que está indo embora em uma hora, o que corresponde ao tempo que lhes resta como casal, os dois especulam sobre o futuro e fazem um balanço do relacionamento enquanto andam pelo campus da PUC-RJ. Estas sequências são intercaladas com flashbacks, em preto e branco, de momentos da vida dos personagens.

Durante o diálogo, diversos ícones da cultura pop e objetos de consumo cultural de uma geração são evocados, desde o Orkut e o Playstation, a Cavaleiros do Zodíaco, Pokémon e Transformers, até Backstreet Boys e Radiohead. Mistura-se neste caldeirão de referências Bergman e Godard, afinal os personagens são estudantes de cinema. Em uma sociedade em que você é o que consome, estes símbolos surgem como forma de conhecermos os personagens. A metáfora entre o amor e os hambúrgueres do McDonald´s, feita pelo personagem de Gregório Duvivier, também diz muito sobre esta geração e o caráter fluido das relações na contemporaneidade.

Apenas o Fim é um filme feito por jovens e para jovens. Érika e Gregório transpiram leveza, vivacidade e despreocupação. Ela quer ser atriz, ele roteirista. Os tons verde claro das árvores do campus e a fotografia luminosa se aliam à força dos atores, principalmente da inquieta personagem de Érika, na composição desta imagem da potencialidade da juventude. O fato de a garota andar sem parar, fazendo com que seu namorado esteja sempre a segui-la, reflete sua necessidade por novas experiências e descobertas. Apesar de não revelar seu destino, é provável que a garota esteja rumo a um intercâmbio, viagem que simboliza uma espécie de rito de passagem para grande parte dos jovens de classe média brasileiros.

Ao mesmo tempo em que condensa características universais desta faixa etária, o filme traz a aura da juventude carioca, por meio das gírias e do modo peculiar de se portar e se vestir. A levada mansa da canção dos Los Hermanos, grupo fundado por estudantes da PUC-RJ, que encerra o longa, também ajuda a caracterizar o clima desta geração.

O filme foi realizado com baixíssimo orçamento em esquema de produção quase amador, em que todos trabalharam de graça, com exceção do técnico de som. Os protagonistas eram colegas de Matheus, e os equipamentos, emprestados da faculdade. Estas características, somadas aos diálogos coloquiais bem elaborados e à filmagem com câmera na mão, remetem a longas de alguns dos “jovens turcos” da nouvelle vague francesa.

O próprio diretor confirma o nítido parentesco de Apenas o Fim com Antes do Amanhecer e Antes do Anoitecer de Richard Linklater. Woody Allen também é uma importante referência, assim como os filmes do brasileiro Domingos de Oliveira, que atualmente desenvolve projetos com o cineasta estreante.

Apesar das limitações devido à inexperiência e aos escassos recursos técnicos, o despretensioso longa de Matheus é um convite a viagens nostálgicas à época da universidade ou, para os que têm 20 e poucos anos, um lembrete de que vivem a melhor parte de suas vidas. Que sua corajosa empreitada sirva de incentivo a novos diretores e que o frescor deste seu primeiro filme torne-se uma marca de sua filmografia.

 Aguardaremos.

Publicada no Guia da Semana